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EDSON BUENO DE CAMARGO

 

mostruário 43

 

jardim dos deuses

 

 

somos formigas no jardim de deus

que nos pisa distraído enquanto caminha

 

a terra ruge

e nos assustamos

e então nos inventamos deus

para aplacar o medo

e o fogo para matar o escuro

 

somos crianças no jardim do éden

em busca do esterco do crescimento

somos o pálio da explosão de uma super-nova

animal inquieto da criação

 

somos o galho da roseira que seca no inverno

e revive a primavera

crianças de pedra no jardim de correntes

sonhos de aço e balas de canhão

 

somos insetos verdes escalando a parede

ninfas de ontem

louva-a-deus em busca de copular hoje

lagartas de fogo em fúria

semente de nuncas

e facas afiadas de obsidiana preta

 

e contudo nem esbarramos nas saias de nossa mãe

que vaga nua no espaço de seus azuis

e seus irmãos errantes

 

e no entanto

térmites construímos casas e cidades

para serem derrubadas pelo vento

monumentos fantásticos para o tempo e o efêmero

 

somos formigas no jardim dos deuses
que nos pisam distraídos enquanto caminham

 

 

 

 

o umbigo

 

centro geodésico do mundo

o umbigo

carvão e sal

ponto exato da criação de tudo

e da fundação da cidade que nos abriga e encarcera

com amor e avareza

 

cada corpo um universo

em um copo

preso aos círculos celestes

água que a tudo solve

mas não absolve pecados em pedaços

 

e mesmo assim tudo ressoa

tudo se liga em algum ponto

 

um oceano de viúvas negras

e seus ventres vermelhos como ampulhetas

espreitam no escuro

negro como pedras escarpadas e seus dentes

dois anéis de abismo

e a cópula sem libido

e o seguir atento

 

 

 

 

 

tecido

 

o poema se tece de muitas linhas

é tecido

pelo fio da linha

que compõe o contorno de cada palavra

 

palavras tecidas

já que tessitura vem de tecido

palavras de mesma raiz ancestral

fio a fio

meandros e laçadas

 

o texto é tear de palavras

lançadeiras diversas do verbo

entrecruzam o passado e o futuro

ferramentas de precisão e escritura

cálamo

pincel

outros

 

caminho para a tinta

descanso para o verbo

 

 

 

 

mariposas

 

um cão coleta seu latido

em uma lua descalça

que atravessa a rua molhada

diante de minha casa

onde o granito

a estilhaça em miríades

de pontos brancos

 

latido que se atreve ao brilho

luz de atrair mariposas

silício fundido e tratado

mecanismos complexos

e vácuo

 

não são visíveis as estrelas e vagalumes

 

 

 

 

catedral de giz

 

 

1

 

sólido silêncio

catedral de giz

esqueletos microscópicos calcinados

de tempo

até a cal

 

estuque a suster paredes eremitas

herméticas e hermafroditas

(o ápice da perfeição de dois mundos)

 

nada a dizer ao

canto do galo

de bronze

sobre a velha igreja barroca

e o tinir do sino oco do mundo

os metais vazios e seus dedos sangrentos

e gangrenados

 

o sol a pino

seca as sementes de amanhã e de toda a esperança

as calçadas divagam solas de sapato

e bitucas de cigarro

 

o vento mede as distancias

entre o sol e a terra e a terra e a lua

por duas vezes

 

grãos de areia contados em estrelas

e cisternas secas

e potes astecas quebrados

 

2

 

um cão corta o passeio

com feridas abertas

com lástimas de morte e saudades

 

um cão serpente

escamas lustras

de olhos luzidios

come os cabelos

do pesadelo

 

um cão menor

morto

jaz nas esquinas de água azul

como água fervendo

 

3

 

olhos de opala

(de mil cores brilhantes e vibrantes)

caleidoscópio de raízes e bétulas

espectro luminoso de toda a criação

 

4

 

ainda assim

corre todos os dias à espera

 

a estrada é a mesma de antes

ainda escorre o sangue abissal

dos dias ocos

 

beija a pálpebra com toda a pestilência

e é possível amar aqui

sobre os trapos rotos

que se transformaram estes dias

para todo o sempre e agora

 

 

 

 

amianto

 

 

vulva com dentes

de amianto

a mastigar o câncer de cada dia

fornalha de vitrificar entranhas

azulejos vermelhos

de sangue e água

ao calor que ali espera 

guardar ternos

em conforto

de aquários precipitados

 

 

 

lento incenso

 

 

as rosas apendoam no jardim

grandes buquês brancos

anunciam o fim do verão

tempestades de fim de março

a entoar hinos à gravidade

 

são sinos a tinir todos

com o som de trovões

de carvão ardente

 

este pedaço de mundo é a paz perdida

cela de monges montanheses

em pérfida misantropia

 

as dores do luto

não abandonaram

o choro convulsivo

de grandes cinzeiros cheios

 

precipita a fina garoa

e o cigarro queima lento incenso

 

o poema não se conjumina

à xícara abandonada

que faz aniversário de uma semana onde está

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Edson Bueno de Camargo nasceu em Santo André - SP, em 24 de julho de 1962,  mora em Mauá – SP.

 Publicou: “cabalísticos” Coleção Orpheu –Editora Multifoco – Rio de Janeiro – 2010,; “De Lembranças & Fórmulas Mágicas” Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2007; ”O Mapa do Abismo e Outros Poemas” Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2006,  “Poemas do Século Passado-1982-2000 edição de autor - Mauá - 2002; “Cortinas” (edição artesanal), com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi - Mauá - 1981; foi publicado esparsamente em algumas antologias poéticas, jornais e revistas literárias, no papel e na Internet.

Recebeu entre outras, as premiações: CONCURSO LITERÁRIO – SÃO BERNARDO DO CAMPO – Premiado na Categoria Poesia Nacional – 2010; 1º lugar 5° FESTIVAL SANTA LÚCIA DE CONTOS E POESIAS – FESTCOPO - Modalidade- Poesia – 2010; lugar nacional - 6º CONCURSO LITERÁRIO DE SUZANO – Categoria Poesia - 2010 lugar nacional - 4º CONCURSO LITERÁRIO DE SUZANO – Categoria Poesia - 2008; lugar do PRÊMIO OFF-FLIP DE LITERATURA – 2006 – categoria Poesia.

Participa do grupo poético/ literário Taba de Corumbê da cidade de Mauá –SP.

 

Edson Bueno de Camargo

Rua José Cezário Mendes, 104 Vila Noêmia – Mauá – SP – Brasil.

CEP – 09370-600

correio eletrônico: camargoeb@ig.com.br

 

http://umalagartadefogo.blogspot.com/

http://inventariodn.blogspot.com/

http://www.secrel.com.br/jpoesia/ebcamargo.html

http://www.gargantadaserpente.com/toca/poetas/edson_bc.php

http://www.meiotom.art.br/edsonbuenopo.htm

http://www.pensador.info/colecao/camargoeb/

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=5443045

http://www.youtube.com/camargoeb