Meiotom - poesia


 

 

EDSON BUENO DE CAMARGO

 

preto

 

ônix

absorve a não refração

nega ao olho

o espetro

 

turmalina

carvão

filhos e filhas  da terra

seu sangue mineral

a correr candente

 

de outra cor negada

basalto

asfalto

betume a aflorar no deserto

em Mar Morto

 

tudo pedra

tudo pó

todos nós

 

 

 

 

Lilith

 

entre a escolha

entre a mulher virtuosa

e a que caminha sinuosa

 

embora cindido

eu prefiro a que tenha asas

 

que me beije como um anjo

e escolha a posição que quiser

 

 

 

 

cascos negros

 

o céu se pinta

aquarela medonha

 

sob este piso que se move

homens  trágicos

esperam por sua sentença

 

este céu é cavalo de cascos negros

cavalga trôpego precipícios

olhos de opala em fogo

todas as cores do arco-íris

 

 

:

mas agora

nada se vê

tudo é obscuro véu

 

 

 

Babel

 

a linguagem

se veste impossível

à medida

que cada um

tem própria língua

 

Babel ainda se faz todos os dias

uma torre se erige

                        de dentes e sangue

 

cingida dos ossos negros da palavra

medra

sobre a superfície branca

 

 

 

 

 

óleo

 

o olho caminha pelos ladrilhos

procuro o espelho

onde não está mais

(mais uma vez

traído pela memória)

 

a casa antiga

insiste em

esconder-se nas paredes da nova

 

como se seus escombros enterrados

mantivessem-se vivos

(a custa de parcas lembranças)

 

as sombras macias do tempo

de seus fantasmas com cheiro

de sal

(um mar no interior de cada aquário)

 

enganam-se todos

que acreditam em memórias pétreas

estas traíram a palavra

e a palavra é tudo que nos resta

esta língua inchada de versos apodrecidos

que tem de serem extirpados com regularidade

 

a calva branca das letras

ósseas nadadeiras de celacantos

esquecidos de serem extintos

 

as noites mal dormidas de pesadelos

e esta palavra que brota do chão

como óleo negro

 

a alma da casa nova

às vezes se adoece da sepultada

 

 

 

 

 

mantra

 

quando

trouxeram o corpo

da mãe

envolta em algas apodrecidas

 

enrolaram seus cabelos com as mãos

e fizeram do sangue que escorria

e do pranto

a mortalha

 

porque o caís à noite

é visto como uma muralha instransponível

e os titãs de chapas de aço enferrujados

fazem da estrutura pouso

 

são luzes irreais

e mal iluminam a faina

de mãos e bocas estrangeiras

moídas e feitas carga

 

e corre o cheiro baço

e o perfume inconveniente

das vaginas das moças prostitutas

dedicadas e tensas

no aguarde de sua vez de trabalhar

no descanso do sêmen derramado

 

e os pederastas exilados

sempre voltam de mãos vazias

mas suas mães os esperam

(descer à terra é um parto que se repete)

 

e as pedras que se derramaram no mar

dormem profundos sonos

sob às águas barrentas

e o sumo dos navios atracados

 

e cada peixe que sobrevive no canal

é uma sepultura que nada

em seus estômagos jazem

tantos marinheiros devorados nas profundezas

 

e agora este luto infinito

que se entende como corda no horizonte

e em seu canto de corais engastados às âncoras

o mar rebenta como um mantra        

 

 

 

 

os anjos e os santos

 

os vidros

bebem os reflexos do dia

lento

a luz se extingue

 

ai os anjos e

os santos espreitam

nas encruzilhadas

observam atônitos

o medo disforme dos esquecidos

a boca escancarada e sem som

 

o prédio é música diatônica

o canto da grama crescendo

a primavera está por todos os lados

flores urbanas enfrentam a morte

 

lacônico

o Sol não responde

as perguntas tortas desta tarde

e a figueira descansa seu sono dos dias

 

o cromo das costas dos dedos

as romãs foram esquecidas

 

o velho se repete no novo

de forma indefinida e definitiva

(na memória tudo mente)