Meiotom - poesia


 

 

EDSON BUENO DE CAMARGO

 

Mostruário-50

 

Edson Bueno de Camargo - Santo André - SP, 1962, mora  em Mauá – SP. Poeta, pedagogo, fotógrafo extemporâneo e entusiasta de arte-postal. 

 

Publicou: “a fome insaciável dos olhos” -  Editora Patuá – São Paulo-  2013;  “cabalísticos” Orpheu – Editora Multifoco – Rio de Janeiro – 2010; “De Lembranças & Fórmulas Mágicas” Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2007; ”O Mapa do Abismo e Outros Poemas” Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2006,  “Poemas do Século Passado-1982-2000” e o eBook “linho branco”, participou de algumas antologias poéticas e publicações literárias diversas: Babel Poética, Zunai, Germina, Meiotom, Confraria do Vento,  O Casulo, Celuzlose, entre outras. 

 

correio eletrônico: camargoeb@ig.com.br

 

http://umalagartadefogo.blogspot.com/

http://inventariodn.blogspot.com/

http://issuu.com/edsonbuenodecamargo/docs/linho_branco_livro_ebook

 

                                                       

 

estraçalhados

 

 

durmo coberto

por pássaros

 

e tua ausência me dói

 

rebento minhas veias

em sacrifício

a deuses

que não compreendo

mas que me pedem sangue

 

 

as palavras

constroem meu ouvido

e olvido-me

o tempo todo

 

durmo agasalhado

por plumas

de teus pássaros

estraçalhados

 

e na expectativa

de teu beijo

 

ressono

e sonho

em infernos

 

 

                                   

pão

 

 

para fazer um pão

são necessárias mãos
e um amor infinito

ao ato da alimentação

para fazer um infinito
é preciso usar as mãos

como se fosse fazer um pão

 

 

 

 

 

 

 

                                                                    

primavera

 

primeiro o vento te cobre a pele

com aquela brisa gostosa

o arrepio de frio

o sentir-se vestido de ar

depois o cheiro da grama

da terra molhada

 

fechar os olhos

e ouvir a vinda dos pingos

o breve silêncio

a parede de água a se aproximar

 

a roupa molhada colada ao corpo

 

abrir a boca e sentir

o gosto da água gelada

misturado ao suor recente do rosto

 

tudo tem cheiro de sol

tem gosto de sol

mas o sol não está

 

por fim abrir os olhos

e ver as réstias de sol

furando as nuvens

e estas mitigando

coadas da chuva

 

 

tem prazeres

que o tempo não come

 

 

 

                                          

            a cidade nos fala

 

 

a cidade nos fala

por signos obscuros

garatujas de difícil decifração
a língua incompreensível

dos anjos bêbados

a cidade nos fala

pela linguagem das pedras

dos ferrolhos emperrados

metais

degustados lentamente pela ferrugem

a casa da velha senhora

cega

e suas orações aos arcanjos

Santana Mestra sobre a balaustra de cimento
todos os pedaços de cerâmica vermelha

que constituem o mapa dos mundos imaginários

 

a casa que tem rosas plantadas

e abelhas sadias da cidade

o cão vigilante a assuntar a rua

 

para entender a cidade

é preciso ler as trincas das calçadas

grifos do destino desenhado
é preciso ser geomante e astrólogo

 

 

a cidade nos fala

o tempo todo

 

e nem sempre ouvimos

 

 

 

                                        

 

a casa de meu pai

 

creio que não tenho como retornar

à casa de meu pai

há muito passei da linha de retorno

o momento chegou e foi embora

o limite da possibilidade da volta

um farol no seco dizendo

ida

hoje carrego minha casa

dentro de mim

onde quer que esteja

como um molusco pré-histórico

calcifiquei o fóssil de minha casa

em minhas costas

 

já foi devorado o tempo

em que comíamos espelhos e especiarias

quebraram as ampulhetas de ossos de dedos

quedaram as pálpebras

em cansaço

 

agora só a rude pedra de sal nos dentes

e toda a prata que consegui

enfeita minha boca

a casa de meu pai

ainda acena como abrigo

mas agora é desconfortável

como um caixão menor que o corpo

 

ainda funciona como fresco abrigo

e meu velho pai me espera a oferecer

uma caneca de água às mãos

 

mas esta casa

com o perfume turvo de minha infância

nunca mais será a minha

 

acordo do sonho já também envelhecido

onde a casa de meus nascimentos

se plantava sobre uma outra em ruínas

e  minha casa nova crescia sobre os escombros

 

hoje sou eu

o velho pai

com água, sal, pão e benção

no alpendre da casa a aguardar

 

e meus ancestrais às minhas costas

a me esperar                                                              

 

 

lento suicídio

 

 

hoje a poesia murcha em minha boca

deste tempo passadiço

em que poemas se enforcam

em correntes de relógio

 

foi-se o tempo

em que dividíamos o pão seco

e a erva amarga

e ríamos de nossas impropriedades

 

hoje o verso velho

e de longas barbas

vem confundir o branco dos olhos

com o das sobrancelhas

 

roo este poema velho e amanhecido

o pão feito com o sal

da estatua da esposa de Lot

olhar para trás é pecado

a nostalgia lento suicídio

 

 

respirar

 

o cálamo exige escriba
de mãos delicadas
e espírito agudo

é necessário ser a palavra
respirar o papel
ver o poema
na tinta que descansa

 

 

 

fechadura

 

ainda guardo o olho
em uma gaveta na porta
como fechadura verde
do passado

a luz passadiça
reverte o medo
que a luz
passe pela fechadura
como buracos de coelho

sobre a mesa
relógio sem ponteiros
cartola
e uma concha

 

 

Nossa Senhora da Defesa

 



espia a rua
às passagens ligeiras das pessoas
nossa senhora da defesa
quase imperceptível

exorcismos em letras de carvão
muro de tijolos vivos
orações em papéis na chuva

casas velhas tem dentes de telha

a velha cega teme os mortos

teme como todos nós
que nos busquem

 

 

 

dois cães negros em diadema

 

 

 

dois cães negros

sobem a Rua Amélia Eugênia

perdidos como filhotes para atropelamento

tenho a sensação

de já vê-los em um sonho

dois cães negros

caminhando perdidos

destes de grande porte

raças bravias tornadas dóceis

enterram o perigo

nas profundezas da ancestralidade

 

o motorista do taxi

fala de sua cachorra morta

uma amputação do afeto

ambos nos perdemos no tempo

do sonho de animais mortos

a conversa se alonga

o caminho se desvia

e as ruas se mostram estranhas

 

hora de retornar deste desvio precário e provisório

sou um estrangeiro nesta cidade

não conheço seus estios e estações

e as línguas flamejantes dos seus sóis

 

em seus pilares

não encimam meus brasões

não se fincam em minha sobriedade

e veias

 

mas algo

sempre me traz aqui

no eco de suas palavras

escritas nos muros pelos poetas

 

sua poesia

tão suburbana quanto minha casa

 

aos poucos os cães perdem o sentido

agora os livros que contam histórias amarelas

 

uma boa cidade

é onde podemos enterrar o coração