| Meiotom - poesia |
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J. GERALDO NERES |
A M B R O S I A

sentir o ritmo
e
mergulhar no cântico das águas
o grito
revela o paladar-líquido do orvalho-carne
moldura debruçada num cálice de música e
palavras
I
na barranca
pintura de medo
perfume de lua
com tranças de árvore
teço um balanço
e bailo nas estrelas
a ciranda dos sonhos

II
com vestes
estelares
dragões na
cintura
as faces da lua
no peregrino dorso
n’aquarela
gritos
dilaceram
girassóis
III
o sexo grita
as dores do arco-íris
espasmo secular
gotas insanas
relevo sem tramas

IV
nas lágrimas
a face misturada
lava
outras faces
o mar
selvagem
se
curva
crua de
segredos
V
um punhal
onírico
tatua
na
película
do
corpo
dezessete pedras
giram o
castelo
nas
sandálias da lua

VI
o corpo
suado
moldura d’água
bebe natureza
um aquário soluça
seu corpo deserto
VII
delírio
prateado
protesto calado de uma gueixa
orquídea em máscara de orvalho
sentencia despedidas
(temporal de saquê)

VIII
cativos
em sonhos verdes
amaru e sade
em versos
cálix
corpo
cálido
convexo
guirlanda mítica
cantiga tênue
madrugada
nua
IX
procura
o corpo dentro de si
em atos de selvageria
rasgam-se
sussurros
no oitavo dia semanal
a madrugada extasiada
banha-se no néctar uterino
da mãe-terra

X
fantasmas se entregam à
noite
o dia beija
a face da
madrugada
XI
os seus
pecados
cavo pela metade
sem qualquer esforço
as sobras dos seus atos
deixo para o julgamento
da sua amada
isso
se ainda lhe restou alguma

XII
riacho da lua guerreira
peixe e
fogo
na
moldura
o dia no
ventre
do centauro
negro
flecha
umedecida
na aurora
boreal
XIII
cântico na órbita-azul
verbo de
tambores
e
silêncios
água na
caça
de um
sagitário
e
labirintos
grito as melodias
do
Vesúvio
esfinge
semeia
o nono
girassol
no relógio lunar

XIV
Âmago
ser
libertino
mescla-se com
líquido
em manhoso
êxtase
o deleite compassa o
desatino
tatuo um poema no seu
dorso
manifesto silente de
mistérios
a madrugada estimula
tramas
estrelas brincam no
espelho d’alma
orvalho
o paladar do
amanhecer
são versos em papiro
imaculado
XV
roçar
arco-íris
com dedos
cristalinos
sussurrar palavras
extintas
no dicionário da
floresta carnal
punhal
aveludado
bálsamo em cicatriz
azul
ingênuo
instante
poema
bilíngüe
modela nuvens de algodão

XVI
estrela
marinha
aquário de
vento
gota
tecelã
suspensa
(olhos-tempestade)
o seio
lunar
contorna o
orvalho
pedra de
fogo
lateja na
aquarela-ventre
gênesis
XVII
no
leito
silhueta
sol de lábios
místicos
na
porta
o som chama-me a
bailar
reina-mulher
cavalga e
alimenta
tatua seu
mapa
neste
peregrino
na
barca-desejo
o suor da
noite
sem
estratégia
sem
medo-amanhã
me
entrego
ô
caçadora!
Avalon
se desenha na seiva
navego

XVIII
mordo a noite
e os espelhos de luz
– mulher
retalhos
de palavras
carnívoras
no tempo de
sombras
corpo
labirinto de meus
olhos
a música do seu
ventre
revela as portas da
morte
abraço essa
melodia
a seiva de uma
estrela
e sinto a canção do
silêncio
percorrer pelo
corpo
um
beijo
recebe a primeira gota
de orvalho
me alimento do seu
sorriso
oferta de
sangue
