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OLHOS DE
BARRO
Serpentes giram no nevoeiro. Repousam nos olhos das vozes, nas pedras únicas, nos
muros do tempo. Máscaras de inverno "crepuscular e das
feras com seus Quixotes".
Utopia levantando fileiras de deuses. Pássaro do novo pacto "andaluz
chegando à seu presságio, ecos da selva
africana".
A linguagem dos versos - habitantes dos dias ausentes -
pedras para construir o girassol galáctico. O diálogo do
jardim de orquídeas. O grito “a
imagem que se vai à origem”. Os homens: cidade do tempo - o caminho na noite abissal é a
linguagem em versos. O poeta rasga a
imagem “caos e cicatriz das sombras”. Falta só escalar até o verso, só,
mas com seu espelho; o eco da alma é o abandono. Só para fazer existir-se no
rio do tempo “água, você é e
gotas do tempo você será”.
“Somos rios sobre rios, olhos
sobre olhos”.
-Desperta o rio e seja o silêncio do
tempo. Elabora os gritos do
caminho
ausente.
A morte e sua lírica língua olham para o vento do verso, e diz - não serei teu
silêncio, não serei. Sou o lugar e o nevoeiro. Sou o rosto desconhecido.
Sou roxa de línguas verdes. Sou o silêncio vertebrado das águas. Sou
esse futuro entreaberto que se esquiva dos símbolos inúteis. Vamos, tenha fé! Desdobra teu espelho, tua
morte vaga no horizonte. Eu não
sou o horizonte, talvez seja, mas hoje, não. Agora me perguntam: aonde irão os sonhos? E os profundos
caminhos que
elevam a consciência? O
tempo é minha garganta e nela há filas de corpos
seminus sem silhuetas de luas; um país em ruínas caminhando por um deserto hipnotizado por assaltantes do verbo,
onde as serpentes encantam.
Muitas portas no copo de água, e
algumas páginas,
mesmo que seja uma colagem, que se dissipa no silêncio. O onírico vai
salvando o canto do infinito. Compõe a partitura num rio cheio de labirintos secos,
com a urgência do exílio destes
dias. Mesmo que
avancemos pelos moinhos de vento para o inevitável, de quantas
portas e círculos serei feito? Sou o lugar e a neblina, a casa
paralela.
O tempo entretece suas raízes, desenha
seus círculos de fogo; dois relógios esperam um
horizonte perdido. Um vai
morrer seu tempo e abre seu círculo; se vê correr no fogo
onde se bebia a noite. Os moinhos de nossa miséria são tuas paredes, onde
choram as noites;
“me levantam sonâmbulo crucificado”, para ser gotas regadas de
sal um “mosaico azul com línguas brancas com terra no rosto”. O dia caminha com seus incertos mundos, pelos poemas que não escrevo. Uma língua de cachorro morto anda por esses lábios. O
aroma de terra se repete nos
dias. O jardim de
metal é o presídio que a
alma trazia ao
tempo; encarna teu corpo
em alguma porta. Os lábios da cidade em claro-escuro. Rosto de
cristal leviano. Teus pés - vitrines de vozes -
respiram em tua garganta e saem de teu corpo - invocam o verso solitário - os traços de
uma eclipse; que se
façam novos edifícios de
páginas e abismos. Levanta tua
voz como a água e traga tua
terra fértil.
Esses mitos se vão e vêm, não encontram os deuses do sonho, estão imersos no silêncio. “Caem teus símbolos à terra que os recebe”.
Somos pedras com signos de sangue. As cicatrizes:
uma cruz do tempo e do não tempo. Estará na porta, um só sentido, a inútil morte dos horizontes. Na ponta da língua a lua
cheia; rio perdido na memória nos tempos das águas. O invisível rosto abre o dia;
“o violão da luz trança um arco
íris e varre as calçadas”. E a esse sol, um rio originário.
O dia não se adorna só. Na floresta
dos pinheiros e seus gnomos
pulsando, esperam a chuva, voz
da qual nascemos.
[inspirado no
“Tiempos presenciales
del yo”,
de Luis Gilberto
Caraballo]
José Geraldo
Neres
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