Meiotom - poesia


 

 

J. GERALDO NERES

 

OLHOS DE BARRO

 


 

 

 Serpentes giram no nevoeiro. Repousam nos olhos das vozes, nas pedras únicas, nos muros do tempo. Máscaras de inverno "crepuscular e das feras com seus Quixotes". Utopia levantando fileiras de deuses. Pássaro do novo pacto "andaluz chegando à seu presságio, ecos da selva africana". 

 

A linguagem dos versos - habitantes dos dias ausentes - pedras para construir o girassol galáctico. O diálogo do jardim de orquídeas. O grito “a imagem que se vai à origem”. Os homens: cidade do tempo - o caminho na noite abissal é a linguagem em versos. O poeta rasga a imagem “caos e cicatriz das sombras”. Falta só escalar até o verso, só, mas com seu espelho; o eco da alma é o abandono. Só para fazer existir-se no rio do tempo “água, você é e gotas do tempo você será”. “Somos rios sobre rios, olhos sobre olhos”.

  

-Desperta o rio e seja o silêncio do tempo. Elabora os gritos do caminho ausente.

 

A morte e sua lírica língua olham para o vento do verso, e diz - não serei teu silêncio, não serei. Sou o lugar e o nevoeiro. Sou o rosto desconhecido. Sou roxa de línguas verdes.  Sou o silêncio vertebrado das águas. Sou esse futuro entreaberto que se esquiva dos símbolos inúteis. Vamos, tenha fé! Desdobra teu espelho, tua morte vaga no horizonte. Eu não sou o horizonte, talvez seja, mas hoje, não. Agora me perguntam: aonde irão os sonhos? E os profundos caminhos que elevam a consciência? O tempo é minha garganta e nela há filas de corpos seminus sem silhuetas de luas; um país em ruínas caminhando por um deserto hipnotizado por assaltantes do verbo, onde as serpentes encantam.

 

Muitas portas no copo de água, e algumas páginas, mesmo que seja uma colagem, que se dissipa no silêncio. O onírico vai salvando o canto do infinito. Compõe a partitura num rio cheio de labirintos secos, com a urgência do exílio destes dias. Mesmo que avancemos pelos moinhos de vento para o inevitável, de quantas portas e círculos serei feito? Sou o lugar e a neblina, a casa paralela.

 

O tempo  entretece  suas raízes, desenha seus círculos de fogo;  dois relógios esperam um horizonte perdido. Um vai morrer seu tempo e abre seu círculo; se vê correr no fogo onde se bebia a noite. Os moinhos de nossa miséria são tuas paredes, onde choram as noites; “me levantam sonâmbulo crucificado”, para ser gotas regadas de sal ummosaico azul com línguas brancas com terra no rosto”. O dia caminha com seus incertos mundos, pelos poemas que não escrevo. Uma língua de cachorro morto anda por esses lábios. O aroma de terra se repete nos dias. O jardim de metal é o presídio que a alma trazia ao tempo; encarna teu corpo em alguma porta. Os lábios da cidade em claro-escuro. Rosto de cristal leviano. Teus pés - vitrines  de vozes - respiram em tua garganta e saem de teu corpo - invocam o verso solitário - os traços de uma eclipse; que se façam novos edifícios de páginas e abismos. Levanta tua voz como a água e traga tua terra fértil.

 

Esses mitos se vão e vêm, não encontram os deuses do sonho, estão imersos no silêncio. “Caem teus símbolos à terra que os recebe”. Somos pedras com signos de sangue. As cicatrizes: uma cruz do tempo e do não tempo. Estará na porta, um só sentido, a inútil morte dos horizontes. Na ponta da língua a lua cheia; rio perdido na memória nos tempos das águas. O invisível rosto abre o dia; “o violão da luz trança um arco íris e varre as calçadas”. E a esse sol, um rio originário.

 

O dia não se adorna só. Na floresta dos pinheiros e seus gnomos pulsando, esperam a chuva, voz da qual nascemos.

 

[inspirado no “Tiempos presenciales del yo”,

de Luis Gilberto Caraballo]

 

José Geraldo Neres