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A MORTE MORDE O DORSO DO DENTE

NESTOR LAMPROS

POESIAS DO LIVRO( A SER LANÇADO) “ A MORTE MORDE O DORSO DOS DENTES”

 

 

 

 

SUICIDA

 

o suicida

em graça

voa no céu

como

uma garça

 

 

LATIDO

 

o cão ouve

nosso medo

 

e late

pelo osso

dos nossos

desesperos

 

e enterra

na terra

da fome

nossos

segredos

 

 

33

 

a idade

que vivi: 33

 

de cima vejo luzes

nas nuvens

 

e a escuridão em baixo

 

nascem de minhas

dores

 

-tenho sede!

 

deram – me

vinagre  e fel

 

e escolhi

morrer

por estes

 

que

ausente

de palavras

 

morrem

também

pelo meu

desconforto

 

todos

têm sua

hora

de partir

 

e eu

a de rir

 

 

ANJOS

 

a legião

de anjos

-sem saber

se

brancos

ou negros-

estão voando

sobre

a órbita

dos meus

olhos

 

enquanto

isso

viso

a amplidão

da fruta

mais que

madura

sem

anjo

da guarda

ou deus

ou guarda-costas

 

tem coisas

que ela

sabe

e

eu não

avento:

o voo

e o

cumprimento

do vento

 

CIDADE

 

a cidade

normal

envolto

em pilhas

de muros

 

a solidão é

um murro

 

na prisão

dos novos

donos

 

 

SIRON FRANCO

 

siron
vesúvio que
inalas o mundo

o pão
comes
na transfusão de cores
na humana
trama

dormes com
a forma cúbica
expressiva

na
qualidade
dos homens

e na candura
que urra
nas crianças
maduras
nas alturas
da vida
- esta
 que anoitece

na fama das ruas

de goiânia
e no aceso

do césio
137

 

 

ESCALADA

 

subi

na mais alta

estrela

 

sorri

e chorei

 

(cosmos

koiné)

 

recobro os olhos

minha aldeia

 

e por fim

o mundo

me vê

e eu vejo

a ela

 

tropeço

invulgar

 

mulher

              -sereia

 

 

 

 

INDAGAÇÃO

 

 

morte:

 

que queres?

não sabes

que nasci

e me levas

ao desaguar

ao entrar

no rio

de tantas águas

de tantas

pedras

de tantos rios?

 

rio ao

norte

da morte

 

e me fazes afundar

sem

exorcizar

este fogo

que me

faz apagar?

 

 

BLAKE

 

blake viu

asas nos colibris

e viu dentro

dos colibris

o perfume

de ossos

imemoriais

 

blake era

verdadeiro

e nasceu primeiro

 

nos ares dos príncipes

aéreos

reordenou

os cenhos

franzidos

e concebeu

a poesia

como  a mão

direita

mas a

esquerda

de minha ternura

meu ocaso

meu esqueleto

essencial

opaco

e alquímico

de mariposa

 

POESIA

 

a arte

estraga

o olho

 

a visão cega

o cego

de paixão

 

não creio

mais

no vulcão

ou vulcões

 

estou preso

livre

nas minhas prisões

 

 

MINHA

CIDADE

 

minha

cidade

refere-se

ao tempo

 

este que

escapa

nos dedos

velozes

do espaço

 

coloridos

num desenho

seguem

andando

 

e o tempo

de escavações

mata o ferido

e come

a carne

dos novos

 

 

A MORTE MORDE

O DORSO

DOS DENTES

 

a morte

é uma

morsa

obesa

 

moças

dormem

e respondem

ao pensamento

não feito

 

a morte

morde o dorso

dos dentes

 

e nasce

incriada

no abismo

nu e dedicado

daqueles

da fotografia

na parede

 

 

 

QUEM SOU?

 

sou urso

meio cansado

 

aparento nuvens

transparentes

e chovo

sorrisos

sem

dentes

 

sorvo

orvalhos

naquilo que

predisse

meu

passado:

trabalho

pesado

iras

sábados

palavras

sedes

 

 

BÊBADO

 

as cidades

explodem

o ar se liquefaz

 

no ponto

culminante

ouço

uma

menina

arrancando

os olhos

 

a noite

se torna

uma grande

onda

vadia

do alagamento

e recobra

ao bêbado

dentro dos

viadutos feios

 

sua mudez

sóbria

 

 

ACORDÂNCIA

 

a morte

acorda

em

mim e

eu

durmo