Meiotom - prosa


 

título

nilson de oliveira

a outra morte de Haroldo Maranhão

 

 

 

Os acertos para a sua vinda foram combinados meses antes. Fazia tempo que não vinha à cidade e estava de um estranho modo curioso para isso. Tudo foi pensado a seu modo. Sempre exigente, não deixava nada em branco. No dia de sua chegada, uma certa ansiedade nos tomou conta. Estávamos todos aguardando. O aeroporto estava vazio, chovia muito, algumas pessoas conversavam num café. Quando seu vôo chegou, pela voz de uma desconhecida veio a notícia: morreu por causas ainda não identificadas. Disse e sumiu. Ficamos por um certo tempo sem entender, mas depois tocamos a coisa normalmente. Saímos direto para o hotel. Conversamos um pouco, tomamos alguns tragos e pouco a pouco fomos nos dispersando. No dia seguinte, pontualmente no horário combinado, estávamos na portaria. Desceu com um ar meio cansado, disse que passara a noite insone; entrou no carro e não disse mais nada; no mesmo ritmo tocamos em frente. Vez ou outra, com o rosto rente ao vidro da porta, observava as imagens que ao longo do percurso iam se alternando. Seu rosto cintilava uma certa nostalgia.

Chegamos cedo, o auditório estava meio vazio, mas pouco a pouco foi se tomando. Sem dizer uma só palavra, com o olhar enterrado no chão, ocupou o lugar que lhe fora reservado, e com um certo tédio aguardou o começo da homenagem. Todos falaram exaustivamente. Faziam-lhe muitas referências; citavam sem parar alguns dos seus escritos, e ele sem dizer nada permanecia inerte, como se nem estivesse ali. A coisa se alongou por algumas horas. Mas já próximo do final, com um tom de solenidade, deram-lhe a palavra. Todas as atenções voltaram-se para sua direção. Com um olhar cansado, ergueu o rosto e fitou qualquer coisa na direção do teto. Em seguida, voltando-se para o público e com sua voz precária, disse:

— Não tenho nada a dizer, quer dizer, nada de especial, nada que já não tenha dito. Apesar da insistência de vocês, nunca tive gosto por essas solenidades. Minha vida é discreta e silenciosa. Há muito estou acolhido nisso. Já não falo sobre a minha obra, minha voz pouco comunica. O cansaço me tomou o corpo. Só posso dizer silêncio.

Após sua fala uma intensa calma soprou no auditório. Uma névoa silenciosa tomou conta de tudo, e ele por alguns instantes permaneceu quieto, mas, já exaurido, levantou-se, andou até a saída e seguiu em frente. Respirou o ar das ruas, andou em qualquer direção, mas sempre recusando os locais do passado, preferia ver a vida, as pessoas, sentir no rosto os ventos do acontecimento. Circulou até onde pode e, cansado, sentou em um café, tomou alguma coisa e respirou. Já aliviado, pensou consigo:

— Fizemos nossos caminhos como o fogo suas centelhas. Sem plano cadastral. Nosso horizonte é trans-humano. Terra que geme e apodrece na esperança. Nós, polidos sem rijeza. Atingir a árvore equivale a morrer. Palavra de outrora que cada dia retorna. Lugar que gira e não se gasta, lugar que...

— Haroldo...Haroldo!

Uma voz chama em sua direção, arrancando-o dos seus pensamentos:

— Haroldo...Haroldo!

É um desconhecido que batendo em seus ombros lhe cumprimenta. Ele ri, acena e permanece quieto. Sem pensar mais em nada, observa o estranho que lentamente se vai distanciando a sua frente até desaparecer por entre os transeuntes. A tarde começa a murchar. O sol avermelhado vai morrendo silencioso. Não acontece nada. Uma calma absoluta vai tomando conta de tudo. Seus olhos cansados começam a fraquejar. Quase apagado sente em seus ouvidos um distante ressoar:

— O verão foi muito intenso, lança a tua sombra sobre os relógios de sol e por sobre o campo aberto desata os teus ventos. Ordena às últimas frutas que fiquem maduras; dá-lhes ainda mais uns dois dias de calor, leva-as à completude e não deixes de pôr no vinho pesado sua última doçura. Quem não tem casa, não irá mais construir. Quem está sozinho, vai ficá-lo ainda mais. Insone, hás de ler, escrever cartas torrenciais e correr as alamedas num inquieto ir e vir enquanto o vento carrega folhas outonais.

 

Nilson Oliveira, reside em Belém, é editor da revista Polichinello, autor de A Outra Morte de Haroldo Maranhão (edições IAP, 2006)