| Meiotom - prosa |
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título |
nilson de oliveira |
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a outra morte
de Haroldo Maranhão Os acertos para a sua vinda foram combinados meses
antes. Fazia tempo que não vinha à cidade e estava de um estranho modo
curioso para isso. Tudo foi pensado a seu modo. Sempre exigente, não
deixava nada Chegamos cedo, o auditório estava meio vazio, mas
pouco a pouco foi se tomando. Sem dizer uma só palavra, com o olhar
enterrado no chão, ocupou o lugar que lhe fora reservado, e com um certo
tédio aguardou o começo da homenagem. Todos falaram exaustivamente.
Faziam-lhe muitas referências; citavam sem parar alguns dos seus escritos,
e ele sem dizer nada permanecia inerte, como se nem estivesse ali. A coisa
se alongou por algumas horas. Mas já próximo do final, com um tom de
solenidade, deram-lhe a palavra. Todas as atenções voltaram-se para sua
direção. Com um olhar cansado, ergueu o rosto e fitou qualquer coisa na
direção do teto. Em seguida, voltando-se para o público e com sua voz
precária, disse: — Não tenho nada a dizer, quer dizer, nada de
especial, nada que já não tenha dito. Apesar da insistência de vocês,
nunca tive gosto por essas solenidades. Minha vida é discreta e
silenciosa. Há muito estou acolhido nisso. Já não falo sobre a minha obra,
minha voz pouco comunica. O cansaço me tomou o corpo. Só posso dizer
silêncio. Após sua fala
uma intensa calma soprou no auditório. Uma névoa silenciosa tomou conta de
tudo, e ele por alguns instantes permaneceu quieto, mas, já exaurido,
levantou-se, andou até a saída e seguiu em frente. Respirou o ar das ruas,
andou em qualquer direção, mas sempre recusando os locais do passado,
preferia ver a vida, as pessoas, sentir no rosto os ventos do
acontecimento. Circulou até onde pode e, cansado, sentou em um café, tomou
alguma coisa e respirou. Já aliviado, pensou
consigo: — Fizemos nossos caminhos como o fogo suas
centelhas. Sem plano cadastral. Nosso horizonte é trans-humano. Terra que
geme e apodrece na esperança. Nós, polidos sem rijeza. Atingir a árvore
equivale a morrer. Palavra de outrora que cada dia retorna. Lugar que gira
e não se gasta, lugar que... — Haroldo...Haroldo! Uma voz chama em sua direção, arrancando-o dos seus
pensamentos: — Haroldo...Haroldo! É um desconhecido que batendo em seus ombros lhe
cumprimenta. Ele ri, acena e permanece quieto. Sem pensar mais em nada,
observa o estranho que lentamente se vai distanciando a sua frente até
desaparecer por entre os transeuntes. A tarde começa a murchar. O sol
avermelhado vai morrendo silencioso. Não acontece nada. Uma calma absoluta
vai tomando conta de tudo. Seus olhos cansados começam a fraquejar. Quase
apagado sente em seus ouvidos um distante
ressoar: — O verão foi muito intenso, lança a tua sombra sobre os relógios de sol e por sobre o campo aberto desata os teus ventos. Ordena às últimas frutas que fiquem maduras; dá-lhes ainda mais uns dois dias de calor, leva-as à completude e não deixes de pôr no vinho pesado sua última doçura. Quem não tem casa, não irá mais construir. Quem está sozinho, vai ficá-lo ainda mais. Insone, hás de ler, escrever cartas torrenciais e correr as alamedas num inquieto ir e vir enquanto o vento carrega folhas outonais.
Nilson Oliveira, reside em Belém, é editor da revista Polichinello, autor de A Outra Morte de Haroldo Maranhão (edições IAP, 2006)
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