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A literatura no
estômago
Por Nilson
Oliveira
A Literatura é uma saúde
[Gilles Deleuze]
[1]
Sempre que nos voltamos à Cena
Literária, na tentativa de perceber os movimentos da vez, nos
deparamos com um novo mapa, seja em nomes, traços ou fisionomias.
Nada mais natural. Afinal, tudo se move. É sempre bom estar aberto a
isso, pois é esse movimento que faz as coisas funcionarem; é ele que
oxigena o espaço, injetando ares de possível, fazendo da literatura
um eterno devir. Mas no coração dessa questão cintila uma outra, que
cresce par e passo fazendo ruir uma parte de toda certeza de antes;
afinal, a Literatura não é uma zona de harmonia, um lugar onde tudo
funciona devidamente, vai sempre ter um fora, uma falha, uma
abertura, seja para seguir ou para escapar, seja para aceitar ou
para abjurar o panorama do que constitui a cena atual. Mas vejamos
do que se trata. Não é novidade que a literatura, nos dias do
presente, sofre de uma terrível desnutrição no que se refere a
críticos e comentadores, figuras essas que vão aos poucos
desaparecendo sem a devida alternância, o que gera um certo vácuo,
mas, em que pese essa constatação, as listas de novidades na
Literatura nunca foram tão extensas e agraciadas com adjetivos de
todo tipo, trazendo na fronte, em falas mais e mais tagarelas, o
curioso título de “novos”. Ou seja, “os novos da Literatura”. Os
cadernos de cultura estampam em suas primeiras páginas, de ano a
ano, sua generosa lista dos “novos”. Essa repetição denota uma quase
insistência, um anúncio que nos lança a um certo cansaço, e a um só
tempo nos trás uma inquietação; o que nos faz pensar nas
circunstâncias desse enunciado, ou melhor na repetição do dito, e,
sobretudo, como na Literatura se refletem essas passagens. Deixamos
claro que o que seguimos não se trata de uma resistência à novidade;
bem ao contrário, sempre estivemos abertos a ela, seja acompanhando
seus laços ou navegando nas suas asas; o que tentamos perceber
nessas linhas é o grau de duração desse dito, “os novos”, assim como
sua mascara publicitária, e como isso se dobra, em termos de
movimentação, no Espaço Literário. Então vamos ao ponto: Quando
Robbe Grillet pensou o Nouveau Roman, pensou em termos de uma
abertura possível, entre referências determinantes da literatura e
novas formas de fazer, numa investida que se engendrava entre dois
espaços: escrever e pensar. Vemos aí a evidência de um projeto,
claro e cristalino, pois Grillet queria, a partir do Nouveau
Roman, um novo percurso a seguir, mas nutrindo-se dos pontos de
ruptura de antes, navegando uma trilha que atravessasse um espaço de
duração, uma fenda aberta por entre tempos diferenciados, no curso
do acontecimento. E nessa esfera combatendo, desbravando, criando,
produzindo o caminho por vir. Sobre isso nos diz Foucault: Quando
se pergunta a Robbe Grillet: o que é o novo Romance? Ele responde: o
novo romance é muito antigo, é Kafka
[1][2];
muito nos afeta o modo como sabiamente Grillet soube absorver as
contribuições que a Literatura deu em obras que injetaram, na forma
e no estilo, ares de ruptura: A evolução não deixou de se
acentuar: Flaubert, Dostoievski, Proust, Joyce, Faulkner, Beckett...
Longe de fazer a tábula rasa do passado, foi a respeito dos nomes
dos nossos precursores que mais facilmente nos pusemos em acordo;
nossa ambição é apenas continuar (...), nos colocarmos na trilha
deles, agora, em nosso tempo
[1][3].
Tal como o Nouveau
Roman, muitos outros casos surgem para evidenciar os pontos de
mobilidade da literatura, pois, sabe-se desde sempre, a partir de
algumas obras, que a Literatura se move através das experiências
empreendidas pela escrita, numa infinidade de movimentações que
cortaram o tempo, as fronteiras, os limites, fazendo dela, a
Literatura, uma força em movimento, tal como nos diz Blanchot:
ela irradia em todas es direções e indica também o caráter do
movimento que é próprio a toda criação literária: só a tornamos
verdadeira buscando-a em todas as direções, perseguidos por ela, mas
ultrapassando-a, empurrados para todos os lados e atraindo-a por
todos os lados
[1][4];
fazendo da Literatura uma máquina que se intensifica à medida que é
posta em ação, pois escrever Literatura é sempre um caso de força
e movimento, nasce sempre de uma vontade de fabricar uma
abertura, de forçar o silêncio para nele poder ecoar, como bem fez
Isidore Ducasse através do seu Conde de Lautréamont, nos revelando,
em sua trajetória, que o nascimento de um representa o apagamento do
outro. Para elucidar essa questão Kafka nos diz: o Nascimento da
literatura se da na passagem de eu para o ele
[1][5].
Esse é o programa de toda literatura moderna da segunda metade
do século XX. Mas essa vontade brota do inconfesso, de um desejo tão
marcante que o faz calar, desviando a voz para o deserto da escrita,
para que possa nessas águas navegar. Assim veio Jöe Bousquet, assim
veio Raymond Russel, da vontade de navegar. Da superfície ao fundo,
da margem ao alto-mar; mas isso não por aventura e, sim, por uma
razão maior, pensada, calculada, que culminou na busca e na
aceitação da obra, no intenso desejo de nisso se entregar, mesmo
implicando no risco da loucura ou da desaparição, pois sabiam eles
que escrever é sempre um caso de riscos e conseqüências. São essas
as marcas que ficam, que desenham o contorno do Espaço Literário.
Assim chegam muitos outros, tatuando a sua marca com o sangue, como
pedia Nietzche: escrevas com sangue e aprenderás que sangue é
espírito
[1][6];
deixando em vermelho vivo as linhas da sua escrita, maculando a
página, perturbando o pensamento, abrindo uma fissura no horizonte.
Mas ninguém foi tão perturbador do que Thomas Bernhard, pois a
paixão de Bernhard pela escrita veio pela peste, da recusa
corrompida em vontade, numa dolorosa metamorfose, passando do ódio
aos livros para um positivo em intensa vontade de escrever, após um
lasso período de internação hospitalar em decorrência de uma grave
doença: jazia numa espécie de catre de campanha, debaixo de um
cobertor cinzento. Passei assim um outono e um inverno. Foi ali que,
imobilizado, comecei escrever; não se pode estar eternamente deitado
diante da mesma montanha sem fazer nada
[1][7].
Essas referências nos indicam que a Literatura, em sua genealogia, é
atravessada de casos de força e combate, de situações que vão a todo
o momento nos empurrando para frente, em busca de novos caminhos,
mas sempre nos fazendo pensar no sentido da caminhada.
Escrever é fazer encontrar sua própria trilha, e nela lapidar seu
tempo, sua forma; é saber aceitar as instabilidades da criação, pois
a Literatura não está a serviço dos dias nem acontece em uma rotina
programada. Vem à medida que é forçada a vir, pois como nos ensina
Celine: escrever é uma caso de forçar a linguagem ao seu limite
[1][8].
Com efeito, a novidade na literatura não surge pelos bons
sentimentos do editor que acaba de lançar sua “nova descoberta” no
mercado, tampouco pelos comentários tagarelas do jornalista da vez
que com seu “faro atento” desperta para o livro que generosamente a
editora acaba de lhe enviar. Isso, por certo, mais e mais nos cansa,
e essa é uma situação que precisa ser sacudida, pois sabemos que
tudo, em matéria de literatura, passa alhures. Essa foi a grande
sacada de Julien Gracq, sacudir as imposturas, pois com seu pequeno
grande livro, A Literatura no Estomago, mais atual que nunca, faz da
escrita uma guerrilha contra a massificação, questionando o juízo
editorial e a febre do imediato, pois soube Gracq que o tempo da
escrita é outro, fora das cronologias, redescoberto na própria
escrita, por fora dos círculos e à margem das tendências e do
mercado. Como pensa Blanchot: O tempo puro, sem acontecimentos,
vacância movente, distância agitada, espaço interior em devir onde
os êxtases do tempo se dispõem numa simultaneidade fascinante, que é
então tudo isso? O próprio tempo da narrativa, o tempo que não está
fora do tempo, mas se experimenta no seu exterior, sob forma de um
espaço, esse espaço imaginário onde a arte encontra e dispõe seus
recursos
[1][9].
Esta bela passagem de Blanchot nos faz pensar sobre a pressa e
ansiedade de alguns escritores, aqueles entregues ao desespero dos
dias, que fazem da escrita um exercício de impaciência na qual a
obra vai de um livro a outro naufragando. Essas escritas vão cada
vez mais tornando-se à semelhança do seu “autor”, assumindo suas
falhas, suas vaidades. O reflexo do “autor” é forte, sua
personalidade ofusca a obra, e a escrita metamorfoseia-se numa
ingênua confissão, então, sua fortaleza, seu “acervo criativo”
sofre, fragiliza-se. É como as asas de Ícaro, não suporta a
intensidade do primeiro sol.
Em outra esfera encontramos em
Michel Butor uma fala atravessada por uma honestidade que atrai para
o seu centro: Não escrevo meus romances para vendê-los, mas para
obter unidade em minha vida; a escrita é para mim uma coluna
vertebral
[1][10],
como Kafka, sabe Butor que escrever é um dedicar-se, é romper os
dias e as noites, pôr-se à vigília, entregar-se à unidade da obra, é
saber que escrita é uma exigência, a coluna vertebral. A
alegria que faz a vida pulsar, a vida outra. Então, para que surge a
Literatura? Surge para fazer nascer uma questão
[1][11],
maior que o escritor, porém ligada à vida, à linguagem, ao
pensamento; sua motivação inteiramente artística vem para recriar as
coisas, mas vem também, como escreve Ezra Pound, para manter a
linguagem em bom estado
[1][12];
viva, vibrátil, porque dela tudo deriva. Nessa ordem vemos uma série
de movimentações que, fora da euforia dos atentos, seguem, discreta
e silenciosamente, o curso do seu objetivo, ou seja, o movimento da
obra. Essas obras, a seu tempo, vez ou outra, cortam o espaço nos
trazendo imensa alegria, revelando nomes, projetos, ondas de força e
inventividade, em figuras como Vicente Franz Cecim, Juliano Pessanha,
Ney Ferraz Paiva, Evandro Affonso Ferreira, André Queiroz, Giselda
Leirner, e alguns outros, que fazem da Literatura um horizonte de
inusitado. Mas vejamos como bem atesta Blanchot: A literatura não
é uma habitação de muitos andares onde cada um escolhe o lugar onde
quer morar
[1][13];
por certo, na trilha de Blanchot, sabemos que a Literatura tem seu
tempo, suas exigências e nem todos querem ou podem transpor esse
limiar, mas encontramos em cada uma dessa figuras, a partir das suas
obras, uma aceitação, uma austeridade e um rigor que fazem da
leitura um corpo magnético, sim, um corpo que atrai, pois, após a
leitura de um livro queremos outros, mas eles são cuidadosos, têm a
preguiça e a paciência necessárias para fazer a obrar aguardar, na
verdade, são contidos por ela, mas aceitam sem hesitar o seu tempo.
Com efeito, encontramos na viagem de Vicente Franz Cecim a paisagem
de um livro só, mas a constituição desse livro é tão intensa que
percorre toda uma vida, ou seja, é constituída a partir de um tempo,
logo, é atravessada por uma duração. Nessa esfera O Livro erige suas
próprias formulas fraturando os sintomas do momento, embarcando num
tempo ontológico, dilatando de um lugar a outro, constituindo o
infinito de uma viagem que se revela por o nome de Andara. Espaço
onde se desmarcam todos os espaços, grau zero da escrita, onde tudo
recomeça na diferença, engendrando uma geografia imaginária, numa
escrita que se faz e refaz continuamente. É por vezes “K O escuro da
semente”, noutras “Ó Serdespanto” ou “O Livro invisível”; tudo forma
uma imensa constelação, onde seu arquiteto desaparece no branco das
suas páginas, mas renasce com mais saúde na penumbra da paisagem
seguinte. E assim seguem as outras ondas jogando na intensidade de
outras praias: Juliano Pessanha e a Fratura do Gênero;
Giselda Leirner e o Intenso; Ney Ferraz e a Força da
Palavra; André Queiroz e a Fissura, Evandro Affonso
Ferreira e a Língua outra. Todos fazendo da literatura uma
matéria viva, inorgânica, sempre porvir.
[1][1]
Gilles Deleuze, Crítica e Clinica.
[1][2]
Michel Foucault, Ditos e Escritos.
[1][3]
Alain Robbe Grillet, Por um Novo Romance.
[1][4]
Maurice Blanchot, A Parte do Fogo.
[1][5]
Franz Kafka, Diário
[1][6]
Nietzche, Assim Falava Zaratustra.
[1][7]
Thomas Bernard, Trevas.
[1][8]
Luis Ferdinand Celine, Os Escritores: as históricas entrevistas da
Paris Review.
[1][9]
Maurice Blanchot, Livro Por Vir.
[1][10]
Michel Butor, Repertório.
[1][11]
Rolam Barthes, O Grão da Voz.
[1][12]
Pound, ABC da Literatura.
[1][13]
Maurice Blanchot, A Parte do Fogo.
Nilson Oliveira
é editor da revista Polichinello, autor de
A Outra Morte de
Haroldo Maranhão (edições IAP, 2006).
nilson_olliveira@yahoo.com.br
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