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uma
vida noutra (maurice blanchot e o pensamento
literário) Nilson Oliveira Outrem é quem fabrica os corpos com os elementos,
os objetos com os corpos, assim como fabrica seu próprio semblante,
com os mundos que exprime. Michel
Tournier das bandas do brilhar Encerrado no espaço que sempre lhe foi íntimo, o homem espera. Não
re-age, não manifesta. Espera. Tão somente espera. Essa é sua vida, a isso está
vinculado. Mas o que espera não lhe pertence. É uma espera branca. E essa espera
lhe confere a imagem de uma vida neutra, fora do lugar, movida pelos laços de um
poder que mais e mais se efetua, pois enquanto espera ele pensa. Mas esses
pensamentos não são de nenhum modo uma formalidade ou tampouco vêm de um
provável. Não são simples. Eles desenham por si o seu próprio sentido, se fazem
para agilizar um movimento no próprio pensamento. Um movimento por fora do
pensado, na direção de um pensamento outro, que age mesmo quando não parece
agindo, como um nômade que viaja sem sair do lugar, fora da fronteira, viajando
no possível de lugares outros, no intenso das suas sensações. Esses pensamentos
são, sobremaneira, a garantia de um movimento, não do mesmo, mas ao além do
movimento, num devir-pensamento que abre o mundo num horizonte mais vasto, assegurando possibilidades infinitas
de criação, tal como acontece na relação Arte – Obra – Artista; pois a arte só é real na obra, e o artista só se afirma no aberto que
o pensamento da obra lhe oferece, ou seja, no que dela pode fazer engendrar, na
direção do que a arte lhe
determina. Um caminho neutro,
semelhante às imagens de Oswaldo Goeldi, imagens sem começo nem fim, martelado
pelo meio, por entre um negro cintilante, revelador, que faz gerar o inquieto de
muitos rostos, movimentos, em figuras que expressam a intensidade da obra, mas
sobretudo a proliferação do ato criativo, de multiplicidades. Portanto pensar,
segundo a lógica do artista, equivale essencialmente a criar, pôr-se em
movimento, mergulhar na enseada do impensado. uma imagem além da imagem Seus
dias passam-se num ritual marcado: acordar, levantar, andar, pensar, ler,
escrever, acolhido em um tempo que não passa: escrever é entregar-se ao fascínio
da ausência de tempo, pois na escrita
as horas são as horas de um tempo outro, não linear, fora do relógio, dentro da
ausência, mas na ausência de um tempo puramente afirmativo, o tempo da
narrativa, que concede a escrita o Sim que afirma a sua permanência,
o seu
movimento, um movimento que viaja pelas margens e mergulhar no infinito do
impensado.
Navegando por todos os lugares, fora das grades, dos muros, nas ondas do devir,
que faz da escrita um instrumento vibrátil, no qual a vida é sempre outra, a
vida escrita, uma vida além da imagem, que é por si uma eterna invenção.
É dessa experiência que arrancamos Maurice Blanchot, de uma imagem
além da imagem, do pensamento do impensado na
escrita. Blanchot atravessou a sombra do último século como uma das figuras
mais instigantes e influentes da literatura. Pensou com Nietzsche, com Artaud, e
em com eles proclamou toda a diferença do dizer e do pensar, foi o dito
sussurrado do exterior da voz, em palavras, pele, superfícies. Dessa maneira, a relação de Blanchot com o pensamento indica uma
possibilidade de novos caminhos, provocando novas questões em torno do
pensamento e do fazer literário, pois como uma Máquina de Guerra sua escrita consiste
em criar aberturas dentro e fora do espaço
literário. Blanchot
viveu parte de sua vida debruçado no arquipélago da escrita, ora lendo, ora
escrevendo, ora submerso no intenso do pensamento; tendo poucas vezes, como em
68, rompido o limite dessa constelação. E assim por completo se apagou. Mas seu
silêncio, mesmo quando não mais pronuncia, ainda reverbera. Sua voz ecoa com a totalidade de
um calar verdadeiro. A Sua escrita vaza pelas fissuras da atualidade, deixando o
aberto de uma chama que não se rompe, é como um ruído branco, desenhado na aurora de um pensamento
ainda porvir. os laços do pensamento O pensamento não tem lugar, ele deriva de todas as paragens, nasce
das dobras de qualquer circunstância, da invenção de um conceito ou do exercício
do próprio pensamento. Pensar significa dar funcionamento às coisas, deslocá-las
ou atravessá-las com significados outros, pensamentos outros, pensamentos que
englobam o Plano de Imanência ou
seja, a possibilidade de pensar o
impossível, de pensar o impensável: “o Plano de Imanência é ao mesmo tempo o que
dever ser pensado e o que não pode ser pensado. Ele seria o não-pensado no
pensamento” [[1]]. Com efeito percebemos
que no pensamento-outro se prolifera mais do que a agregação das diferenças, a
duplicidade dos entendimentos, ou melhor um pensamento ainda porvir, exterior ao
próprio pensamento, pois nessa atmosfera,
é preciso passar para “fora de si”, se envolver e se recolher na fascinante
interioridade de um pensamento que é legitimamente Ser e Palavra
[[2]]. Mergulhar na superfície de um
pensamento Ser e Palavra significa
liberar-se das reminiscências, quer dizer do monolítico e da tensão que ela
representa, pois nesse pensamento, o mundo cala-se, e não
são, por fim, os seres, suas preocupações, seus desígnios, suas atividades, que
falam, quem fala é uma linguagem outra, neutra: uma linguagem crua, nervosa, sem
precedentes. Essa linguagem tudo ronda e tudo atravessa, sua força fratura o
muro do significante e alcança o outro lado do pensamento, nele a noite parece
outra. Nessa
esfera pensar é um ato de vitalidade, é essencialmente afirmativo, é uma forma
de ver a vida e o que passa através dela, é um verdadeiro caso de possível, de
interpretação, pois interpretar equivale a criar, a maneira do jazz, interpretar
interpretações, e com isso, gerar uma experiência tecida por uma fazer próprio,
como o timbre da sua voz, singular. Portanto, pensar é, sobremaneira, um ato de
interpretação, logo, de criação. Pensar é dar velocidade ao pensamento
pensando as coisas que nos afetam, seja em matéria de literatura ou do que for.
Assim encontramos Maurice Blanchot, como uma Maquina de Possível, escrevendo,
interpretando, pensando, gerando novas questões, debruçado
na paisagem de uma geografia outra, habitada por uma comunidade sem comunidade, por
Levinas, por Mascolo e Duras, por George Bataille. É nessa atmosfera que
Blanchot segue sua jornada: criando, cavando, sendo
fiel às exigências da literatura, mergulhando no infinito das suas
dobras. o rumor da escrita Em redor de Blanchot, no espaço da sua escrita, erigiu-se um ativo
ciclo de pensadores (Foucault, Deleuze, Derrida), que através dos seus escritos
interpretaram questões cruciais no horizonte da literatura, do pensamento, da
intensidade. Sempre reconhecendo, em Blanchot, um lastro de influência, uma
presença ativa, como tão bem nos
disse Deleuze, sobre a relação Blanchot - Foucault: Foucault sempre reconheceu uma dívida em
relação a Blanchot. Ela talvez se divida em três pontos: “Falar não é ver...”,
diferença que faz com que se dizendo o que não se pode ver, leve-se a linguagem
a seu extremo limite, elevando-a à potência do indizível. A seguir, a
superioridade da terceira pessoa, o “ele” ou o neutro, o “se” , em relação às
duas primeiras, a recusa de toda a personalogia lingüística. Por fim, o tema do
Fora: a relação, que é tambem “não relação”, com um Fora mais longínquo que todo
o mundo exterior, e por isso mesmo próximo de todo mundo interior
[[3]]. Influencia
determinante, mas, a um só tempo, a partir das movimentações de Foucault (seus
temas, suas obras), vemos essas influências desdobrarem-se para zonas de
singularidades, imprimindo no pensamento de Foucault uma certa autonomia em
relação ao rastro de Blanchot, mas aí, e por isso mesmo, essa ligação torna-se
mais efetiva, mais intensa no sentido das forças, na proliferação dos conceitos,
conferindo a Blanchot e Foucault uma comunicação atada pelo afeto, pela amizade
ao ato criativo.
a experiência da morte A
escrita de Blanchot é a evidência da supressão dos limites entre a escrita e o
pensamento. É o exercício de um jogo em que essas matérias se atravessam e a
todo o momento estão por reinventar-se, sendo sempre outras, navegando na
direção do improvável, do impensado, do possível de
todas as coisas engendradas no limiar da escrita. Com efeito, pensando Rilke, às voltas do
Espaço Literário, Blanchot faz surgir um cem número de questões que
cintilam entre escrita, pensamento, vida e morte, navegando em águas não isentas
de riscos. Investimento traçado por uma grafia vigorosa, destilada nas linhas
que irradiam nos arrastando para as bandas de um lugar soturno, um
espaço onde a imagem é sempre a mesma: a morte. Blanchot experimenta, na
escrita, uma estranha aproximação com a morte, mas isso não como elogio mórbido e sim
como devir-morte que pensa a morte como uma presença que temos que aprender, reconhecer, encontrar, sem
sustos nem entusiasmos. Esse Reconhecer significa a aceitação de um
outro caminho, um caminho em que quanto mais se vai, mais, nas suas entranhas se
Desaparece. Esse Desaparecer, por fim, resulta no Apagamento daquele que
escreve, que na verdade é o Apagamento do autor, pois tal como Isidore Ducasse o
autor desaparece no coração da escrita, é tragado por ela. Mas o Desaparecimento
do autor implica na afirmação da obra. De uma obra total, como Os Cantos de
Maldoror, cingida por abismos e possibilidades. Nessa esfera
vida e morte se atravessam em uma superfície que faz de Blanchot ‘a
testemunha integral’ de uma experiência da escrita, da intensidade; na qual a
consciência da morte faz do corpo uma engrenagem livre, entregue, à medida da
sua própria duração, como Máquina de Sensações, escrita-corpo, no qual a morte
desenha os contornos da sua permanência: a morte é o lado da vida que não está voltado
para nós nem é iluminado por nós; cumpre tentar realizar a maior consciência
possível de nossa existência que reside nos dois reinos ilimitados e se alimenta
inesgotavelmente dos dois [[4]]. Nesse trecho de
Rilke, dos Cadernos de Malte, citado em o Espaço Literário, Blanchot nos
evidencia o quanto a morte está presente na vida, e vice-versa, mas, sobretudo,
o quanto, além dos nossos domínios, a morte funciona como algo que não nos cabe
recusar, tampouco julgar, mas tão somente aceitar e ter com ela um convívio
pacífico, vital, como a passagem ou etapa de algo que é nosso, mas nos escapa o
domínio. Portanto, a morte seria, nesse
sentido, o equivalente do que foi designado como intencionalidade. Pela morte,
“nos olhamos para fora com um grande olhar animal”. Pela morte, os olhos mudam
de direção e essa viagem é o outro lado, e o outro lado é o fato de não viver
desviando, mas direcionado, introduzindo agora na intimidade da conversão, não
privado de consciência, mas pela consciência, estabelecido fora dela, lançado no
êxtase do movimento [[5]]. Movimento que puro
desequilíbrio, mas movimento inteiramente ligado à vida, a vida que passa nas
bandas do outro lado, onde o controle nos escapa, mas nos assegura a noite, a
dispersão de um profundo sono. Numa leitura atenta das obras de Blanchot torna-se perceptível sua
opção por autores como Rimbaud, Kafka, Mallarmé, revelando uma atração por
escritores que fizeram da escrita uma jornada no coração da experiência, Jornada
semelhante a sua. Mas o que ele nos diz, tanto em seus ensaios como em suas
obras de ficção, atravessa zonas de atração e risco, pois para Blanchot escrever
é atravessar um espaço onde limite é a todo o momento superado, num ciclo
infindável onde impera o eterno recomeço. Segundo Blanchot, o que o escritor inicia num livro, destrói
no outro, e assim vai, sendo atraído, pouco a pouco, para o limiar da obra.
Pois o escritor é aquele que persiste em sua obsessão, aquele que só reconhece
uma única arte, navegar no coração da obra, jogar o jogo da criação, revelando
nele, as infinitas possibilidades da escrita, da criação, do pensamento. A
escrita, para Blanchot, é na verdade o eco de uma narrativa que, como
o
infinito de Valery, na velocidade de um eterno retorno, atravessa superfícies
outras. Essa escrita nada tem a ver com função de linguagem, ela é justamente o
desmonte da linguagem, pois ela explora da linguagem não suas riquezas
infinitas, mas seus limites, seus pontos de fuga, suas dobras, em um movimento
que força a escrita a alcançar o que está além das suas possibilidades, além das
suas funções, na outra margem, na trilha do possível,
num horizonte que se abre, num eterno re-fazer-se: sempre outro, sempre
limiar. uma máquina desejosa Com Blanchot, no Espaço Literário, tudo se experimenta. O
pensamento se edifica pela alegria e por um querer nutrido de possibilidades,
fértil, intenso, re-hidratado, corpo que é só sangue e pele, corpo recurvado em
uma experiência do desejo, da intensidade. É à força do escrever, o que Blanchot tão bem formulou como Apreensão Persecutória: força que
persegue e faz perseguir, mão que escreve e age, fazendo a escrita proliferar na
velocidade do devir, afetando inteiramente aquele que escreve, pois, o homem
segura a caneta, mas não domina seu movimento. Sua mão parece enferma, ela
escreve ao não mais poder, move-se num tempo fora da medida, numa velocidade sem
precedentes, mas nessa experiência quando é remetido, tal como foi Nerval e Höderlin, o escritor não sai ileso,
sofre na pele, é arrastado por seus efeitos, atravessa uma fronteira que não
reconhece volta. Mas o que deixam é certamente extraordinário, seja Hypérion ou Aurélia, obras que fazem da Literatura
um lugar de força, obras que, tão logo entre, o leitor saberá reconhecer, pois
essas obras, são como uma pedra que resiste ao envelhecimento, feridas mal
fechadas no coração do acontecimento. Com Blanchot entendemos que a literatura é tambem uma máquina em
que muitas forças se atravessam, tecendo e fabricando imagens por onde, como uma
janela aberta ao infinito a escrita alcança o inominável das formas,
multiplica-se na superfície do ato criativo, estando sempre adiante. Agindo por
dentro e por fora do tempo, mas nunca a serviço dos dias; a literatura subverte
os dias, ela fabricando sua própria duração, tal como fez Proust. Nessa esfera,
portanto, com Proust, pensar o tempo equivale, pensar o tempo como a virada do
próprio tempo, pois o Tempo
Redescoberto é sempre o tempo outro: o tempo fora do tempo, que se experimenta como
exterior, sob a forma de um espaço, onde a arte encontra e dispõe os seus
recursos [[6]]. È difícil pensar Blanchot sem pensar na escrita, sobretudo nos
pensamentos que se evadem e a um só tempo nos atravessam durante a experiência
de ler, sim, pois ler, como Blanchot, é uma experiência de sopros, de
velocidades. E a voz que ecoa de dentro do texto também devora o leitor,
consome-o aos pouco, página por
página, de um livro a outro, o leitor não sai ileso.
o horizonte do impensado A voz de Blanchot atravessa no redemoinho doutras vozes, mas,
todavia, não perde seu timbre, sua singularidade, diz com os outros, fazendo
ressoar o seu próprio dito, deixando vazar a ponta de um algo mais. Algo na
direção de uma agilidade em interpretar, em criar, em dançar, em jogar o jogo do
pensamento e nele mergulhar para se lançar adiante, em uma latitude outra.
Blanchot segue por entre um labirinto de autores e obras e, como Teseu,
atravessa sem receios, mas sabe, como ninguém, dos riscos em se perder. Por isso
escapa a tentação tagarela de comentar, de repetir os roteiros do dito, então
segue no horizonte do impensado, num pensamento que pensa a literatura por fora
dos acessórios usuais da crítica literária. Que Pensa a literatura a partir do
inessencial, como dobra de um movimento que se engendra fora do centro da
esfera, nos fluxos que compõem as zonas variáveis da escrita literária, a partir
não mais do mesmo, mas, sobretudo, da diferença, no projeto de um fazer outro,
seja para encontrar forças desconhecidas ou gerar outras marcas, novas
lembranças, marteladas com a força de um artesão, desenhadas pela Escrita, pelo
Estilo, pelo Pensamento. da amizade Penso sobretudo no entre Deleuze e Foucault, penso nessa não
presença –Blanchot – nessa força tão marcada pela força de um e de outro –
Deleuze - Foucault. Penso nesse nome que, pela miríade do seu pensamento, teceu
formas tão belas do escrever e do pensar, ora com um ora com outro, mas ao mesmo
tempo só, abolido das marcas, do peso da memória, navegando no inominável da
letra e do pensamento; aberto às exigências do estilo, entregue ao desdomínio do
gênero, situado entre o distante e o próximo de nós, como Moby Dick e Ahab, dos
quais, nos diz Blanchot: Cada uma destas
partes quer ser tudo, quer ser o mundo absoluto, o que torna impossível a sua
coexistência com o outro mundo absoluto, e cada uma não tem porém maior desejo
do que essa coexistência e este encontro[[7]]. É a intensidade do encontrar, mas um encontro que, nas suas
dobras, traz toda a tensão e toda a diferença, que liga uma figura a outra,
formando um verdadeiro bloco de sensações, uma pluralidade de forças, tal como
Deleuze – Foucault – Blanchot; uma zona de atração e risco, contudo atravessada
por uma intensa amizade. Amizade sem parcialidade, sem indulgências, livre da
peste do pensamento único, das tensões do jogo binário, amor e ódio. Amizade à
diferença, ao estranho, ao outro do pensamento. Amizade à alteridade e ao além
da alteridade. Amizade à vida e à multiplicidade das formas, mar, aromas, terra.
Amizade à escrita, ao pensamento, a leitura. Amizade que pensa o livro como um
espaço de trocas, de alegrias, de
estar juntos, navegando com o outro, na intensidade da sua companhia, colhendo
indícios, pistas, diferenças, degustando o sabor do seu estilo, nadando nas
correntes do seu pensamento, exercitando o fôlego para o seu próprio mergulho.
Assim fez Foucault com Blanchot e vice-versa, e assim fez Deleuze com Foucault,
numa relação entrelaçada por referências, encontros, leituras, pela troca
generosa entre um saber e outro, que encontra na afirmação de Edson Passetti o
acolhimento possível para coexistir: A
amizade é uma relação entre guerreiros numa vida feita de combates [[8]]; e nessa ordem, para as bandas de um pouco mais, nos diz
novamente Passetti : A amizade supõe um
devir-criança na longevidade da relação entre amigos, com efeito encontramos
o devir-criança na longevidade da amizade ente Foucault e Blanchot, amizade
calçada pela geografia das distâncias, dividida pela linha negra da escrita, que
tanto aproxima como distingue um do outro, que traz, lado a lado, um e outro,
cavando para partes diferentes no desejo intenso de encontrar. Encontro que
Blanchot muito nos revela em seu Foucault
como Imagino, trazendo em suas linhas esquivas, indiretas, incessantes, um
livro maior que uma simples homenagem, pois no livro tudo passa alhures dado à
intensidade da investida de Blanchot. Pois Blanchot encontra Foucault por uma
“razão menor”; menor no sentido de um
afeto que escapa aos radares, aos holofotes, às razões da crítica, ou da
tentação tagarela de comentar. As razões de Blanchot passam por fora a tudo
isso, mas estão tão bem delineadas logo na apresentação do livro: Nunca o encontrei, exceto uma vez, no pátio
da Sorbonne durante os acontecimentos de Maio de 68, talvez em junho ou julho
(mas dizem que ele não estava lá), e dirigi-lhe então algumas palavras,
ignorando ele quem lhe estava a falar (...). É verdade que durante esses
acontecimentos extraordinários, eu dizia muitas vezes: Mas por que é que
Foucault aqui não está [[9]]. As palavras de
Blanchot nos trazem a delicadeza e a criatividade de uma amizade que se edifica
pelas frestas de uma intensidade, de uma amizade outra, tangenciada por uma
vontade de afeto. novembro / 2007 Nilson oliveira é escritor e ensaísta, editor da revista
Polichinello. nilson_olliveira@yahoo.com.br
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