Meiotom - ensaio


 

 

 

Espinosa em Deleuze e a

 

Vontade de Expressão

 

Nilson Oliveira

Cada leitura mostra sua outra face

Francis Ponge [Métodos]

 

Voltamos ao pensamento, à saúde de interpretar, na alegria que essa experiência nos traz, no sentido das forças, dos afetos, na vontade de navegar, passeando, jogando, mergulhando no aberto dessas possibilidades. Numa paisagem intensa, desenhada pela força do traço que faz do estilo um instrumento de ação, pois escrever é revelar um estilo, lançando a escrita para zonas de singularidade, sempre outra, sempre por fazer-se, sendo, portanto, uma máquina de criação. Criar é, nesse sentido, produzir forças. Como a força de Francis Bacon, de Godard, de John Coltrane, uma verdadeira miríade de sons, traços, imagens, um bloco de multiplicidades onde o estilo denota a singularidade de cada um e a um só tempo nos revela a força do fazer artístico, da intensidade, da expressão. Chegamos aqui a um tema da maior sensibilidade: Expressão, palavra que traz no seu ventre um conceito que nutre e fortalece as formas do fazer; conceito trazido até nós pelas linhas de “EXPRESSÃO: Espinosa em Deleuze, Deleuze em Espinosa” [Forense Universitária, 2007], novo livro de Daniel Lins, um grande acontecimento na cena do pensamento contemporâneo.

 

Nesta obra, Daniel Lins atravessa e nos faz navegar no mar em que se encontram Deleuze e Espinosa, um atravessando o outro, num lance de forças; fala-se da potência do pensamento, um nutrindo o outro, a partir da lógica: Espinosa em Deleuze (e vice-versa), numa superfície onde se movimentam na velocidade de um Devir, fazendo ressoar vários conceitos: de Estilo, de Escrita, de Prática, de Imanência, de Substância, de Fora, que por entre as linhas de Expressão vão devidamente se alastrando, como um dardo arremessado ao infinito, sedimentando os laços desse encontro, liberando a potência de um pensamento outro.

 

Com efeito, lança mão dos instrumentos que sopram na paisagem conceitual de Espinosa e Deleuze, se nutre, se hidrata, e com isso, como todo bom intérprete, faz reverberar a diferença do seu timbre e com ele traz ao sol a silhueta do seu estilo, a cor do seu pensamento.

 

Daniel Lins navega em uma jornada ao coração do pensamento, e nessa direção mobiliza sua força pois, sabe, o pensamento exige e cobra, e com isso, sem vacilar, nas trilhas do possível, segue o seu percurso, atravessando a enseada das palavras, ecoando por dentro e por fora do pensamento, no horizonte de Espinosa e Deleuze mas, sobremaneira, em Espinosa com Deleuze, numa viagem que, desviando das linhas frontais, avança em Espinosa pelo meio, pois é pelo meio que se dão os encontros, os afetos, as trocas. E assim, pelo meio, Daniel Lins atravessa a carne de Espinosa expressando sua vontade de potência, sua força de criação.

 

Acompanhamos com uma acerta atenção as movimentações de Daniel Lins; suas obras se dobram em uma imensa criatividade, em vôos que atravessam o Cangaço, o Corpo, a Escrita, o Surf, a Pele; sempre fazendo transparecer a força de um fazer nômade que brota da agilidade em interpretar, em mobilizar conceitos, em roubar, em criar, em dançar a dança do pensamento, deixando um rastro que é pura intensidade.

 

Ágil e silencioso, Daniel Lins desloca a atenção para o centro da sua obra. Em Expressão, o livro de então, põe em evidência o vigor e a peculiaridade de uma escrita que, fraturando o roteiro do estabelecido, incorre para as dobras de um projeto outro, desejoso, que engendra seu estilo com a força de um artesão.

 

O autor nos revela, portanto, a dinâmica de um pensamento que, por entre a paisagem de Deleuze e Espinosa, avança sem receios para as bandas do indeterminado, se valendo de ferramentas essenciais da filosofia, da literatura, da arte, edificando uma forma própria de pensamento, e com isso nos trazendo um vasto repertório de palavras, autores, imagens.

 

A leitura de Expressão é na verdade uma aventura no interior de uma paisagem móvel, criativa, surpreendente. Suas linhas cortam o mar na direção de limiares outros, cingidos pelo inusitado. Nele, o pensamento se abre como um horizonte. Os fluxos da escrita quebram como uma onda os muros do significante, do ostracismo, do tédio, que é o pensamento do mesmo. Alguma coisa se desloca a partir daí.

 

 

Espinosa faz parte dos viventes-videntes. Ele diz precisamente que as demonstrações são “os olhos da alma” [Tratado teológico-político]. Trata-se do terceiro olho, aquele que permite ver a vida para além das falsas aparências, das paixões e das mortes. Para tal visão são necessárias virtudes, humildade, pobreza, frugalidade, não mais como virtudes que mutilam a vida, mas como potências que a desposem e a penetrem. Espinosa não acreditava na esperança nem mesmo na coragem; acreditava somente na alegria e na visão. (...). Queria apenas inspirar, despertar, mostrar [Gilles Deleuze].1

 

Nilson Oliveira é escritor e ensaísta,

editor da revista Polichinello

  1 Espinosa: Filosofia pratica, Gilles Deleuze, Editora Escuta, 2007.