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o
rosto zero:
a
literatura fora do sujeito
Por
Nilson Oliveira
Não
sou nada.
Nunca
serei nada.
Não
posso querer ser nada.
...
Estou
hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou
hoje lúcido, como se estivesse para morrer.
Álvaro
de Campos [[1]]
Quem
é o autor? Quais os caminhos da
Obra? Qual a linha de fuga que apartam o autor da sua obra? Questões realmente
antigas, mas por cento ainda pertinentes, ao ponto de vez ou outra, ativadas por
uma força que é própria da literatura, romperem o lacre do esquecimento e
surgirem como lâminas afiadas decepando ou afirmando questões de toda ordem, o
que dá ao problema uma importância solar. Com efeito, o diálogo incide o seu
ciclo fazendo dessas questões uma saúde que atravessa a literatura e a hidrata em cada volta. É realmente um
caso de muito vigor. Portanto, da ordem do dia. Então vamos ao ponto: em alguns
casos, para um escritor, o movimento definitivo para alcançar a literatura
consiste no apagamento (o rosto zero), num árduo trabalho por fora da identidade
e das funções que legitimam o sujeito e sua rotina social.
É
precisamente a partir da experiência de Mallarmé, sobretudo em Igitur, que a
distinção entre sujeito e obra se fortalece nos trazendo a bela diferença que
aparta o Eu da linguagem e o Eu do sujeito. Com efeito, Mallarmé nos mostra como
a linguagem vai se desenvolver precisamente onde o homem é apartado, fazendo da
literatura o espaço em que o sujeito não cessa de desaparecer em proveito da
linguagem. Onde isso fala, o homem
não existe mais. É a partir do desaparecimento do homem em benefício da
linguagem que obras tão intensas, como as de Malcolm Lowry, Maurice Blanchot,
Fernando Pessoa, se proliferam. Toda a literatura está em uma íntima relação com
a linguagem que é por sua vez uma relação com a vida: a vida que jorra por fora
do sujeito.
Mas há também Céline e todo o seu repertório vociferante falando
inicialmente como Bardamu [Viagem ao fim da noite], depois sem dissimulações na
primeira pessoa de Ferdinand [Norte e Morte a crédito] e mais adiante
abertamente como Céline [Castelo em castelo]. Mas o que Céline nos dá através da
sua escrita passa alhures de um testemunho ou confessionário. Mesmo quando volta
aos abismos da sua infância, ou de qualquer outro espaço do seu intenso
repertório, o que fica são os buracos cavados no coração da gramática, a
agressividade da sua escrita; uma marca que conduz a literatura para uma cena
fora do pensado nas academias, o que somando compõe um obra amarrada por um
estilo sem igual, hiperbólica, transfiguradora que, como nos diz Leda Tenório
Mota, “derruba as abordagens mais toscamente temáticas ou mais politicamente
corretas. Já que não se pode ignorar, por mais embaraçoso que seja o assunto de
um grande escritor, ou por menos beleza moral que ostente, que o estilo não
apenas conta, mas... significa. Ou, dito em outras palavras, que ele muda tudo”
[[2]].
“A
partir do momento, efetivamente, em que o discurso pára de seguir a tendência de
um pensamento que se interioriza e, dirigindo-se ao próprio ser da linguagem,
devolve o pensamento para o exterior, ele é também e de uma só vez: narrativa
meticulosa de experiências, de encontros, de signos improváveis – linguagem
sobre o exterior de qualquer linguagem, falas na vertente invisível das
palavras” [[3]]; em vontade, força, desdomínio, no curso de um exercício em
que o objetivo foi subtraído pela aventura, pelo desejo de, na linguagem,
experimentar mais e mais, no âmbito de uma viagem onde o que conta é a viagem
em
si. Assim veio a constelação de Mallarmé, a esfera cintilante de Joubert, a escrita
selvagem de Lautréamont.
Mesmo
antes de Mallarmé há, no espaço literário, vestígios de uma vontade de superação
do homem em detrimento da obra em experiências peculiares, como a de Joubert que
viveu para a literatura, mas se recusou a publicar um livro se quer, deixando no
entanto um rastro de coisas notáveis: anotações, diários, escritos de uma
delicadeza tão intensa que arregimentou para o seu centro figuras como Maurice
Blanchot e E.M Cioran. Joubert é o rosto rezo da cena literária, o escritor sem
obra que viveu intensamente essa ausência, entrando para a literatura pelos
lados. “Joubert teve esse dom. Nunca escreveu um livro. Apenas se preparou pra
escrever um, procurando com determinação as condições justas que lhe permitiriam
escrevê-lo. Depois, até esse desígnio ele esqueceu. Mais precisamente, o que
Joubert procurava, essa nascente da escrita, esse espaço onde escrever, essa luz
a circunscrever no espaço, exigiu dele, afirmou nele disposições que o tornaram
impróprio para todo o trabalho literário comum ou o levaram a desviar-se dele.
Foi, por isso, um dos primeiros escritores inteiramente modernos, preferindo o
centro à esfera, sacrificando os resultados à descoberta das suas condições e
escrevendo, não para acrescentar um livro a outro, mas para se tornar senhor do
ponto de onde lhe parecia que saíam todos os livros” [[4]].
É
necessário que haja, na nossa linguagem escrita, voz, alma, espaço, ar livre,
palavras que subsistam sozinhas e que transportem consigo o seu lugar
[[5]].
Esse é o movimento de Joubert, uma escrita viva, intensa, autônoma, nutrida de
uma potência que se desloca. Esse movimento nos arrasta a outro, Lautréamont, um caso de singularidade, sem
dúvida um movimento de força na direção da escrita literária e a um só tempo
para fora do autor, pois com Lautréamont o objetivo daquele que escreve
é, sobremaneira, enterrar sua biografia na sombra e mergulhar no coração da
escrita. Nessa jornada, o escritor só pertence à sua obra e a ela está
vinculado, sem deus e sem razão, escrevendo até o extremo do que pode a escrita,
em um tempo que se redescobre irreconciliável, o tempo da obra, pois “só a obra
importa, a afirmação do que existe na obra, o poema na sua singularidade
cerrada, o quadro no seu espaço próprio. Só a obra importa, mas afinal a obra só
está ali para levar à busca da obra; a obra é o movimento que nos encaminha para
o ponto puro da inspiração de onde vem e que aparentemente só pode atingir o
desaparecimento” [[6]].
Lautréamont mergulhou nas ondas da escrita, desapareceu sem deixar vestígios,
todo o seu combate consistiu na edificação da sua obra, num trabalho sem recusa, fortalecido por uma
vontade criadora que se afirma no momento em que atravessa a fronteira do
estabelecido, do sujeito, da identidade: “minha poesia só consistirá em atacar,
por todos os meios, o homem, essa fera, e o criador” [[7]].
Mas a escrita em Lautréamont não é
a expressão de uma reação e sim de uma Ação, de um ato criativo que faz da
literatura uma máquina de guerra pelo possível da arte e da vida.
Lautréamont
renuncia ao nome próprio e aos fantasmas da memória para incorporar uma escrita
veloz, aliviada dos dramas da culpa do pai-mamãe da representação. Sua força é
órfã, vem de lugar nenhum, nasce das dobras da literatura, no instante em que
ergue a pena para escrever. E nesse momento fluído que se dá à poderosa força
que separa sujeito e obra, pois aquele que escreve não pertence mais aos
domínios do registro de nascimento. Por isso Isodore Ducasse deu passagem ao
Conde Lautréamont, e com ele vieram
Os Cantos de Maldoror e Poesias. Lautréamont é para literatura
um caso do presente, sua atualidade persiste pela intensidade de uma obra que
não se rende e por um imagem que ainda cintila.
[1] Álvaro de Campos.
Tabacaria
[2]
Leda
Tenório Mota. Celine volta a incomodar, publicado no caderno mais, folha de São
Paulo.
[3] Michel Foucault. O Pensamento
exterior.
[4] Maurice Blanchot. Joubert e o espaço.
[5] Pierre Joubert. Carnets.
5 Maurice Blanchot. O Livro por vir.
6 Lautréamont. Os Cantos de maldoror. Poesias.
Cartas
Nilson
Oliveira é editor da revista Polichinello, autor de
A
Outra Morte de Haroldo Maranhão [edições IAP 2006]
E-mail:
nilson_olliveira@yahoo.com.br
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