| Meiotom - ensaio |
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A
Idade viril: a
escrita literária e as marcas do presente [Nilson
Oliveira]
Max
Martins
Haroldo Maranhão
Dalcidio Jurandir Mario Faustino Paulo Plínio
Abreu E somos
só esta vã escrita nosso
riso-risco contra um espelho, praia que nos
inverte e descreve
dissolVENDO-NOS [Max Martins] 1.
Do Lugar ao Fora do Lugar É
sempre interessante perceber a fisionomia da cena literária do presente; é um
movimento que sempre nos surpreende, não tanto pelas oscilações, mas pelo grau
de estabilidade em que as coisas parecem seguir. A cena se move em uma quase
harmonia. Boa parte das escritas do presente, segundo vemos, segue virada a uma
espécie de projeto da identidade, engendrada em torno do que se tem chamado de
Literatura Paraense. Projeto ao que se atravessam os interesses da unidade, da
representação, erigido por uma vontade da preservação, num culto ao mesmo anterior, imóvel, sempre impermeável.
Com efeito, vemos a cada instante novos entusiastas tangenciarem essa questão,
partindo sempre da justificativa de que é preciso valorizar o que é nosso, valendo-se, para isso, dos meios
da legalidade, reivindicando uma política de proteção, assegurando o direito de
fazer imperar a totalidade da sua
identidade, seja em matéria de literatura ou do que for. Nada mais natural,
afinal, trata-se da atração pelas coisas da memória, de uma vontade de
preservação, executada não sem uma recusa ao fora do lugar, numa ação que sempre
restringe, pois não existe identidade sem fronteira delimitada ao estranho,
forasteiro, diferente. Afinal, o estranho
é sempre incômodo, ele é para o enraizado alguém ameaçador, pois expõe a
fragilidade do lar sagrado [[1]]. Partindo dessa perspectiva, é
inconcebível uma literatura paraense
escrita pelo outro. Sobre maneira, sendo esse outro a expressão radical do além do
Ele. Aquele que trafega do Lugar ao Fora do Lugar, movimento que origina em
Rimbaud a partir da formula Eu sou o
Outro. Mas que também cabe a Dalcidio Jurandir que através da sua escrita
desejosa fez do lugar um arquipélago, trafegando por todas as paragens do
possível, num movimento nômade, que desenhou o Marajo como uma paisagem outra,
da multiplicidade. Gerando uma escrita que por si, é do movimento, visto que foi
encadeada numa intensa proliferação, paisagem de muitos romances, ciclo do extremo norte [[2]], que numa
perspectiva literária, segundo vemos, pode evidenciar a busca de um possível, norte: evidências de possibilidades
outras para a escrita literária.
2.
As Marcas da Diferença Na
literatura, a escrita da identidade acontece num plano alhures ao espaço da
diferença. Almeja a unidade dos diferentes, pela lógica do fazer-se representar
em prol da ‘minha memória’, do ‘meu lugar’, da ‘minha escrita’ da ‘minha
cultura’, gerando com isso uma estrutura fechada, devidamente protegida, na qual
o dessemelhante, o órfão, o nômade, o diferente estão fora, pois não se deixam
enlaçar pelas malhas dessas estruturas; correm pelas margens, por linhas de
fuga, sempre inusitadas, por vezes imperceptíveis. Na identidade a escrita é
sempre a expressão de um registro, é sempre histórica, a serviço de uma
identificação, como uma marca imutável, que se envereda pelos contornos do
referente, reproduzindo o seu significante, mantendo a sua herança, com o
objetivo claro de perpetuar. Mas em outra medida, a partir dos escritores
modernos, o tema da diferença atravessa a cena, cruza a ribalta, a tela, a
página branca, e faz soar ecos de multiplicidades numa produção de
saberes diversos, de encontros
variados, de composições
caóticas, de disseminações
perigosas, de contágios
incontroláveis, de acontecimentos insuspeitados. Eles
roubam a Cena, pois enquanto os entusiastas da identidade querem transformar a
diversidade num elemento comum, os poetas da diferença querem a variação, a
multiplicação. Isso porque a diferença não é da ordem da representação; não é um
produto e nem resultado. Segundo Deleuze, é “a diferença interna à própria
coisa”, o “diferenciar-se em si da coisa” [[3]]. Com efeito, a
escrita literária nasce sempre das bandas da diferença, pois cada livro é a
expressão do que pode o seu traço, e a sua força nasce exatamente dessa
execução, da peculiaridade do estilo que a obra faz transparecer. E aquele que
está por trás da obra é por certo um artista, ele chama-se Paul Valéry, Max
Martins, Ismael Nery, é uma figura ativa, que combate pela criação de coisas
novas sempre superando as estruturas do estabelecido. Portanto, esse artista é
sempre injusto visto que ignora
deliberadamente as verdades estabelecidas (...). Toda Criação é injusta. Criar é
estuprar: a folha branca, a tela virgem, imaculada – toda criação supõe um
desvirginamento. Não existe criação sem dor, sem cortes, sem combate, entre
pregas e estruturas, linhas de fuga e nomeação. Toda a criação começa por violar
o nada [[4]]. Pois tanto a tela quanto a folha,
mesmo em branco, já estão demarcadas pelos clichês “preexistentes,
preestabelecidos, que é preciso de início apagar, limpar, laminar, mesmo
estraçalhar para fazer passar uma corrente de ar, saída do caos, que nos traga a
visão” [[5]] .
Criar é estar sempre
diante desta questão: superar o nada e alcança o limiar da criação. No caso da
literatura, para criar, cada escritor combate o seu próprio combate, essa é sua
força, entrar para literatura a partir do que consegue engendrar, movendo a
linguagem para um estado de variação contínua no qual se escreve, se cria, se
escuta com estilo, virando a cena para as bandas do devir. E devir é
transformar, brincar com a língua, tornando-a viva. A
escrita literária por vezes tem o rosto de Eutanázio [[6]], traz a sua
inquietude, expressa seu riso demoníaco. É uma verdadeira vitalidade do
precário, portanto da vida, a vida como máquina de reinvenção. A literatura é uma saúde [[7]], força que
se expressa através dos conceitos. Escrever é criar conceitos, como Ahab, Como
Ulrics, como Bouvard e Pécuchet.
Na literatura cada personagem é uma abertura para pensar o pensamento da
literatura, e também da vida. Assim fez Dalcídio com Alfredo [[8]], Eutanázio e
outros, criando personagens que carregam as marcas do intempestivo. Personagem
estas que nascem do tempo da escrita, que sobrepujam a imagem do histórico,
alimentando uma intensa relação com o presente, no domínio da virtualidade e da
potência, tal como as forças que se ativam a cada vez em que são mobilizadas,
acontecendo como um eterno devir. A literatura acontece nessa direção, com a
singularidade de um Haroldo Maranhão, de um Paulo Plínio Abreu, que atravessaram
o espaço literário com o intenso das suas diferenças, pela intensidade criativa
de suas escritas, numa produção máquina que se efetuou por tudo que fizeram
engendrar em termos de escrita literária. Por certo essas escritas vieram de um
lugar que passa por fora do muro da identidade, num fora total, de onde fizeram
cintilar a sua diferença enquanto acontecimento. Com efeito, é interessante
notar que, a partir desses autores [e de alguns outros], nem sempre a identidade
foi o mote que moveu os interesses da cena literária. Fato este que numa rápida
virada de tempo, podemos encontrar, num período próximo, o vigor de numa cena
viva, movida por várias investidas, revistas, jornais, crítica, pensamento, um
ambiente com aroma de modernidade. Via-se de um lado Cauby Cruz envolto no que
viria a ser os Elementos do Verbo;
Mario Faustino no exercício de uma atividade que ensejava o coração da crítica
criativa, mas a um só tempo, de uma poesia severa; Robert Stock, estrangeiro,
exílio, vindo de uma outra comunidade, vivendo aqui, no ambiente desses
modernos, o afeto de um saber aberto a outras expressões, sobretudo ao saber
desse estrangeiro. Paulo Plínio Abreu e seu exílio interior, vida doada ao
intenso da Poesia, aberta às experiências que a escrita pode oferecer, na
leitura de Rilke, Hölderlin, Rimbaud. Mas, sobretudo, no projeto da sua própria
escrita. Max Martins afiando as malhas do estranhamento, desconfiando, pensando,
tecendo a imagem do seu Estranho. Haroldo Maranhão nas voltas do suplemento literário da folha do norte
[1949-51], publicando os seus próximos e os outros, aqueles do dorso da alta
modernidade brasileira, inglesa, francesa, gerando novas referências e, com
isso, um ambiente de intensa difusão da escrita literária e muitos outros
acontecimentos. A Cena se ambientava realmente como uma Cena ativa. Imagem
decisiva para o entendimento das forças que renovaram a escrita literária, visto
que tais movimentações foram agenciadas pela vontade de um fazer outro, ligado a
novas experimentações. E é exatamente por essas movimentações que essas escritas
permanecem atuais, pois foram esculpidas por forças ativas, ligadas a vários
processos de criação, numa ação de combate contra o estabelecido em favor de um
devir futuro. Força ativa caracterizada
por sua potência transformadora, ou como diz Nietzsche: pelo poder dionisíaco de transformar [[9]], de combater o
passado, inscrevendo-se num tempo sempre presente. Com isso toda a produção
movida por essa ‘comunidade’ ainda persevera e por certo muito ainda tem a nos
deixar, pois em cada livro, poema, personagem [criado], desloca-se um imenso de
forças que se atam a um pensamento que ainda insiste. 3.
O Presente da Cena na Cena do Presente É
difícil desenhar uma fisionomia da cena literária no presente, no entanto
sabemos que as coisas estão em movimento, por vezes fora do limite da fronteira
ou na outra margem do rio, mas sempre acontecendo. Essas movimentações se dão
sempre pelo meio – nunca pelo começo ou fim – nas dobras, em
circunstâncias quase imperceptíveis, fora dos centros e dos holofotes,
dentro de uma exigência que avança alargando o pensamento da literatura.
Numa
perspectiva subterrânea aos interesses que consagram o autor mais vendido da
vez, “o escritor se encontra cada vez mais na cômica situação de não ter mais
nada a escrever, de não possuir nenhum meio para escrevê-lo e”, no entanto, “de
ser obrigado pela extrema necessidade de continuar escrevendo-o” [[10]], pois escrever
[fala-se no sentido da literatura] é mobilizar forças que estão intimamente
ligadas à vida, imanente a um processo de criação, e a uma necessidade ruidosa
que só se contém quando rompe o branco do papel. Escrever é romper o branco do
papel. Viagem irreconciliável a qualquer destino estabelecido, executada com
avidez por uma Escrita Menor: Menor no sentido de uma vontade
que escapa às determinações, aos roteiros ou às ‘cafetinas’ do mercado. Menor no âmbito de uma Literatura Menor, que navega por linhas de fuga, lançando-se à selvageria
dos combates, compondo novos axiomas, atravessando o horizonte do qual tão bem
nos falou Proust a partir da “fórmula”: os belos livros são escritos em uma
língua estrangeira. É nessa jornada que pulsam os acontecimentos,
denunciando a força de um estilo, ou revelando experiências inusitadas que nos
assombram a cada vez. Assim encontramos, na superfície magra do presente, livros
como Nave do Nada [Ney Ferraz Paiva]
projeto que trafegam em linha própria, na direção de uma paisagem móvel,
criativa, surpreendente. Escrita fluxo, um combate a cada movimento, suas linhas
cortam a literatura na direção de limiares outros, cingidos de inusitado. Rio
Silêncio [Antônio Moura], escrita atravessada de pensamento, pensamento
dos limites, no qual não há fronteiras, muros ou significantes, mas verdadeiros
espaços, aberturas, possíveis. Rio onde passam muitas águas. Ó
Serdespanto [Vicente Franz Cecim] máquina que atravessa o limite do
gênero, escrita do inominável. Certamente
estes projetos nos evidenciam que no presente a escrita se mobilizam dentro de
uma Cena que não cessa de querer ser presente.
Nilson
Oliveira é editor da revista Polichinello, autor
de A
Outra Morte de Haroldo Maranhão
[edições IAP 2006] nilson_olliveira@yahoo.com.br notas:
[1]
Charles Feitosa, Pensar Migrar. EM Nietzsche e Deleuze: Bárbaros e
civilizados
[2]
“Ciclo do Extremo Norte” é composto de 10 romances escritos por Dalcidio
Jurandir.
[3]
Gilles Deleuze, Diferença e repetição.
[4]
Daniel Lins, Esquecer não é crime. EM, Nietzsche e Deleuze: intensidade e
paixão.
[5]
Gilles Deleuze e Felix Guattari, O que é filosofia.
[6]
Eutanazio: personagem de Dalcidio Jurandir no romance Chove nos Campos de
Cachoeira.
[7]
Gilles Deleuze, Crítica e Clinica.
[8] Alfredo é personagem de vários romances de Dalcidio
Jurandir tais como: Chão de Lobos, Ribanceira, Três casas e um rio e Ponte do
galo.
[9]
Nietzsche, Para Além do bem e do Mal.
[10]
Maurice Blanchot, Faux Pás
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