Meiotom - Contos


 

LEITO DO RIO

NILZA AMARAL

    O espelho é meu algoz. Tenho na minha cabeça que apenas a minha aparência externa é capaz de prender os últimos fiapos de consideração de meu marido. Não quero descobrir as manchas marrom pelo corpo - flores de cemitério, ou a pele que se enruga formando uma teia de pele flácidas sob as axilas, as duas bochechinhas caídas nas laterais da face que lembram um cachorro buldogue, não eu não quero envelhecer, ser velho é anti-higiênico, é imperdoável, principalmente na era da cirurgia plástica. Jamais quero apresentar os sinais evidentes da senilidade, o cheiro desagradável característico da idade avançada,os achaques, os sintomas da menopausa, a declaração da inutilidade do sexo. Jamais usarei um taiér ou as horríveis meias-fio-de-escócia, próprias para a dissimulação da varizes. Ou óculos.

     Então estou com a vida resolvida. Farei uma reforma, como essa que vejo aqui do meu vigésimo andar : a reforma do rio Tietê - lá está o pessoal contratado pelo governo com suas dragas e equipamentos, raspando-o, aprofundando suas entranhas, tentando acabar com a poluição do rio e fazer retornar as suas águas, tranqüilas de um passado não muito distante. Talvez o rio que tem nome e chama-se Tietê possa vir a ser tão limpo, quem sabe, no dia em que perceberem o quanto ele é vital para a vida da cidade.

     A decisão que tomei, a reforma da minha vida, colocou-me em estado de profunda depressão. Aos poucos descobri, durante essa reclusão voluntária, que nós mulheres não passamos de modelos estereotipados tirados de revistas femininas e programas da mídia comandados por apresentadoras que fazem lavagem cerebral com charme e elegância, e nos transformam em seres de papel.

     Então a idéia foi surgindo em meu cérebro, pequenina, e foi crescendo, crescendo... até se transformar antes de se concretizar, em uma realidade perfeitamente palpável, ao ponto de exigir através de uma ansiedade inexplicável a concretização do ato.

     Sentada aqui, na janela do apartamento penso que não havia outra coisa a fazer. Era o que teria que ser feito.

     A morte da minha rival, além de me fazer retornar à pintura, dom escondido no mais profundo de meu ser, trouxe-me profunda paz, e enquanto espero pelo julgamento divino, torno a pintar esse rio fétido que paradoxalmente foi a minha fonte de inspiração. Pinto o rio com tal insanidade que não consigo deixar de dar um tom azul transparente às suas águas escuras, como também não me furto ao prazer de dar um tom verde exuberante à vegetação queimada de suas margens abarrotadas de lixo. Vejo o rio saindo de sua nascente, puro e cristalino e à medida em que vai se aproximando da grande cidade a transformação vai se operando: a corrente límpida transforma-se em golfadas de água suja, levando em seus soluços, detritos e espuma de material químico. Pinto o rio como ele é.

     Porém não foi assim quando matei minha rival. Na época, quanto mais olhava o rio sujo mais interiorizava meus pensamentos negativos. Tentei pintá-lo `a noite, desenhando em neon líquido os riscos vermelhos das luzes do tráfego noturno. As linhas coloridas misturando-se ao tom das águas escuras, transformaram a tela num quadro estático, dando ao rio a aparência de morte ali no leito imenso da cidade, como se faltasse um corpo para dar-lhe um último resquício de vida. Sobrepus camadas de óleo pastoso verde escuro, misturei tons de roxo ao marrom para dar um aspecto de terra calcinada mas ainda não estava satisfeita. O cenário permanecia soturno e lúgubre, faltava o objeto principal, o elemento que pudesse dar movimento à tela estática, livrar a pintura daquela inércia artificial.

     Descobri que o objeto que daria realce ao quadro estava em minha mente como um corpo estranho exigindo transpor a dimensão de meu cérebro e realizar-se naquela figura. Foi quando descobri como poderia matar a minha rival. Matei-a primeiro dentro de mim, dia a dia, pouco a pouco, desenhando lentamente o seu corpo, a sua silhueta no fundo do rio. À medida em que os alfinetes de cabeça colorida cresciam em número, assinalando os meridianos de seu corpo, à medida em que os espetava vagarosamente, desejando com uma força mental jamais suposta que o ato de espetar se concretizasse em seu corpo real, uma paz incrível tomou conta de meu ser. Já não queria parar de inserir os alfinetes, receando que à última estocada a paz alcançada se diluísse.

     Quando a encontraram morta dentro de seu carro que se precipitara no rio, estranharam o fato de inúmeras picadas, semelhantes a furos de alfinetes, aparecerem em seu corpo sem nenhuma explicação plausível.

     Depois disso a pintura do rio ganhou um movimento ondulante com a estranha silhueta que parece dançar no interior de seu leito de águas sujas.

     Muitos já o quiseram adquirir na galeria de arte onde está exposto.

     Mas um estranho sentimento liga-me a ele. Portanto decidi colocá-lo na entrada de meu apartamento, onde meu marido terá o desprazer de confrontá-lo todos os dias, porque afinal desistiu de me abandonar.

     Pode ser que ainda recorra à cirurgia plástica, porém, até concordo com a idéia de fazê-lo sofrer com a constatação do meu corpo velho.

 

Nilza Amaral é professora de línguas e literaturas.
Autora de O dia das Lobas, Amor em campo de açafrão, Modus Diabolicus,
O Florista.
É diretora da União Brasileira de Escritoras, seção São Paulo.
E-mail: nilzamar@osite.com.br