Meiotom - poesia


 

in: estaleiros de vento

FRANCISCO ORBAN

 

Relógio

Que relógio é esse

batendo às cinco da tarde

entre as folhagens do tempo

e as ramagens do nada?

É a noite que o fita

e os homens o habitam

em sua febril batida

nas avenidas das almas

É a noite que o tece

em suas horas cansadas

onde a gestão da vida

em nosso rosto se talha

   

Casca

Alagados do destino

o mundo que não é de todos

no rosto de um menino

De pés descalços

no agora

nas palafitas das horas

Definhando sem poesia

até tornar-se só casca

do que a claridade

prometia

Porto do coração

Não foi o advento da lua

foi um barco

que fez meu coração

perder seu porto

E o porto do coração

é a verdade

sem a qual o barco

não tem pouso

Pelo país da noite

Esperei na orla dos ventos

tua volta

Como um rei que se reconhece

vencido

transitei pelo país da noite

criando palavras

insones

Nada foi o amor

sem o teu rosto

E quando as palavras

tornaram-se engodos

migrei pela exaustão das horas

inadequado e triste

para os poemas de água

que te fiz

 

in: ESTALEIROS DE VENTO
Francisco Orban
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