meiotom  poesia & prosa

e-mail: meiotom@uol.com.br

 

   meiotom.blog                            ABÍLIO PACHECO

 

ESPECIAL

 André Carneiro

 Eunice Arruda

 Leminski

 J. Cardias

 Jorge Cooper

 Poesia Cubana

 Poema Libai

POESIA

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 POESIA VISUAL

 Almandrade

 Carlos Pessoa Rosa

 Clemente Padín

 F. Aguiar

 G. Debreix

 Hugo Pontes

 José L. Campal

 J.M.Calleja

 Rafael Marin

 Poe-Zine

 Marcos Rosa

 Avelino Araujo

 Thierry Tillier

 FOTOGRAFIA

 Andrea Angelucci

 F. Pillegi

 Euclides Sandoval

 TITE

 GONDIM

ARTES PLÁSTICAS

 Lúcia Rosa

 Felipe Stefani

 Maria Domênica

 Lampros

 DIVERSOS

 Concursos

 Resultados concursos

 Resenhas

 Estatística

 

MOSAICO PRIMEVO

 

No Prelo

 

Se a minha palavra é a minha busca

de uma vida inteira, em todo mundo

e ela dorme encantada à sombra

de um livro raro, quiçá

encontrá-la-ei num alfarrábio,

num sebo, numa biblioteca pública...

Quem sabe minha resposta ainda

esteja no prelo.

mosaico primevo 15 abilio pacheco

 

Escritura

A Eliton Moreira e Ademir Braz

 

Tecer versos é, por força, fazer sulcos em penedos,

Singrar as pedras todas do mar de si ao avesso,

Derramar suores em gotas no fero vigor do remo.

 

É ferir, à quilha da fragata, as artérias espumosas

Das altas internas vagas. É navegar por entre as rochas

E extrair exangues lascas — vergões por dentro e por fora.

 

É talhar a cerrados pulsos as pedras finas, mas duras.

E lapidar relevos pulcros em fendas pouco profundas.

É um árduo trabalho infruto, que só lega palmas sujas.

 

Mas é preciso fazê-lo! Alguém deve abrir as ostras

Abismadas em seu peito para juntá-las a outras

Iguais na casca e no meio, mesmo que estejam ocas.

 

Por fim: crer que vale a pena mineralizar as lavras

Como fulcros ao poema e inertes todas deixá-las

Inativas pelas fendas — palavras amortalhadas.

 

Para que tu, só tu possas sugar o cerne dos versos

Acumulados em poças pelos teus olhares tétricos

Que desmineram as horas e se desmentem eternos.

 

In: Pacheco, Abilio. Mosaico Primevo. Belém: Ed. do autor. 2008.

pág. 16.

 

 

Tessitura Noturna

A João Cabral de Melo Neto

 

Um latido apenas

não protege a rua

ele precisará sempre

que os cães o apanhem

e o lancem a outros cães

e a outros latidos

tal que somados todos

(latidos e cães) na noite

formem (no arcabouço

da matilha)

uma redoma protetora

em torno da rua.

In: Pacheco, Abilio. Mosaico Primevo. Belém: Ed. do autor. 2008.

pág. 18.

 

Retrato II

A Cecília Meireles

 

Eu também não tinha este rosto

assim tenso, assim denso, assim calvo,

nem olheiras e rugas

nem cabelos alvos.

 

Eu não tinha estes olhos de agora

tão rubros, tão turvos, tão vagos,

nem esta mão incerta,

nem dedos fracos.

 

Mal venho notando esta mudança

que lenta, constante e suave

do espelho vem desbotando

a minha face.

 

In: Pacheco, Abilio. Mosaico Primevo. Belém: Ed. do autor. 2008.

pág. 23.

 

Memórias de Março

A Paulo Cardoso

 

Quando amanheço... leito manso e lento

Nesta manhã sob este sol silente

A cidade desperta calmamente

Ao meu olhar atônito e em tormento.

 

Uma canoa tangida pelo vento

Com as lembranças da última enchente

Em mim desliza e a cidade sente,

À margem, nos degraus, um leve alento.

 

Mas a tristeza morre neste instante

Quando, no Pontal, o Itacaiúnas

Vem, farto de canoas, desaguar...

 

E sou, portanto, este olhar brilhante

Cheio de lembranças, de botos, de buiúnas...

Que corre lento assim de encontro ao mar...

In: Pacheco, Abilio. Mosaico Primevo. Belém: Ed. do autor. 2008.

pág. 30.

 

Revisita à Casa Bipaterna

Aos meus pais-avós Ezequiel e D. Nenê

 

A mesma rua ainda observa imóvel porta,

janela e paredes da casa,

onde moram os nossos velhos, pai e mãe,

onde as aranhas pacientes esperam, à teia urdida intacta,

pelos insetos que tardam a vir,

onde pandora parece nunca ter aberto sua caixinha,

onde, porém, o relógio de hora em hora

nos lembra que tempo passa,

onde nós moramos sempre meninos

a brincar de enterrar tesouro,

fazer mapas, armar arapucas e pegar pombos,

onde à tarde ouvimos as histórias

que nosso velho sargento ainda conta,

onde há galinhas, marrecos, patos, perus,

capotes, porcos, cães, gatos

e uma garça de asa quebrada,

onde há uma laranjeira, uma mangueira, um jenipapeiro,

uma só saudade dentro de dois corações

e uma solidão abissal, que só eles conhecem.

In: Pacheco, Abilio. Mosaico Primevo. Belém: Ed. do autor. 2008.

pág. 33.

 

Inteligência Artificial

(ou Pinóquio pós-moderno)

 

Minha fada cor de céu,

Por mil pares de anos

Repito-te o mesmo pedido:

Faze comigo o que fizeste

com o filho de Gepeto.

 

Mas, acima de nossas cabeças

Toda nova era glacial passou

E com ela os filhos de Japeto.

Por mil pares de anos te peço...

Para que me transformes no que sempre fui,

Sem que nunca tenha sido de verdade.

In: Pacheco, Abilio. Mosaico Primevo. Belém: Ed. do autor. 2008.

pág. 34.

 

A demanda do Pássaro Azul

 

Pela floresta de grutas e rochedos,

noite a dentro, vida a fora, ambas inteiras,

comigo meus cães, meus gatos, meus medos e desejos

e do candeeiro, a luz, em corpo esguio de mulher.

Onde o pássaro azul?

No cemitério? No vale? Nalgum arvoredo?

A coruja sábia... silente.

Os mortos sonsos... sabentes.

O pássaro em canto algum da floresta,

ou da noite, ou da vida.

Sequer uma dica, sequer uma pista.

E durante a noite toda, a busca vã.

Mas, pela manhã, bem à vista

no lugar de sempre – engaiolado

e tímido, o pássaro – em casa.

In: Pacheco, Abilio. Mosaico Primevo. Belém: Ed. do autor. 2008.

pág. 35.

 

Luzes da Cidade

A Charles Chaplin

 

Deambulo em trapos pelas ruas...

E vejo você, serena e cega, alva e bela,

com uma cesta plena de flores claras.

 

Súbito amo-te! como uma criança a outra.

Simples como a rosa branca

que recebo e ponho na lapela.

 

Faço de tudo para que

— mesmo vendo-me trapalhão —

você contemple as luzes da cidade.

In: Pacheco, Abilio. Mosaico Primevo. Belém: Ed. do autor. 2008.

pág. 49.

 

Elegia da Noite

 

Entre penumbras e sombras

sobras e restos de cores

de luzes ausentes...

 

abertas asas de ave em

secreto luar de estrelas

 

: vives!

 

Entre orvalhos de aurora

cantares de galos e galos

em matinais cores...

 

claros horizontes abertos

estrelas falecidas

 

: morres!

In: Pacheco, Abilio. Mosaico Primevo. Belém: Ed. do autor. 2008.