Meiotom - resenha


 

 

FLÁVIO AMOREIRA

 

‘’ O PAPAGAIO & OUTRAS MÚSICAS.’’

 

Livro de Thiago Picchi , lançado em 2005 pela 7 Letras.

 

 

Faço essa resenha-ensaio como quem faz ‘proesia’: termo cunhado por Nelson de Oliveira para nomear de forma aberta os textos de prosa com alta voltagem lírica e poeticidade formatada em molde de narrativa. Assim era Clarice Lispector ( ‘Água Viva ‘) ou Cortázar ( ‘Cronópios’) e assim segue trilhando a ótima literatura, Thiago Picchi em contos híbridos de melopéia e poder simbólico como ‘’O Fazedor da flautas’’  e ‘’Mitologia’’ do seu primeiro livro

‘’O Papagaio & outras músicas’’, que lança mão ainda de partituras e um CD encartado: a metalinguagem se corporifica; o narrador é a soma do escritor

músico, ator e leitor: nota-se no autor maduro o leitor que escreve comentando, alinhavando intertextualidades e enredos propositalmente rápidos para expor o abissal campo mítico apartir de nossa contemporaneidade

urbana. É o pop-erudito que tanto curto num emaranhado de epifanias que erguem-se feito ouro na visão da mirada sutil do artista como que saído dum lixão genial de ‘’Estamira’’: o excesso pós-moderno é calculado milimetricamente para refar-se em ato, gesto e escritura: ‘do que se conta o conto molda-se ‘ e faz-se estória carregada de re-significados. Tudo é matéria ao demiurgo que extraí entrechos de  suposta ‘inutilezas’ : ‘um filme de Charles Bronson’, ‘ a zeladora de Polanski ‘ , ‘anuncio de jornais para concurso de garis ‘, a ‘bala perdida’, ‘o carteiro Angolano’, o ‘luthier alemão, cenas do carnaval carioca, o antissépticopolvilho Granado’, o ‘design de mictórios’, música de Roberto Carlos, Duchamp, coisas / seres/ idéias/ sentimento emEscambo’. Thiago evoca Debussy e ‘Gepeto’, lança pontes entre música erudita, diálogos cinéfilos ( lembro Puig) e arquétipos helénicos

high-tech’: espelhos, aves e morcegos, pressentimentos arcanos, sincronicidades superpostas, interconexão de cartas / dialogação cortante e fluxos de consciência em ritmo de video-clipe de altíssima tessitura: um caleidoscópio de sonidos e reflexo depurado dum espelho semiológico.

Faço minhas sinapses entre Hoffman e Baudrilhard ao sublinhar trechos:

‘’Você não é uma mercadoria, eu tratei de você como um objeto. Como uma puta! De repente, sua mão olhou para mim...’’ ( do conto ‘’O Leilão’’).

Thiago entroniza Edgar Allan Poe nessa colméia metropolitana: ‘’Um dia subi no pombal e ao chacoalhar os ovos dois deles quebraram e de dentro saíram duas pombas monstruosas...’’ ( do conto ‘’ O Marquês do Pombal’’). Tudo lê-se comorizoma’ deleuziano: a transcendência  não além da imanência absurdamente rica das pequenas-grandes coisas-sensações : ‘’Melissa, a grega, deusa do nada e que nunca existiu, entregou-se com paixão a ele: o avesso das coisas, o antônimo, a antítese, o contrário, a oposição, o outro, o anti-alguma coisa, o ser ou não ser parmeniano ou hamletiano, o iconoclasta, o inefável, o que não descreve, o que não reflete, o coisa indefinida.’’ Belíssima abertura de ‘’ Mitologia’’ ; meu mestre Maurice Blanchot comentando Joubert diz o que transmito diante desse rio pré-socrático de Thiago : ‘’Se ele gira no mesmo círculo? É o horizonte de seu assunto. Acrescentem : o círculo da imensidade.

Acabar!? Que palavra! Não acabamos quando paramos ou quando declaramos terminado.’’ Recolher algo que seja até quimera do inapreenssível, ofício literário é esse: ‘’Desde então vivo, oculto, filho do nada com o nada. Estou a segredar o tempo todo com você, inclusive agora. Meu nome é Silêncio’’

Continua nesse conto por excelência: compacto, seco, infindo... Cortazar nos pista de entender essa ouriversaria que gênero da estória curta : ‘’ o bom contista é aquele cuja escolha possibilita essa fabulosa abertura do pequeno para o grande, do individual e circunscrito para a essência mesma da condição humana.’’ Conto é ‘curtição’ da linguagem, algo de brilhante que se rumina e ‘regurgita’ precisamente instável, trêmulo, quebradiço: é o lance sucessivo de insights encadeados, o ‘como-se-conta’ do Ser na trajetória exposta da Busca.

Em ‘’O fazedor de flautas’’ , Thiago constrói parábolafabular’, recurso utilizado com maestria por toda obra, em que a ação é desenvolvida por personificação de animais ou objetos, deslocando a idéia para universo peculiar onde a coisificação desdobra-se da mera utilidade prosaica para o encantamento estético: ‘’Logo na primeira semana, fui preso... tráfico de marfim. Confiscaram minhas ferramentas, madeira, tudo. Parei de buscar ...

você disse que a única flauta que te dei, há pouco tempo atrás, é perfeita, não é? Pois bem, quando comecei a trabalhar nela, aqui mesmo na cadeia, não buscava mais nada. Um dia, pensando no mar que hoje nos separa, a ‘perfeição me veio em forma de desespero. Ela me fez perceber que o material perfeito não precisava ser o marfim. Poderia vir de dentro. Do meu próprio corpo sujo arranquei a tíbia e fiz sua flauta. Papai te ama,

Não me busque , pois agora sou apenas mar

                                                                fim. ‘’

Logo lendo, lendo alongado veio à mente Burt Lancaster interpretando o pai,

um sonho borgiano de Ícaro / Dedalus e os romances fantásticos de Alessandro Baricco, tão caros para escritores oceânicos. Não leio, resenho ou analiso apartir da dicotomia : ‘gostei / não-gostei’, quando abordo tenho amalgamado em mim o livro com outros livros relidos: ler é reter iluminado com mais olhar que o que cria e oferece-se em estória. A parábola me trouxe um poema de Jacques Prevert traduzido por Drummond :

‘’A aldeia estava desolada

o canto da ave maltratada:

é o único pássara da aldeia

e foi o único gato da aldeia

que o devorou pela metade.’’

Real é o que leio, a Realidade, como diz Blanchot, é Irrealidade negada.

Subo às Idéias , ao Imaginário através do incondicionado da magia literária:

não é mais mimetismo, é a Realidade que é recorte de algo impossibilitado, mas prenhe por existido. Nada sobra nos contos de Thiago Picchi, nenhuma apara: tudo deita-se em dobradura para fruição, nada pela metade . A grandeza dos contos é suacontração’, é uminstantâneo’ do Eterno, o Devir enredilhado num remoinho. Contos que impactam: cartas para dois, Jano com dois eixos convertidos num fractal disposto em M: supercordas dum universo

caoticamente elegante. ‘’Não silêncio bastante para o meu silêncio.’’ Diz Hilda Hilst;- guardo num aparador-neural o “Papagaio & outras músicas’’ e recomendo; o que disse é fóton-segundo do tanto desse universo-livro que sustenho. Thiago Picchi é músico até quando escreve: conciso para não ser demais generoso: o que se escreve é sempre impreciso do quanto que se tem para ser dito. Escritura é rastro perdido: eu sou leitor que encontro nesse que me acho; a escritura não é a repetição viva do vivo, diz Derrida; esses contos são naturais mas de outra Natureza: a que se redobra geradora sem mais centro.

 

 

 

Flávio Viegas Amoreira , escritor e crítico literário, nasceu em Santos em 1965 . lançou ‘’Maralto’’ (2002)

‘’A Biblioteca Submergida’’ (2003)

‘’Contogramas’’ (2004)

‘’Escorbuto, Cantos da Costa’’ ( 2005)

e lança em 2007 o romance ‘’Edoardo, o Ele de Nós’’

todos pela 7 Letras.

flavioamoreira@uol.com.br