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O poeta do pesadelo e do delírio

 

 

Pedro Maciel

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“Paranóia”, o primeiro livro de poemas de Roberto Piva, publicado em 1963, é de “uma beleza insuportável”. As fotos dos anos 60 de Wesley Duke Lee criam uma atmosfera alucinada da cidade de São Paulo. O livro, relançado pelo Instituto Moreira Salles, é uma releitura delirante de “Paulicéia Desvairada”, de Mário de Andrade. Jorge de Lima e Murilo Mendes são os outros autores que convergem com a obra de Piva.

Roberto Piva é um poeta dos anos malditos e desbundados. Segundo o poeta, “ a minha vida & poesia tem sido uma permanente insurreição contra todas as Ordens. Sou uma sensibilidade antiautoritária atuante. Prisões, desemprego permanente, epifanias, estudo de línguas, LSD, cogumelos sagrados, embalos, jazz, rock, paixões, delírios & todos os boys.” Talvez  ele seja o único poeta brasileiro verdadeiramente surrealista. O surrealismo proclamou a prevalência absoluta do sonho, do instinto e do desejo. Investiu contra os padrões estabelecidos, desprezando a lógica e renegando a ordem moral e social. O processo de criação dos surrealistas baseava-se no inconsciente como meio mágico para inspirar a imaginação criadora.

 “Paranóia” foi comentado em 1965, na revista La Brèche, dirigida por André Breton, o maior pensador do surrealismo. Segundo a resenha, “Paranóia é o primeiro livro de poesia delirante publicado no Brasil” e ressalta as influências de Piva, como Lautréamount, Freud e “a mais moderna literatura beat norte-americana”. Eles ainda acrescentam que o livro transmite “a fascinação dos neons e a alucinação pela metrópole metálica que evocam as fotografias de São Paulo inseridas no seu livro”. Com a publicação do livro, Piva também foi incluído no “Dictionnaire Générale du Surréalism”, de Adam Biro e René Passeron.

Roberto Piva é um poeta trágico; vive à beira do abismo. Pode-se dizer que ele é um poeta “marginal”. “Seja marginal, seja herói”, proclamava Hélio Oiticica. Piva levou essa sentença ao pé da letra: “eu preciso esquecer que eu existo”. Ele cai na vida pra criar poesia. Os intertextos poéticos falam das putas, dos cafajestes, da vida mundana e existencial: “no exílio eu padeço angústia os muros invadem minha memória / atirada no Abismo e meus olhos meus manuscritos meus amores / pulam no Caos”.

O texto de Piva é um nó na garganta, quase nos tira a respiração. É uma piração total. Seus versos vorazes transmitem o desespero de uma existência tumultuada. Ele trilhou as ruas e becos mais sujos da cidade de São Paulo para escrever “Paranóia”: “Meus pés sonham suspensos no Abismo...” O poeta faz da “anarquia um método & modo de vida” para descer aos subterrâneos do inferno. Traz o céu assombrado para iluminar a terra: “Eu vi os anjos de Sodoma escalando / um monte até o céu / E suas asas destruídas pelo fogo / abanavam o ar da tarde  (...) Eu vi os anjos de Sodoma lambendo / as feridas dos que morreram sem / alarde, dos suplicantes, dos suicidas / e dos jovens mortos (...) Eu vi os anjos de Sodoma inventando a / loucura e o arrependimento de Deus.”

“Paranóia” é um pesadelo. Alucinação. Poesia intuitiva; inspirada. Tudo em Piva converge para uma ação mágica, guiada pelos mandamentos do xamanismo, do ocultismo e do camdoblé. Mas a sua obra não é obscura e nem irracional. A sua poética se vincula na própria existência. Místico e rebelde, o poeta norteia uma experiência radical de linguagem, recorre às imagens oníricas, transfigura a realidade e nos aproxima do mundo, fundindo sonho, poesia e vida.

 

 

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2 poemas de Roberto Piva

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foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima

enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente

         na minha memória devorada pelo azul

eu soube decifrar os teus jogos noturnos

indisfarçável entre as flores

uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas

como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca

         palpita nos bulevares oxidados pela névoa

uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil

         de tua túnica

e um milhão de vagalumes trazendo estranhas tatuagens no ventre

         se despedaçam contra os ninhos da Eternidade

é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado

         querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve

         estar como uma talismã nos lábios de todos os meninos

 

Jorge de Lima, panfletário do Caos; Paranóia (1063), de Roberto Piva

 

 

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Nos gramados regulares do parque Ibirapuera

Um anjo da Solidão pousa indeciso sobre meus ombros

A noite traz a lua cheia e teus poemas, Mário de Andrade, regam minha

         imaginação

Para além do parque teu retrato em meu quarto sorri

         para a banalidade dos móveis

Teus versos rebentam na noite como um potente batuque

         fermentado na rua Lopes Chaves

 

Por detrás de cada pedra

Por detrás de cada homem

Por detrás de cada sombra

O vento traz-me o teu rosto

 

Que novo pensamento, que sonho sai de tua fronte noturna?

É noite. E tudo é noite.

É noite nos pára-lamas dos carros

É noite nas pedras

É noite nos teus poemas, Mário!

Onde anda agora a tua voz?

Onde exercitas os músculos da tua alma, agora?

Aviões iluminados dividem a noite em dois pedaços

Eu apalpo teu livro onde as estrelas se refletem

         como numa lagoa

 

É impossível que não haja nenhum poema teu

         escondido e adormecido no fundo deste parque

Olho para os adolescentes que enchem o gramado

         de bicicletas e risos

Eu te imagino perguntando a eles:

         onde fica o pavilhão da Bahia?

         qual é o preço do amendoim?

         é você meu girassol?

 

A noite é interminável e os barcos de aluguel

         fundem-se no olhar tranqüilo dos peixes

Agora, Mário, enquanto os anjos adormecem devo

         seguir contigo de mãos dadas noite adiante

Não só o desespero estrangula nossa impaciência

Também nossos passos embebem as noite de calafrios

Não pares nunca meu querido capitão-loucura

Quero que a Paulicéia voe por cima das árvores

         suspensa em teu ritmo

 

No Parque Ibirapuera, Paranóia (1963), de Roberto Piva

 

 

 

 

(Publicado no caderno “Prosa & Verso”, O Globo)

 

* Pedro Maciel é autor do romance intitulado Retornar com os pássaros, ed. LeYa. Segundo Ferreira Gullar, “Retornar com os pássaros é muito bonito, inteligente e instigante”. Para o escritor e crítico Silviano Santiago, “a ambição da prosa inovadora de Maciel afirma-se fora do ritmo e do compasso disto a que classificamos nas salas de aula e nos manuais como Literatura brasileira ou ocidental. A prosa inspirada e utópica do autor vai levar o leitor a deslocamentos súbitos e sucessivos do eu por esferas celestes nunca dantes navegadas”. Em 2009 lança o romance Como deixei de ser Deus, Ed. Topbooks. Segundo o filósofo e poeta Antonio Cícero, “de certo modo, é o tempo o verdadeiro tema desse livro, que pode ser considerado uma espécie de Bildungsroman, isto é, de romance de educação ou formação. Pode-se dizer que é justamente a intensa capacidade de instigar a sensibilidade, o pensamento e a imaginação que constitui um dos maiores encantos de Como deixei de ser Deus”. Já o escritor Moacyr Scliar diz que, “Como deixei de ser Deus foi para mim uma gratíssima surpresa, pela originalidade, pela profundidade e pela transcendência do texto”. Pedro Maciel, segundo o poeta e tradutor Ivo Barroso, "nos faz acreditar que a literatura brasileira possa ainda apresentar alguma coisa de novo que, curiosamente, remonta à própria arte de escrever: o estilo. O seu primeiro romance A Hora dos Náufragos (Ed. Bertrand Brasil, 2006) perturba pela força da linguagem. O que há de mais próximo desse livro seriam os famosos fusées de Baudelaire".  E-mail: pedro_maciel@uol.com.br