Meiotom - Contos


 

os sonhos de paula

Carlos Pessoa Rosa

Em homenagem a Paula Rego


A música que o pai ouvia incomodava-a. Na verdade, nem sempre foi assim. Dependia muito do modo como acordava.

Nesse dia, por exemplo, acordou com a imagem da fada azul. Parecia um quadro. Um garoto com o corpo todo retesado e nu, os braços estendidos para trás e as mãos cerradas caindo sobre as nádegas. Na sua frente, a fada de azul trazia uma vareta mágica, segura pelo polegar e indicador da mão direita, a cair ao lado do corpo do menino de pés grandes e a cabeça pouco inclinada para a frente. Posição de quem anseia inundado de medo, o corpo todo duro, não somente o sexo. Este, por sinal, não se via. Não precisava, o corpo era todo falo. Mas o que incomodou no sonho foi a fada de azul. Corpo relaxado, sentada em uma poltrona, com os pés muito grandes descalços sobre um tapete. No rosto, a geografia do desejo e da morte. Grande veia fluía pela testa, olhos sombreados, com o nariz e o queixo afilados. Lânguida fada que precisava da criança para manter a luz da vida. Tímida criança que se deixava chupar o rosto pelos lábios da bruxa de azul. Cenário de sonho. Levitação. Viu a mãe uma vez assim. Havia um cheiro forte na cama. Ela esforçou-se para se levantar e beijar seu rosto. Estranha vontade de ser menino.

Irritou-se ainda mais com o clima de paz de sala, o odor de dever cumprido, a mãe fazendo sua sinfonia com pratos e xícaras na cozinha. O pai ouvia Schoenberg, sentado no velho sofá marrom, os pés sobre um tapete levemente arroxeado. Não compreendeu os palavrões que Paula desaguou antes de desaparecer pela porta que dava para o quintal. Não viram o corpo-bicho da menina que voou no vazio, grunhiu como animal na grama e deitou-se no vão da ramagem, entre flores não vistas. Ao redor, havia apenas um fundo branco e o corpo riscado em pastel preto.

Mas Paula era mesmo estranha. Uma menina com cavernas de vazios e ódios nos olhos. Ora mirava distante, do alto do cabo da Roca, ora as ondas agitavam-se muito próximas, entre pedras, como devia ser a boca do inferno. Uma criança instável e esquisita. Opinião da mãe. O pai achava-a especial. Que era diferente das outras, sabia. Nenhuma prima tinha a mania de ver tudo em branco e preto quando sentia raiva. Menos ainda essa coisa de pedaços de cores fortes formando imagens e a compulsão de recortar figuras de jornais e revistas velhos. Por isso, em certas manhãs, não gostava de ouvir Schoenberg. O pai também ouviria as cores dele? E se enxergasse as dela? Ouviria os animais de profunda garganta negra e único olho, rostos perdidos, cabelos escorridos e as línguas e bocas vagueando pela sua mente nas horas das refeições? Criança-animal aprisionada em linha branca, menos a boca, lambendo nádegas; homem de nariz e queixo de inquiridor entre notícias de jornais com rosto saindo das pedras. A mulher com jeito de santa a repousar sobre o sexo-nádega-escroto com patas de cavalo. Sempre gostou de olhar os desenhos de Dante e ouvir a histórias do avô. Ele gostava de arte. Deusas egípcias carregadas pelos escravos. Figuras de Goya. De repente, Paula esquecia-se de tudo. Era como se as imagens conversassem com ela e permitissem ver o mundo como seus pais. Somente assim conseguia ouvir Pelleas und Melisande Op. 5, que o pai adorava. A fada de azul, que também era uma bruxa de azul, desaparecia por encanto; os ouvidos passavam a ver cores e os olhos a ouvir sons. Paula percebia que às vezes éramos inteiros, mas somente às vezes...

Talvez fosse por isso que Paula gostasse de recortar as figuras que encontrava nas revistas da casa. Picadas, criavam uma outra linguagem que os pais não compreendiam. Então, Paula montava um mundo próprio, cheio de ratos, insetos e pré-símbolos. Metade homem, metade cavalo. Seu Dom Quixote, guerreiro em frangalhos. Figuras egípcias que viu nos livros do avô, com cara de animal. Assim mantinha-se distante das regras militares que a mãe impunha na casa, de sua mania de ser a Vossa Excelência do território. Melhor que se transformar em macaco e bater na mulher, ou, conhecedora da fragilidade, oferecer-lhe uma pomba envenenada, como no sonho. Bem que gostaria, mas a inteligência e o corpanzil da mãe não permitiriam nem uma, nem outra coisa. Além disso, gostava dela, o que a deixava confusa. A mãe devia perceber, nem sempre conseguia dar ares de anjo ao rosto que escondia um samurai. Não suportava ver a mãe acariciar as botas e os cabelos do marido, ter em si um poder disfarçado em atividade servil. Enfiar o braço na bota, ser o falo. Comportamento sorrateiro e olhar de gato no geometrizado do espaço. No escuro, o não-dito é um animal que olha para fora, a infinitude do mar; o dito, o domínio do macho que pisa em marcha militar. A mãe era uma felina. O pai, deixava-se levar, a esposa fazia e desfazia de seu corpo como as mulheres de Goya ao jogarem para o alto um boneco de pano. Quem se submetia?

O animal farejou a dona, sentou-se ao lado da sombra dela. Paula levantou a saia para o cão que não reagiu ao cheiro do sexo e ao rosto cheio e frio da menina. Afastou-a do imaginário, da jovem com criança no colo, de homens lambendo seus seios que começam a brotar e de sua mão curiosa invadindo o sexo do homem. Queria compreender as mudanças, o pai e a mãe. Mais, talvez... O cão permaneceu em silêncio, aguardava as maluquices da dona. Paula fazia dele um marionete. Ora era animal, ora homem, ora boneco. Paula também tinha lá suas transformações. Ele não tinha uma dona, mas uma mãe-babá-medicamante. A mulher zanga-se, aconselha, alimenta, impõe e barbeia seu homem. Tudo com mil expressões de rosto, cortes e penteados nos cabelos. Boneco com rabo entre as pernas e súplica na face. Sempre há uma flor, uma ave, um besouro ou uma carruagem de brinquedo a acusar ao cão seu papel.

O animal só não gostou quando as primas de Paula chegaram. Não sairia ileso da perversidade delas. Principalmente quando a dona resolvia transformar-se em mulher-cão, com olhar esbugalhado e boca preparada para morder. Dizia que era assim que a mãe a tratava. Mas não conseguiu fugir, ficou à mercê de uma margarida na orelha e um martelo que bem poderia arrancar seu pênis. Até ser esquecido. Daí, arranjaria um refúgio. Fora sempre assim. As meninas precisavam se cansar. E foi o que aconteceu. Estava ali, obliquamente elas percebiam, mas não queriam mais nada com ele. Morrera debaixo da cama. Elas procurariam alguma construção feita em barro para destruir com um martelo de pau, ou falariam de sexo. Estavam ficando moças. Dia cheio para Paula que procurava se afastar da idéia da viagem do pai.

Passariam o final de semana na praia. Veria a mãe ajoelhada a deixar a brisa e o calor da areia entrarem entre as pernas, uivando no vazio da praia e no roçar da água na areia. Coxas de onde vinha um ruído de concha, chamamento de macho que se rendia àquelas pernas suculentas a comprimir seu sexo. Mãe e filha transformavam-se em duas cadelas a focinhar a falta do homem na casa. Suportavam o calor com punhos trancafiados e pés estendidos nos sonhos. O lobo uiva, fitando o horizonte, à procura de seu par. Paula não suportava o silêncio imposto pela mãe, sentada na velha poltrona da casa, um pé sobre o outro, braços escondidos nas costas e pernas contraindo o sexo. Sentia-se abandonada por aquele olhar vencido pela saudade e pela raiva. Bem diferente do dia em que o pai partiu e a mãe o penteava carinhosamente. Era seu o troféu. Ver a mãe daquele jeito, metida nos cantos da casa, cheia de ódio, com roupas de luto, transformava a menina em Branca de Neve a segurar o Troféu do Pai. Mas faltava um dia e Paula enfurnou-se em seus desenhos.

Animais reais a enfiar a espada no coração do homem comum, do palhaço submisso ao professor, do animal tornado boneco, do homem acariciado pela fêmea escondendo o desejo animal, da flor que gesticula, do machado a cortar o homem ao meio, da mulher que tem os filhos agarrados nas barras de suas ordens, no pai que tem o falo dirigido para a filha. Sonhos... De animais na sala de aula, da professora pedante pelo seu saber, da mulher-cacto que flutua, da navalha a fazer a barba no limite entre o pêlo e a pele, da mulher que aponta um revólver para o bonachão do homem, do jogo de cartas e do duelo. Bichos que carregam, matam, compram, ordenam, cuidam e correm atrás do sexo.

A mãe chora no quarto. Amanhã estarão na praia, com estrelas do mar, tartarugas e peixes. A mãe levará a máscara de quem não tem o animal a satisfazer o gozo e as flores mostrarão a língua. Para dormir, colocará o paletó do marido sob o corpo. Vestirá a roupa de casamento e manterá o olhar no branco acetinado do passado. Terá crises histéricas, morderá o próprio corpo e olhará a vulva como homem. Paula ouvirá os gemidos da mãe que roça o sexo na dobra da cama e perceberá no dia seguinte o medo que ela sente de ser apedrejada. Mas ela continuará a se vestir para o retorno, tirará a roupa todos os dias como se o marido estivesse presente e, na sua ausência, tirará a calça com tristeza. Amigas terão um olhar pesaroso e a mãe ficará nua na areia, entre caranguejos e caracóis. Paula terá de suportá-la, agüentar a mãe tirando sua calcinha. Será sufocada pela maçã envenenada, mas gozará no lombo do cavalo a dor dela. Depois, observará tudo com sua retina colorida, cheia de cores primárias a esconder a culpa do pai perdido. Acariciará os cabelos da mãe com ódio de escrava no rosto, focinho de porco e garras de galhos secos de árvores. Não demoraria para ela ser muito mais que a mãe, encheria o corpo com um vestido bufante, seios bem marcados e ombros desnudos. A boneca de pano, maltrapilha, ficaria adormecida no passado. No futuro, seria uma dançarina flamenga. Um dia pintaria o pai entre anjos e santas, retiraria dele o peso do sexo, teria ele somente para ela, sem traquinagens ou medos de uma possível gravidez.

Mas o dia é o hoje e o pai ouvia sua ópera na sala. A mãe não chorava mais. Com cores de luto, ela sonhará com os movimentos do cisne. Descalças e com sapatilhas, em ritual erótico, as coxas e os braços chamarão o macho. Mas ele não virá e amanhã Paula dançará com as primas na praia. Ficará feliz em ver a mãe sozinha. Imaginará ser seduzida pelo cavalo e trepará com ele. Depois, relembrará todos os desenhos que viu nos livros de pintura, pegará as flores, os repolhos e os duendes do quintal, abrirá as pernas como faz a mãe depois da trepada, terá um sorriso maroto de descanso e fumará um cachimbo da paz. Vislumbrará a mãe velha e morta entre brinquedos da infância, desenhará um homem-cão, um maestro abraçando o vazio e uma mulher lambendo o chão. Apesar de tudo, continuará acreditando na fada-bruxa e nos homens que carregam no colo o corpo inerte de um garoto de nariz curto, mas que nos faz relembrar pinóquio... Por fim, Paula também adormeceu.

(Publicado no livro "A cor e a textura de uma folha de papel em branco" - prêmio UBE/CEPE - Pernambuco - 1998)