Meiotom - Contos


 

para quem o autor escreve?

carlos Pessoa Rosa

   Lá fora, uma garoa chata. Vem em boa hora, o calor está insuportável. A chuva cala a rua e os pássaros. Momento ideal para refletir. Ando às voltas com meu leitor inatingível. Com certeza, a dificuldade de nos encontrarmos está na ditadura cultural e editorial que nos cerca.
            Não há práticas políticas que priorizem uma educação de qualidade e estimulem a leitura, reduzam os custos finais do livro e invistam na abertura de bibliotecas escolares e comunitárias. Para complicar, um ranço colonialista nos mantêm, que pese a alteridade, divididos em dois blocos culturais: os bem-dotados e os incapazes. Compreensivelmente, os primeiros sempre estão do lado do dinheiro e do Estado, preenchendo posições na iniciativa privada, na política e nas universidades. Para completar a tragédia, a prática empresarial é a do lucro a qualquer preço, algo compreensível até certo limite, mas questionável quando se rompe o limite ético entre o papel da leitura enquanto entretenimento ou fonte de crescimento, aventurando-se ao lucro fácil e ao estímulo à mediocridade.
            E a mídia?, me pergunto. Com razão. Ela se ajeita no jogo de interesses coletivos e pessoais, distante do que ocorre de novo em todas as formas de expressão artística. Passei por duas experiências em premiações literárias respeitáveis que reforçam a tese. Em uma delas, um jornal dito ‘sério’ publicou uma pequena reportagem citando um dos premiados com menção-honrosa, ignorando os demais. Irritado, liguei para a redação. Surpreendente a resposta: O fulano é meu amigo pessoal. Pedi ao ‘profissional’ que entrasse em contado com o material de todos os premiados e fizesse uma reportagem crítica, seria mais interessante e honesto. Ignorou. A outra experiência ocorreu quando da divulgação do prêmio da UBE. Obtive o prêmio especial do júri Adolfo Aizen, literatura infanto-juvenil, obra inédita. Igual foi a prática, publicaram a premiação de um dos contemplados com menção-honrosa, também da turma. Telefonei e mandei e-mail para todos da redação. Aumentaram a relação dos premiados mas - castigo? - omitiram a minha.
            Escritores, fica a lição: para sermos lidos, publicados e criticados, precisaremos da amizade dos jornalistas ou dos editores, de preferência com alguma possibilidade de troca - prática do escambo. A qualidade e a análise crítica são pruridos fora de moda, na pós-modernidade vale tudo, a lei de Gerson transforma-se em comportamento ético aceitável em qualquer nível, apesar de seu caráter hediondo.
            Infelizmente, sou aquele sujeito idealista – deve ser erro genético – que, ao ouvir uma jovem que assiste a um espetáculo de Beckett indaga ‘se a professora de português aceitaria um texto escrito daquele modo que ora lhe era apresentado’, chego em casa e, insone, resolvo escrever um livro para o leitor jovem. O texto levaria uma visão de mundo realista, mas com esperança. Surge uma personagem forte em meio a Rita Lee, U2, Paula Rego, Paul Klee e, obviamente, Beckett.
            Terminado o livro, torna-se interessante alguém ler o original. Primeiro teste, minha companheira. Algo suspeito, poderiam dizer. Mas não é. Ela consegue analisar o texto de um modo totalmente impessoal, carrega no currículo o curso de letras na USP, aperfeiçoamento em pedagogia e experiência como professora no colégio Experimental, em São Paulo, onde trabalhou com adolescentes. Pela primeira vez, foi direta ao ler um texto meu: não pode deixar de ser publicado. Segundo teste, meu filho adolescente, o mais difícil, tinha dificuldade de ler o que o pai escrevia, mas pela idade, uma opinião importante. Pegou o material, sentou-se na sala, e saiu de lá somente após ter lido a última linha. Retornou eufórico: o modo como você trabalhou a questão da droga está super-legal, você vai publicá-lo?, vou mostrá-lo aos meus amigos. Terceiro teste, a verdadeira autora, a garota de quem roubei a idéia. Ela saiu distribuindo o original para primas e colegas de escola. Um retorno mais que estimulante. Quarto teste, prêmio João-de-Barro, selecionado entre os dez melhores textos, uma obra com caráter interdisciplinar, intertextual e psicológico. Melhorado, enviei para a UBE. Prêmio Especial Adolfo Aizen de literatura infanto-juvenil. Último teste, professores da rede pública. Por que ainda não foi publicado?, foi a resposta. Estamos articulando reuniões com alunos da rede pública para discutir o texto. Quase omito uma outra experiência. Convidado a participar de um simpósio sobre adolescência na faculdade de medicina, pensei em aproveitar o texto, afinal, todos os problemas relacionados com a idade estavam contemplados no livro, e fugiria de uma apresentação acadêmica. Um domingo inteiro para preparar texto, imagem e som, mantendo assim o perfil da obra. Os estudantes de medicina não souberam que se tratava de um texto literário, a apresentação ocorreu em silêncio total.
            Consultadas algumas editoras, enviei o original para aquelas que demonstraram interesse em recebê-lo. De algumas obtive a resposta clichê; de outras, sugestões que nem vale a pena discutir, se bem que estas pelo menos leram o texto. Chego à conclusão de que a comissão do prêmio João-de-Barro, da UBE, de uma pedagoga, de professores da rede pública, de estudantes de medicina e de jovens estudantes da rede pública e privada nada valem, não passam de um bando de cegos que nada entendem de literatura.
            Ouço som de pássaros, há um estrato único escuro no céu. No horizonte, a luz do sol começa a vencer o desafio. Afinal, para quem os escritores escrevem? E por que escrevem? Talvez, renunciar à língua abra outras possibilidades... É o que alguns escritores começam a descobrir. Não, melhor apre(e)nder a lição que a natureza nos dá; não importa o peso da escuridão, um dia a luz chegará ao seu destino. Assim diz minha intuição...