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Lá fora, uma garoa chata. Vem em boa hora, o calor está insuportável. A
chuva cala a rua e os pássaros. Momento ideal para refletir. Ando às voltas
com meu leitor inatingível. Com certeza, a dificuldade de nos encontrarmos
está na ditadura cultural e editorial que nos cerca.
Não há
práticas políticas que priorizem uma educação de qualidade e estimulem a
leitura, reduzam os custos finais do livro e invistam na abertura de
bibliotecas escolares e comunitárias. Para complicar, um ranço colonialista
nos mantêm, que pese a alteridade, divididos em dois blocos culturais: os
bem-dotados e os incapazes. Compreensivelmente, os primeiros sempre estão do
lado do dinheiro e do Estado, preenchendo posições na iniciativa privada,
na política e nas universidades. Para completar a tragédia, a prática
empresarial é a do lucro a qualquer preço, algo compreensível até certo
limite, mas questionável quando se rompe o limite ético entre o papel da
leitura enquanto entretenimento ou fonte de crescimento, aventurando-se ao
lucro fácil e ao estímulo à mediocridade.
E a mídia?,
me pergunto. Com razão. Ela se ajeita no jogo de interesses coletivos e
pessoais, distante do que ocorre de novo em todas as formas de expressão artística.
Passei por duas experiências em premiações literárias respeitáveis que
reforçam a tese. Em uma delas, um jornal dito ‘sério’ publicou uma
pequena reportagem citando um dos premiados com menção-honrosa, ignorando
os demais. Irritado, liguei para a redação. Surpreendente a resposta: O
fulano é meu amigo pessoal. Pedi ao ‘profissional’ que entrasse em
contado com o material de todos os premiados e fizesse uma reportagem crítica,
seria mais interessante e honesto. Ignorou. A outra experiência ocorreu
quando da divulgação do prêmio da UBE. Obtive o prêmio especial do júri
Adolfo Aizen, literatura infanto-juvenil, obra inédita. Igual foi a prática,
publicaram a premiação de um dos contemplados com menção-honrosa, também
da turma. Telefonei e mandei e-mail para todos da redação. Aumentaram a
relação dos premiados mas - castigo? - omitiram a minha.
Escritores, fica a lição: para sermos lidos, publicados e criticados,
precisaremos da amizade dos jornalistas ou dos editores, de preferência com
alguma possibilidade de troca - prática do escambo. A qualidade e a análise
crítica são pruridos fora de moda, na pós-modernidade vale tudo, a lei de
Gerson transforma-se em comportamento ético aceitável em qualquer nível,
apesar de seu caráter hediondo.
Infelizmente, sou aquele sujeito idealista – deve ser erro genético –
que, ao ouvir uma jovem que assiste a um espetáculo de Beckett indaga ‘se
a professora de português aceitaria um texto escrito daquele modo que ora
lhe era apresentado’, chego em casa e, insone, resolvo escrever um livro
para o leitor jovem. O texto levaria uma visão de mundo realista, mas com
esperança. Surge uma personagem forte em meio a Rita Lee, U2, Paula Rego,
Paul Klee e, obviamente, Beckett.
Terminado
o livro, torna-se interessante alguém ler o original. Primeiro teste, minha
companheira. Algo suspeito, poderiam dizer. Mas não é. Ela consegue
analisar o texto de um modo totalmente impessoal, carrega no currículo o
curso de letras na USP, aperfeiçoamento em pedagogia e experiência como
professora no colégio Experimental, em São Paulo, onde trabalhou com
adolescentes. Pela primeira vez, foi direta ao ler um texto meu: não pode
deixar de ser publicado. Segundo teste, meu filho adolescente, o mais difícil,
tinha dificuldade de ler o que o pai escrevia, mas pela idade, uma opinião
importante. Pegou o material, sentou-se na sala, e saiu de lá somente após
ter lido a última linha. Retornou eufórico: o modo como você trabalhou a
questão da droga está super-legal, você vai publicá-lo?, vou mostrá-lo
aos meus amigos. Terceiro teste, a verdadeira autora, a garota de quem roubei
a idéia. Ela saiu distribuindo o original para primas e colegas de escola.
Um retorno mais que estimulante. Quarto teste, prêmio João-de-Barro,
selecionado entre os dez melhores textos, uma obra com caráter
interdisciplinar, intertextual e psicológico. Melhorado, enviei para a UBE.
Prêmio Especial Adolfo Aizen de literatura infanto-juvenil. Último teste,
professores da rede pública. Por que ainda não foi publicado?, foi a
resposta. Estamos articulando reuniões com alunos da rede pública para
discutir o texto. Quase omito uma outra experiência. Convidado a participar
de um simpósio sobre adolescência na faculdade de medicina, pensei em
aproveitar o texto, afinal, todos os problemas relacionados com a idade
estavam contemplados no livro, e fugiria de uma apresentação acadêmica. Um
domingo inteiro para preparar texto, imagem e som, mantendo assim o perfil da
obra. Os estudantes de medicina não souberam que se tratava de um texto
literário, a apresentação ocorreu em silêncio total.
Consultadas algumas editoras, enviei o original para aquelas que demonstraram
interesse em recebê-lo. De algumas obtive a resposta clichê; de outras,
sugestões que nem vale a pena discutir, se bem que estas pelo menos leram o
texto. Chego à conclusão de que a comissão do prêmio João-de-Barro, da
UBE, de uma pedagoga, de professores da rede pública, de estudantes de
medicina e de jovens estudantes da rede pública e privada nada valem, não
passam de um bando de cegos que nada entendem de literatura.
Ouço som
de pássaros, há um estrato único escuro no céu. No horizonte, a luz do
sol começa a vencer o desafio. Afinal, para quem os escritores escrevem? E
por que escrevem? Talvez, renunciar à língua abra outras possibilidades...
É o que alguns escritores começam a descobrir. Não, melhor apre(e)nder a
lição que a natureza nos dá; não importa o peso da escuridão, um dia a
luz chegará ao seu destino. Assim diz minha intuição...
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