Meiotom - Contos


 

AÇÃO

Carlos Pessoa Rosa

Faz-se madrugada, a cidade sonha carros entre néons, é noite nas almas. Alguém chama o elevador neste exato momento. Range a engrenagem, um som metálico e seco, mas ninguém ouve além dos ruídos de origem, somente eu a auscultar, pés no chão espumoso onde não se percebe os passos, olhar nas luzes aos poucos apagadas, pensamento nas sombras, na metrópole nua de verdades, no esboço de um homem que de casaco preto e chapéu caído na testa cruza a idéia. Nem devagar nem apressado. Vulto saído do fundo escuro da memória. Cometerá algum crime o homem? Sigo sua pista, pequenos signos respingados na calçada, incolores indícios. Quero saber qual o seu papel e o motivo de continuar quando todos pararam.

        Mau-presságio para o autor quando um personagem é o guia, o olhar a vasculhar becos, mulheres à procura de homem, portas semi-abertas. Ouve-se música, um caminhar em círculos, os assuntos esparramados em atalhos, bêbados em sua desatenção a mudar os rumos. Muitos mutilados pela cidade. É a lição; nunca aprendida. O crime, talvez nem cometido, ficou perdido aí atrás, nenhum ato que permitisse uma acusação foi relatado, apenas a mulher gritava para o seu homem: "É mentira!".

        Como prosseguir com tal afirmação? Será mesmo tudo um simulacro, uma inverdade? Nisso também devia pensar o personagem, incomodado com minha intromissão. Mas não poderia nada caso eu não quisesse, essa era a regra desde o início. Fiquei com a mulher e a mancha de sangue em seu pescoço. Ninguém, absolutamente ninguém, para ajudar. Ajeitei-a debaixo de um toldo. Chovia, garoa fina, esqueci de dizer. Um bem necessário, claro. Embebi o lenço na água que caía o que me permitiu limpar o ferimento. Um corte superficial e retilíneo. Uma navalha; quase certo que fora com uma navalha. Recuperada, convidei-me a acompanhá-la. A água limpou o sangue como tinta de caneta.

        O que é o tempo para a ficção para falarmos do retorno? Calor. O Sol deixa tudo adusto, corpos suados. Tão estranho clima é o que de mais próximo havia. As águas regaram sementes. Quando? Preencher com jardins floridos e casais agarrando-se no ar outonal. Nada posso dizer dos que não saíram das cavernas; se nem os conheço! Mas o que estou a escrever? Uma crônica de origem? Faltam os fenômenos naturais... Um conto chinês? Falta verdade nos fantasmas. Na rua o paraíso e os pecados. No meio de tantas alegorias, como criar? Toda narrativa alivia o medo, mas tão transitória é sua ação...

        Tudo lento, muito lento mesmo, engravatados na contramão, pedras segurando águas, o físico no viaduto, seus cálculos a enclausurar o caos, prisões matemáticas, a história mirabolante da ciência. Mais um a agitar o mar com o dedo indicador e acreditar que tem nas mãos a verdade universal. Um final necessitaria de muitos, um único movimento não induz mudanças de um momento único, de uma ruptura. Na mediocridade, todos os cálculos sempre estarão errados. Nos próximos segundos, caso não se atire, devemos matá-lo. Tenho esse direito depois de tanto alarde falso.

        O corpo no chão é motivo de aglomeração. Caiu e morreu? Ou morreu e caiu? Não vi, nada sei, não e não! Professor da melhor universidade do Estado. Deixou mulher e filhos. Tudo se acomodará apesar da cena sempre a mesma. Logo passará, morreu acreditando na ordem, não reconheceu o erro. Fez-se a luz e a sombra. Da tempestade, calmaria. Prados belos e folhagens. Os seres saíram das profundezas, igual aos sonhos do inconsciente. Monstruosos. Enormes e disformes. O avesso do avesso das frases. Da lógica que morreu no parágrafo anterior. Remo em gotas. Assuntando os lados e os cantos como os monstros ao saírem das cavernas. Conviver com novos códigos, nova lógica, sem nada saber de milagres. Somente acreditando em trabalho e suor. Apagar a enciclopédia. A morte sempre nos lembrando do início e do fim. Ela me permitiu rever o homem de casaco preto e chapéu caído sobre a testa. Em pleno abril... Não seria dezembro?

 Caminhava de costas, atraía todos os olhares, evitava enfrentamentos, tumultuava. De alguns, roubava a morte; de outros, a vida. Divertia-se mudando finais. Brincou comigo ao desaparecer e reaparecer. Era início e quer ser fim desse conto. É a cor e o caos.