Meiotom - Contos


 

interrogar-se?

carlos Pessoa Rosa

A interrogação expressa uma dúvida, uma falta de informação, assim começa o Aurélio. No discurso oral, ela se caracteriza pela presença de uma entonação interrogativa; na narrativa pelo sinal ?. Também pode ser notada pela presença de um pronome interrogativo (Quem falou?) ou inversão da ordem sujeito-verbo (Conseguirá nosso herói libertar-se?). Se queremos transmitir a idéia de um sentimento, utilizaremos de uma interrogação exclamativa (Não é um filme maravilhoso?). Já na retórica, pode-se dar a idéia de uma afirmação ao utilizarmos a interrogação(Que diferença isto faz?).

Infelizmente, as lições do Aurélio estão cada vez mais distantes das pessoas. Em relatórios médicos, encontramos com uma freqüência crescente o tal sinal gráfico. Ao invés dos antigos relatórios, minuciosos nos diagnósticos diferenciais — isto mesmo, havia uma descrição cuidadosa —, deparamos com um uso inadequado da interrogação, como se fôssemos obrigados a intuir o que se passou pela cabeça de quem analisou a imagem. Neoplasia? Hemangioma?...

Logicamente, além de nada dizer ao profissional que solicitou o exame, assustará, com certeza, o portador daquela desconhecida doença, deixando-o cheio de ??????? — o sinal representando com certeza um sentimento.

Não bastasse o dito, deparo-me, quando de minha necessidade de fazer uma ressonância, de um uso muito particular do sinal gráfico. A máquina era da Hitachi — a brasileira. O técnico preenchia o relatório com meus dados pessoais quando descobri a pérola: Sexo: M, F ou ?. Com certeza, um uso de muito mau-gosto, podemos dizer até preconceituoso, que todos deveriam repudiar, mais ainda a comunidade Gay. Aos médicos, aconselharia a utilização do sinal segundo a norma culta; à Hitachi, um processo.

Devo aqui abrir um () para saciar a curiosidade dos leitores e amigos. Por que fazer uma ressonância? Devo confessar que na época quase fui condenado a uma cirurgia por um colega que se utiliza da forma culta em seus relatórios, mas que não tem o hábito de se utilizar do recurso ? quando ele é exigido.

Faz 5 anos, uma convulsão levou-me a uma tomografia, uma ressonância e, finalmente, a uma indicação cirúrgica. De comum acordo com um ex-professor — o local e tamanho do meningeoma, sem interrogação, não justificavam o sintoma —, resolvemos acompanhar a imagem. No terceiro ano de controle, o radiologista resolveu reconsiderar o diagnóstico, maculou sua onipotência com uma invisível interrogação ao modo espanhol: ¿A comparação com o exame anterior não demonstra nenhuma modificação em relação ao nódulo, interpretado previamente (¿) como provável (¿) meningeoma de foice — o primeiro relatório não trazia a palavra provável, mas ‘evidenciando como único achado a presença de pequeno meningeoma’. Maldito meningeoma que não cresce!?, expressavam no rosto a cada exame de controle. Mas o que tenho?, era minha pergunta. Resposta: ¿¿¿ Caso o desespero tivesse me levado a uma neurocirurgia... !?1!?!?!?!?!?

Que diferença isto faz se, cinco anos depois, continuo muito bem obrigado, a tal imagem não se modificou e meu neurocirurgião, sabendo muito bem administrar a certeza alheia,  não me operou?