Meiotom - Contos


 

BOCA DE LOBO

Carlos Pessoa Rosa

Idéias entre ratos e baratas. O bueiro é o celeiro dos sonhos. Fugidias e noturnas, narrativas seguem pelas sarjetas do absurdo. Miseráveis entrelaçam a fome junto aos pequenos animais e insetos. De onde estou, vejo apenas as sombras. Mas onde me encontro se ainda há pouco estava entre densos arbustos exigindo o silêncio para não ser descoberto? Na guerra comem-se ratos e baratas como se fossem caviar. Abafam-se as narrativas. A única coisa que desejo saciar nesse momento é o pânico.

O mistério persegue-me desde o dia em que um rato branco entrou nos vãos das pedras e nunca mais voltou. Observo o mundo através do orifício, no vértice do pequeno animal de estimação. O que nos separa é a luz. A mesma luz que projeta a massa dos miseráveis que tramam. Entre o mundo e a sacada sem peitoril e grade, não há escotilhas. Somente bueiros. Seqüência linear e repetitiva de escoadouros de lama.

Choveu na madrugada. Percebe-se um fino rebrilho de luz no asfalto. O resto da chuva pinga na escuridão. Uma cortina suspensa agita-se à brisa que vem da memória. O orgasmo grita em algum lugar. Um murmurar suspiroso é a poética. Uma

janela bate e um gato mia assustado. Encontro-me no interior da abertura, da fenda da história. Não nasci da pedra. Ainda. Crianças deslizam dentro das rochas e caem no mar. Não tenho linhas nem faço sombras. De onde estou observo tudo, mas não encontro espelhos que me reflitam. Acredito não ser nada além de um jogo inútil de palavras ou das imagens que me inventam.

A água levou o cheiro pútrido que se acumulava. Deixou-me vazio. O cheiro da fêmea faz-me lembrar que tenho um sexo. Lambo as fendas da carne; língua saliva ventre. A umidade viscosa por si só não satisfaz. É preciso penetrar. A cisterna engole o homem e devolve um cadáver. Mergulhado no líquido que sacia a sede, o lençol de água refresca a epiderme de pedra. A víscera engole e devolve. Fios começam a trama da luz. De alguma falha rochosa, esperma ovular.

Cantos fechados, suturados, poços com tampo de ferro. O frio da profundidade descongela enredos. Vez ou outra, mande um balde amarrado em corda para que eu possa enviá-los à superfície.

Dormitarei na escuridão ouvindo o fluxo da água que vem do fundo. De cócoras, lembrarei dos dias frios e chuvosos do outono, travados pela 

inexistência. Quanto mais encaixavam o futuro, mais procurava sentidos no silêncio. Peço sempre que me cale. Palavras sempre dizem de nós nunca dizendo além do simulacro.

Calafetar todos os poros e frinchas. Sem luz nada há além da escuridão. Não existe um corpo que não seja além da obliqüidade do momento, de uma charada ou alegoria. Relevos. Histórias para cegos. O tato resenha na mente imagens que a luz nos roubou. É preciso tocar, nem que seja de leve, para resenhar a matéria. A barba cresce na escuridão da cova. Brotam as chagas e o negro em convulsão é guardado em formol no congelador da casa. A ambulância vem da luz. Ondas enormes avançam e relaxam na praia.

Da boca-de-lobo bombeiros tentam retirar um homem. Barba crescida e pele suja em lama o quase ser mantém as pálpebras suturadas com fios metálicos. Apertado em colete de lona e amarrado por cordões que lhe cruzam o tórax é colocado na ambulância. Estou ao seu lado; sempre estive ao seu lado. Afiado, o ruído da sirene, rompe o imaginário. É quando o viajante sai pelos vãos da camisa-de-força e acomoda-se em minhas linhas. É madrugada. Adormecemos no mesmo bueiro. De lá vemos o mundo. Acordar, nunca!