Meiotom - Contos


 

Que estranha necessidade: a crônica nunca contada

carlos Pessoa Rosa

O jornal me pediu mais uma crônica. Estou realmente saturado de ter que preencher uma tirinha todos os domingos. Que significado pode ter a minha minúscula crônica, perdida entre dramas e tragédias? O corpo, a imoralidade e o místico esgotam-se nos fatos. Os noticiários estão cheios de crônica policial, social e econômica. Poderia utilizar a alegoria, diriam os mais esperançosos. Mas como desvalorizar o mundo aparente se a arbitrariedade deixou de sê-lo? Sentido e imagem não se ligam mais. O arbitrário em tempos modernos roubou o espaço da alegoria, passou a ser o próprio exercício de cidadania. Não, não saberia fazer alegoria da alegoria, essa competência criativa não me pertence. Mas também ninguém entenderia o atmosférico de um texto poético, a maioria fica no sentido literal da escrita, poucos conhecem o verdadeiro discurso. Nem eu saberia vender crônicas poéticas. Como Baudelaire insisto uma dignidade em uma sociedade que nunca a conheceu. Além disso, aquela imediatidade entre o poema e o leitor é um prazer de poucos. O jornal me colocaria de escanteio tão logo os índices indicassem queda de leitores. A tirinha ficaria lá, mudariam o cronista, a crônica faz parte da história do jornalismo. Portanto, respeitando as leis do mercado, sempre haverá espaço para ela.

Outro dia resolvi falar ao editor do jornal sobre minhas angústias e idéias. Sabe, disse-lhe, estou pensando em romper com a linearidade, algo parecido com os textos de Beckett e Artaud, incomodaria mais o leitor. Loucura!, disse, sem me deixar terminar. Vou te dar umas férias, talvez assim esqueça Baudelaire, escreva sobre o padre Marcelo, é o que o povo quer, um pouquinho do sangue de Paulo Coelho não faz mal a ninguém. E ele tem razão. Tagarelices. O leitor gosta de tagarelices. Algo com início, meio e fim, exatamente nessa ordem, com alguma dose de fofoca e um final surpresa. Adora ter a falsa sensação de estar sendo tratado com alguém crítico e culto. A receita é algo assim, só para ilustrar: início: a miséria e uma arma comprada de um tenente do exército; meio: questões sociais e econômicas, além das genéticas, que levaram os dois personagens a necessitarem de um dinheirinho extra; fim: a vítima virou uma peneira, mas graças à tecnologia, não morreu.

Melhor parar por aqui, parece acabada, se bem que nenhuma obra poderá ser acabada, além disso atinge o limite de texto permitido, sem excessos a inchar e sobrecarregar. Duas horas da madrugada, pelo ocorrido na redação não sei se este texto será publicado, talvez eu seja o único leitor de minha última crônica... Peço as contas; desculpas, nunca! Em tempos modernos, todo caminho correto tem como companheiro a solidão. Público? Que estranha necessidade...