Meiotom - Contos


 

BION ENSINOU-ME A VER O INTESTINO COMO UM TELESCÓPIO

Carlos Pessoa Rosa

Acordei cansado, irritado, mergulhado em merda, saliva e no ronronar dos intestinos. O cristal sobre a escrivaninha deve estar cansado de minhas energias negativas. Presente de uma amiga afeita a bruxarias que gostaria de ver meus chacras equilibrados. Cansada do insucesso, rareou as visitas até desaparecer. Ignorei as regras para manter o cristal vivo, não comprei o sal grosso nem banhei a pedra no riacho que passa aqui perto. Não descobri o transe neles. Nos sonhos, sim. Junto às imagens, a sensação desarmônica que vem do fundo; mistura de medo e pavor. A madrugada me oferece um palácio cujas paredes projetam minha história de vida. Todas as noites, uma face do simulacro, o hoje contaminado por fantasmas de todas as épocas.

Mergulhado, à deriva, em turbulências sem sentido, evito o espelho. Desculpem-me se os frustro por não definir a matéria e o cenário. Viver no limite entre o visível e o invisível roubou-me as regras para escrever uma crônica ou um conto. Poesia, então, fugiu pelo ralo do encéfalo. Tento parar o redemoinho, retirar fios da tessitura apresentada, ouço Montaigne, MacLuhan, Deleuze... Vã tentativa, a inspiração é uma pedra de gelo. Agarrar o não-dito é o desejo, mas ele derrete a cada aproximação. Arrisco caminhos alternativos. Na escuridão do quarto fico à caça de palavras solidamente congeladas. Banquete e amor... Afiadas como a navalha; frias como um cristal; duras como uma rocha. Não nos enganemos, são feridas que jamais fecham.

Estou com o saco cheio de palavras e sintaxes ao modo comum. De que banquete meu devaneio fala? De um convívio formal ou festivo? Que prato será servido? Participaremos de um almoço degustando pratos exóticos acompanhados de um bom vinho da safra, ou serviremos comida indigesta e autofágica? Pior, de que amor estamos nos aproximando? É necessário esvaziá-lo. Um texto só é um texto se ele oculta ao primeiro olhar, ao primeiro encontro... Quem escreveu? Melhor permanecermos no simulacro. Não consigo abandonar os atores que me formaram: Do cu, ver a boca cheia de dentes, as tonsilas e a língua; ou ficar sacando qual é a dele lá da boca. Na irritação de Bion, a resposta do intestino a esse zanzar inesperado. Não importa de que vértice observe o mundo, sou o mesmo sonhador de palavras escritas que foi Bachelard. Também vejo as palavras agitarem-se nas brenhas do vocabulário à procura de novas companhias; o agitar de acentos tônicos. Eles me ensinaram a tornar o invisível em visível invisível. (Des)mascarar a aparência, (des)dobrar a experiência, (des)construir em eterno vir de é devir criador. O que um escritor pode oferecer além de seus vértices?

(V) Você: No banquete mais citado, o de Platão, participavam apenas homens; no nosso, os dois sexos. Devemos estar atentos para não incorrermos no mesmo erro de Nietzche que dirigiu algum desprezo às mulheres. Bachelard nos alerta: O relógio do masculino tem o dinamismo do tranco. Se não abrigássemos em nós um ser feminino, como haveríamos de repousar? O ideal para o proposto seria atingirmos o que diz a ‘Epístola a Storge’, citação de Bachelard, sobre o amor: é o acordo humano perfeito, formado pela sabedoria atrativa do esposo e a gravitação amorosa da esposa.

(V) Narrador: Não dá tempo para um preparo. Uma trepadeira lenhosa que fala do esqueleto invisível de um tal livro composto de assuntos estranhos (nossos textos), associa amizade, enigma e existência. O prato a ser degustado é vasto: banquete geográfico, antropofágico, eucarístico e platônico. Sem descanso. Há fome, muita fome. As palavras são mastigadas e deglutidas. Deve-se possuir, fundir, assimilar, incorporar e aniquilar se o desejo é dialogar. Todo o processo digestório na oralidade, na escrita e no falo. Devir de casa; cozinha. Antropofagia do discurso: metáfora canibal.

(V) Eu: Preciso de um outro vértice para ver onde minhas palavras comem minhas idéias. Não, pensar não! Devanear em meus vértices literários, matemáticos, jurídicos, morais, vadios etc. Descobrir em mim o outro que sou o eu que não quero ver. Somente assim o ideal terá moradia própria, distante, com certeza, não-eu, o Éden último, no exercício canibal da mãe-Terra. Que é que existe por baixo da máscara supermasculina de Zaratrusta? O que existe de dissimulado no ideal? Vales repletos de árvores altas e frescas que se tem grande satisfação de avistar... O banquete do estrangeiro é geográfico, servido em outro território. De lá,  degusta-se o limite entre o sonho e a mentira.

(V) Narrador: Montanhas de signos, seios altos, pênis áridos, porra, gemidos. Vontade de mijar na estrada. Vergonha. A pureza liberta na praia tem de ser possuída em ritual de assimilação ou canibal. A identidade perdida na cama ou no prato. O imaginário sem o paraíso na carne ou no osso, o mapa interior cheio de terras a serem descobertas. Personagens (in)digestos; meus. Que local de nosso ser habita essa ferramenta que come sentidos? Retornar ao passado assexuado da existência. Lá a fome era de comida, não de palavra, de seio farto e fálico.

(V) Você: Observo-me de um vértice Eu, feminino que me provoca insônia e me leva a comer a fêmea em processo contínuo de autofagia. Engulo a mim mesmo todos os dias, vejo homens em todos os meus vértices... A mulher enciúma, encurta parágrafo, é noctívaga canibal que nem simulada é. Ah, Platão! Que falta nos faz a fêmea colada nos afazeres do dia-a-dia... Deixemos as geografias, o ardor das metáforas. Voltemos ao mamilo norteando o digestório.

(V) Eu: Vamos ao desabitado de conhecimento, o desértico que tanta confusão carrega no lombo. Comer porco-espinho. No imaginário paraíso e inferno são vizinhos. O amorenado devora na vagina e na boca; puta e carrasco. Servir carne humana, banquete antropofágico. Homens... Sempre eles. A indigestão do antebraço malcozido, do miolo ainda sangrando o conhecimento. Vales e montanhas disfarçavam armadilhas. Gozo e morte. Lamber o clitóris, mordiscar o bico do seio, ajuntar champanhe e chocolate; ter o poder para manter a miséria absoluta; homens como cães e porcos perambulando pelas cidades em processo autofágico; professores travestidos de saber mordendo devaneios infantis; a justiça que só veio para cozinhar os desfavorecidos; a política parasitando o cadáver que se consome lentamente... Eis o ritual antropofágico da pós-modernidade. Alteridade.

(V) Narrador: O paraíso perdido; resta o inferno das metáforas, do simulacro do texto, de qualquer texto. Sonho oculto na noite sem memória das cidades, insônia e delírio, ele avança... (Al Berto) Organizar as tribos. Manter-se no poder é uma questão de honra. Assar no medo do desemprego, defumar na incerteza do futuro; chamar para o ritual de Cristo no pão e no vinho, na carne e no sangue.

(V) Eu: Vá, mulher, para a cozinha. Nos ruídos de panelas e nos arrotos do inconsciente está o ritual canibal masculino. Prepare o prato com Cicuta e dê a seu homem. Espere-o entrar em contato com a geografia de seu corpo, deixe-o sentir o cheiro de suas entranhas, atraia e num só golpe seja uma alquimista perfeita. Se verdade existiu em algum momento, foi só durante aquele momento, nem fezes ficaram para contar. Meus semelhantes são meus vértices e alguém desatento pode ocupar e pagar o preço da aventurança.

(V) Você: Pobre Finkielkraut... Todos nossos povos interiores não formam uma só humanidade e preciso devorar os de fora, consumir-me e ignorar-me no outro. O ritual é o do supermercado. Estou só, mas é comigo mesmo. Todos estão só; consigo mesmos...

(V) Eu: Fugir e procurar outros territórios. A perseguição não é do outro, fantasmas passeiam no imaginário, vieram na bagagem. Ceia; seio. Quais palavras pertencem a Deus se simulacros permeiam os fios da textura religiosa. Fé; fel. Coincidências literárias. É necessário comer. No banquete servir Cristo, cristal, reflexos, espelhos... O eucarístico.

(V) Você: Necessito dos meus, do lar limpo, dos amigos perfumados, da alegria de viver, da comunhão simulacra do canibalismo, da latrina a levar os resíduos de meu livre pensar, do campo verdejante, comer a mim mesmo lentamente... Dissimulado, Auschwitz está em todos os lugares. Comamos... Idéias, palavras, devaneios e ilusões.

(V) Eu: Vamos ao último banquete, o Platônico.

(V) Narrador: retomar a antropofagia do discurso, engolir e vomitar o simulacro, o silêncio invisível do deserto, nossos vértices (V), a palavra em cozimento contínuo sem se transformar em cerâmica. Mandar às favas todas as filosofias!

(V) Coro: decifra-te ou devoro-te...