| Meiotom - Contos |
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uma questão anatômica e fisiológica |
carlos Pessoa Rosa |
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Quando
penso na língua e na boca, como neste momento, surge a idéia que trago
comigo desde muito jovem de que a natureza cometeu alguma falha. Tentarei,
agora com mais conhecimento de anatomia, fisiologia e linguagem, justificar o
pensado durante anos. Nenhum
estudioso da fala desprezará, com certeza, a importância dessas estruturas
na articulação das consoantes e das vogais, que tanto enriquecem as
possibilidades sonoras de um povo. Pergunte a um profissional o estrago que
provoca na articulação das palavras uma língua presa ou um lábio
leporino. De um outro modo, se você conhece algum bom provador de vinhos,
que degusta queijos ou comidas exóticas, e não dê importância às
complexidades das papilas linguais, me apresente. Também não conheci
anatomista ou fisiologista que colocasse em dúvida a importância da língua
no processo mastigatório, misturando os alimentos com as enzimas
glandulares, empurrando-os lateralmente de encontro aos incisivos e
contribuindo na deglutição. Claro está que no final são os músculos
bucinadores, ao agirem com o pterigóideo, digástrico, milo-hióideo e gênio-hióideo,
os responsáveis pelo contato direto do alimento com os dentes, produzindo
uma força na boca que chega a 25 KG nos incisivos e 90 KG nos molares,
triturando assim o alimento. Mas não estou aqui para escrever um livro de
anatomia, não é a proposta. Então, vamos ao que interessa. O
que me perturba, como disse no início, é a liberdade com que se movimentam
a língua e os lábios, através de sua anatomia muscular, fato não
presenciado em qualquer outra estrutura anatômica. Tente! A língua, você
pode elevar, lateralizar, rodar, recuar e avançar; com os
lábios, pode chupar, agarrar e puxar. Dos movimentos labiais, o de puxar é
o que menos utilizamos com função alimentar – em geral, puxamos com os
dentes; da língua, o de avançar me parece o menos útil, pelo menos para o
processo digestório, já que não caçamos os alimentos como fazem os répteis
– para isso temos as mãos. O rotatório, de sua vez, para que serve a não
ser sinalizarmos que um alimento estava delicioso, quando deslizamos a língua
pelos lábios? Portanto, já que na natureza tudo tem um objetivo, fico a
pensar até que ponto a língua e os lábios não estariam sendo
subutilizados, pelo menos nas referências acadêmicas. No
dia-a-dia, o homem não deixa escapar essas particularidades que são pouco
discutidas nas salas de aula. O menino, desde cedo, percebe que a língua tem
algo de repulsivo, que incomoda os adultos, portanto, deve ter outros usos
escusos que ainda não compreende. Não é por menos que ao desejar agredir
alguém avança a língua para fora. Também os jovens, quando se beijam,
percebendo a capacidade sensorial dessa estrutura, usam e abusam desses dois
movimentos. Mas é na prática sexual que os encontramos utilizados com mais
freqüência. Ninguém desconhece o movimento rotatório e lento da língua
na boca semi-aberta de uma mulher para atrair seu homem. As prostitutas e as
bailarinas de cabaré abusam dele. Enfim, homens e mulheres descobriram que a
língua faz o que o genital não pode; nada de novo, os animais ligam a mínima
para as convenções morais. É
com essas informações que minha tese toma força. Se a natureza fosse tão
sábia como pensam alguns, seria o genital, e não a língua e a boca, que
deveria movimentar-se com tamanha liberdade. Imagine se com o pênis pudéssemos
lamber a genitália feminina, rodá-lo trezentos e sessenta graus ao redor do
clitóris e, sem movimento do corpo, lançá-lo adiante e recolhê-lo. Quem
dera fôssemos providos de papilas gustativas no genital e houvesse a
possibilidade de enrijecê-lo ao nosso gosto! Nem pensar se da vagina saísse
algo semelhante à língua e os grandes e pequenos lábios pudessem morder e
chupar... Mas
acredito que a natureza não errou. Devemos continuar a considerá-la sábia,
pois do contrário teríamos de aceitar a presença de um nariz também na
pelve, para sentir os odores do sexo... e de olhos para observar em zum. Vocês
imaginaram o resultado estético? |
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