Meiotom - Contos


 

A CIDADE É UM PATCHWORK PROVENÇAL

carlos Pessoa Rosa

Melhor seria abrir uma escola de Eranos. Qual o motivo de ficarmos pagando um monte de parasitas dependurados como morcegos no poder? O cerne está podre e continuam a chupar a casca. Inauguraríamos com intelectuais, artesãos, cientistas, enfim, como a original. Não precisa me dizer que enlouqueci. Deixe sua sensibilidade atravessar a janela. O que vê? Real demais, não é? Ninguém agüenta mais a teia tecida pelo poder. Trama ardilosa e complexa. A cidade é um patchwork provençal.

Uma instituição formada por nômades, onde as pessoas trouxessem experiências e ideais próprios para o território da reflexão, seria o contraponto. Compor a polifonia e não seguir as regras lineares do poder seria a proposta. O feltro, produzido por empastamento, seria o ícone dessa modernidade.

A malha social degenera, os tecidos tornam-se inferiores. Na rua vive-se o délavé, o simulacro. Nos escritórios públicos senhorios abrem concorrências para a compra dos fios e tricoteiam as regras. Com o lucro clandestino importam vinhos e compram safras futuras. Um novo déshabillé para a amante. Foram longe demais com o reto e o drapeado. Que a lembrança desse momento seja uma echarpe no ombro da estátua da liberdade.