Meiotom - Contos


 

TEORIZAR É FUNÇÃO BETA

carlos Pessoa Rosa

Ao longo da vida, uma infinidade de sensações aninham-se em nós sem que tenhamos dado conta de suas existências. Adormecidas, no mais profundo esquecimento, eis que surgem e desembocam em rodamoinhos. Então, cheiros, odores, sons e sensações tácteis levantam poeiras passadas que não sabíamos existir.

Com a música acontece com mais intensidade, o que me permite (re)escrever o passado no presente. Todos os artistas estão a serviço das emoções. Ainda é comum crianças serem advertidas por estarem com o dedo no nariz. ”Tira o dedo dessa meleca, menino!”, é o que mais elas ouvem dos adultos. Atualmente, resolvi mexer em todas as casquinhas que nos pertencem. É o modo de o autor atingir o patamar onírico sem o uso de drogas.

O artista está a serviço da não identidade primordial, da entropia que em inércia aparente agita-se em alfa. Colher os fragmentos que saem da lama primordial e transformá-los em expressão de arte é seu objetivo maior. Qualquer tentativa de teorizar é função beta, trabalho para os discípulos de Bion. O exercício diário da narrativa que os psicanalistas atuam junto a seus pacientes precisa de suporte teórico, mesmo que na troca da meleca primordial estejam os dois a fazer exercícios literários.