Meiotom - Contos


 

a ferradura estala no asfalto onde a coisa é o homem

carlos Pessoa Rosa

Fiel e verdadeiro, o cavaleiro rompe barreiras. O cavalo tem as ancas musculosas, pelagem de cor branca e não leva arreio. Das ventas acesas do belo e apocalíptico animal, foge uma fumaçada branca; no corpo, o sangue circula estuante, desenha avenidas negras. A ferradura estala no asfalto ao som de Vivaldi. As cordas criam um clima de fantasia. No MASP, o animal pára, empina as patas dianteiras e rincha alto. Aproveita o olhar no passado do cavaleiro e retoma o ar. A cidade resfolga no vazio, não reconhece mais as estações do ano. As roupagens e as artes dizem da época.

As curvas do animal continuam nas do homem que se segura em sua crina. Onde começa um e termina o outro? O cavaleiro conversa ao pé do ouvido do animal, trocam sutilezas. O homem do passado continua seu caminho, não é rei, não é santo, é presente. Viaja em círculos, sempre retorna, mas nunca é o mesmo. Sem elmo e couraça, nosso herói está nu, tem grandes olheiras ao redor dos olhos e o peso do conformismo. Os pêlos negros ocupam o tórax e parte dos braços. Introspectivo, é puxado pelas trevas e abismos. Na noite, o cavalo é seu guia. Não está à procura de aventuras, de proteger e defender os excluídos que margeiam as calçadas. Sem motivos, é um corpo retorcido sobre si mesmo, um vulto, um espírito entre carros e buzinas.

Um batalhão de pequenos fragmentos, sem forma e peso, insiste em perseguir o animal pela cidade. A cisão é a palavra de ordem desses minúsculos e invisíveis seres. Atômicos, eles lançam o césio sobre os neurônios, desintegram.  Esparramam frases nos ouvidos e imagens nos olhos dos viventes. O medo de perder está nos oblíquos da cidade, nos cantos escuros e vazios. A promiscuidade se espalha entre parceiros diversos e dispersos, o homem acredita ser um espelho. “Nada nos salvará da destruição”, é o que afirmam surdos às quatro estações de Vivaldi. Passou a ser crença...

O que é real e o que é fantasia para o cavaleiro nu que alucina no asfalto? O facho de luz do carro e a janela do sonho não vêem mais que os olhos do cavalo sem viseira. O homem à deriva na calçada, chicoteia ódio, inunda-se de terror, pressagia o fim dos tempos, quer vestir os pequeninos de duende, rezar preces em todas as igrejas e acreditar em visões de crentes. Já não julga, a frustração incomoda e desintegra, vê a cidade amortecida, sem vida, mas também sem morte, tornar-se pó.

Clareia. Na cidade, o cavaleiro, dono de sua montaria, olha pela última vez a mobília de seus sonhos e desaparece entre torres e o pico do Jaraguá. Palavras galopando na página transformam-se na coisa... é o próprio objeto de delírio.