Meiotom - Crônica


 

abstrações de final de ano

carlos Pessoa Rosa

O final do ano me sufoca. Não sei de onde vem esse tipo de amordaça na alma ou essa corda no pescoço. Sei que calo por que a alma assim deseja. Embrulho meus sentimentos exatamente quando as pessoas abriram seus presentes. Alguém me disse que é ódio mal resolvido. Não sei se aceito a idéia, mas a tese tem sua dose deverdade. Ódio exista, é pela euforia descabida de uma sociedade desigual. Mas a razão diz que nunca houve um mundo diferente desse que vivemos, e eu concordo. Então, a tese não se sustenta. Não mais... Depois que a onipotência da juventude se foi. Talvez o ódio, e começo a aceitar a idéia, fez seu ancoradouro pela impossibilidade da imortalidade. a alma começa a mostrar os dentes. Sofrimento insano – se é que há sofrimento que não o seja –, esse que a alma me provoca, pois é claro e límpido que um dia morreremos. Então, morro todos os dias um pouco, como se estivesse me preparando, mas é no final do ano que mais treino o estar morto. E o faço mantendo distância das festas, do povo, da euforia, da histeria dos fogos, do sexo gratuito, do álcool, da cocaína e da religião. Não critico quem assim se comporte, cada qual que procure sua rota de fuga ao inexorável. agradeço se respeitarem o meu... Eu cavo no abstrato uma cova virtual onde me enterro. Estranho dizer isso quando se está cercado de pássaros, hibiscos brancos e vermelhos, dois cães assustados com tanto ruído, um sol simpático logo cedo, nuvens raras e brisa pouca. Mas é assim que planejo minha morte, não quero morrer entre festeiros entorpecidos pela química, pela ou pelo orgasmo, mas encarando a morte tão logo ela pegue em minhas mãos e me leve para o alto, deixando-me tocar os sons, as nuvens e o céu, enquanto embaixo enterram um corpo em vala comum e que pensam ser meu, que como diz Rubem Braga: o fim é um grande sossego e um imenso perdão.