Meiotom - Crônica


 

MORMAÇO

carlos Pessoa Rosa

MORMAÇO

Nenhuma surpresa você deitada, as coxas desnudas, perna direita fletida, e os pêlos expostos entre a pele e a calcinha azul, olhos bem verdes, pois essa é a cor que eles assumem quando você me deseja. É quando seus pedaços ganham a força de uma grande angular, minha boca e minha língua a textura e a umidade de um animal sedento e faminto. Ouço o gotejar do silêncio, contínuo e abafado, escorrendo do telhado. Exploro os cheiros que saem de você como se estivesse em suas glândulas, em seu corpo, em seu sexo. É quando, estranhamente, sinto o pensamento na genitália, ao redor do saco, nos testículos, no falo. Nesse momento, é outra a cabeça a controlar meu pensamento, mais animal e amorfa.

Sua mão a um milímetro de distância da minha, ponto onde nossas energias se reconhecem como complementares e a matéria não passa de um excesso desnecessário ao gozo. Sei, sim. Claro! A pele necessita do atrito, do fogo. Acordar o gozo que vive adormecido em cada célula.

Desço o olhar, salivo em sua umidade, penetro sua vagina com meu falo pétreo, o gozo mais e mais próximo. Você me engole, leitos venosos túrgidos, em câmera lenta, e fujo, e me deixo engolir, e fujo, até que uma força chupa meu esperma, meu gozo, minha alma, e me joga inerte sobre seu corpo, molhado nas têmporas, no pescoço, ofegante, agonizante, pensamentos voejando vazios, abismos, o nada...

Assim permanecemos, sonolentos, dormitando, ouvindo os primeiros grãos de chuva no telhado, água escorrendo da calha, longe as primeiras lâminas da tarde, o cheiro de umidade, de terra, a aspereza do lençol nas mãos, e a volta do domínio ao cérebro. Olho uma vez mais para você que me olha com esse seu olhar azul sereno, olhar de mormaço que você sempre me dirige após o gozo. Ah! doce ilusão de te tocar fundo...