Meiotom - Crônica


 

PAULICÉIA - A GRANDE BOCA DE MIL DENTES

carlos Pessoa Rosa

É madrugada na paulicéia. Há uma luz acesa no sobrado da Lopes Chaves. Um agregado em traje colorido dorme na entrada da casa. Tem o rosto inchado pelo álcool e os pés descalços. Durante o dia, transeuntes divertem-se com figura tão decadente e popular, delirante.

O passado, geometria tentacular, raízes metálicas sob pirobetumes asfálticos, aparições, oscilações laterais e faíscas de máquinas elétricas. Ambulância a rasgar silêncios e faróis, mortes possíveis, rompentes. Antes, muito antes, pisar em ossos no polígono de três lados, um convento em cada vértice, a taipa no teto da memória, subir em lombos serranos, os ares frios e temperados da alma, bala perdida, esquecimento, devassamento, a luz a flagrar delitos humanos, estrangeiros, quem era esse homem?, Macunaíma, ao longo dos trilhos a sobrevivência, caçar preá no alagadiço, viadutos, teatros, guerra, morte pela fome e doença, a elite em máscaras, o homem amarelo, horrores, sons sem nexo, ruídos, estrondos, A mulher de cabelos verdes, retirantes, revolução, lá fora escorre vida ao guampasso dos arranhacéus. Tranças na cabeça do Salvador, brotamentos cadentes na profundidade do azul, cidade brecheretiana, síntese e detalhe, caídos esculturais, do MASP ao vale do Anhangabaú. Na imensidão desértica, delírios e inquietudes, inflexões de corpos e vozes a driblar sonâmbulos barrocos, todos iguais e desiguais, anônimos polifônicos, do belo e apocalíptico animal nenhuma chama, quando vivem dentro dos meus olhos tão ricos, parecem-me uns macacos, uns macacos. Palavras, da janela ao vento, ao tempo, o pó frio e branco, moluscos devires, pequena missa solene, Catedral da Sé, tátil, traços, ecos abismais, caminhos cruzados. Oráculos sinalizam compradores de ouro, o rosto amarfanhado na falta, ao longo o mármore preto, sustentáculo pátrio, a pausa no canto gregoriano no Colégio São Bento, o azul e branco, o tiro, a sirene, o sangue a coagular nos excessos envidraçados dos olhos, a morte vitoriosa nos corredores góticos da Santa Casa de São Paulo, a massa encefálica ruidosa sob mesa fria, o cortejo humano apático diante da morte lenta, a cidade no olhar de Mário já não é, sendo a mesma, ruído de helicópteros a registrar a poética da perda, o rio de águas sempre as mesmas, a transa do casal sob o poste de luz em embaçada desordem, polifonia heróica, ufanismo de vitórias e genitálias, multidão que se avoluma a partir das nascentes, gemidos aprisionados em cavernas de gelo, submersos em nadas, passos, atropelos, um bisturi de gelo autopsia a paulicéia desvairada. Corpos sobre corpos. Arroubos... Lutas... Setas... Cantigas... Povoar!... Mínimo telegráfico. Atmosferas. Bafos de bocas a procurar um Deus, frios vales da superstição, ritual do vinho, o santo espírito cristalizado, as ervas e as benzeduras do desespero, pharmacia, polifonia curativa, o colorido do sexo transeunte a esconder a cor única e púrpura do luto, a puta céu a pique a rezar uma missa pra perdão, a burguesa em flagrante delito pelo peso do ouro, jovens em degraus de justiça, vem chuva forte, toques, dedos, Deus maestro, torrencial, de Deus, a volúpia de uma pedra, ventam pombas, muito antes, conexões, ligações, túneis com máquinas humanas, soberba vitória, marcha de gritos serenos, os entres, esmolas rarefeitas, fim da missa, fim da féria, apressados passos fúnebres, ilhas amordaçadas, vozerio congelado, do fundo nem sonho, marcha de crepúsculos, roçar a loucura, ser o retorno, um morto no aguardo.

É manhã na Lopes Chaves do novo milênio. A luz, mais que o ruído, acorda o arlequim, o traje um patchwork desbotado. O mordomo abre a porta e reclama de tão desagradável presença. O sobrevivente da cidade pega um saco plástico com roupas velhas e o papelão que serve de cama, afasta-se, olhar no delírio.

Minhas retinas... serpentinas de entes frementes a se desenrolar..., todos os sempres das minhas visões! “Bom giorno, caro.”