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Práticas de Ação Cultural |
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Os textos foram apresentados na Casa das Rosas, em 12.6.2009, quando do evento Dulcinéia Catadora - aniversário de 2 anos. Participaram da mesa: Ademir Demarchi e Marcelino Freire. Mediação: Carlos Pessoa Rosa.
Texto base para discussão (Carlos Pessoa Rosa):
O tema proposto pelo projeto aos autores aqui presentes é PRÁTICAS DE AÇÃO CULTURAL. Como escritor, posso dizer que me senti aliviado ao saber que seria o coordenador da mesa, caberia aos convidados desarmar as palavras de suas possíveis armadilhas. Nada simples, com certeza, mas estamos diante de dois escritores que concentram energia na direção da divulgação da literatura e saberão desconstruir o proposto.
Acredito interessante, atrelar o tema à história recente da cultura, aproximando dessa discussão a ideia de indústria cultural. Adorno e Horkheimer, ao falar de indústria da cultura, aqui incluídos o cinema, a rádio, as revistas e, mais recentemente a internet, refere-se a ela como promotora da barbárie estética, uma indústria da diversão que tem o poder ligado à necessidade produzida.
Atualmente, atrelada à questão de aumento da criminalidade e ação terrorista, a indústria cultural dirige-se de vez ao entretenimento, tendo seu alvo “comodamente” instalado no ambiente do lar, dirigindo a necessidade e determinando o que deve chegar ao público.
Esta indústria preza o sujeito-espectador sem pensamento próprio, rejeita, portanto, a formação de indivíduos autônomos, capazes de julgar e decidir conscientemente. Sua clientela não pode ter identidade própria, deve estar distante da subjetividade, mais próxima de algo para divertir e esquecer. Objetiva-se apenas preencher o sujeito de notícias e opiniões, em um ritornelo esquizofrênico, distanciando-o do prazer pessoal, colocando em um mesmo prato o sacro e o profano.
Tudo é um negócio. Entre um público incapaz de julgar e decidir (objetos de consumo) e uma indústria que “pensa por ele”, plantando o que lhe interessa comercialmente. Inclusive a arte que passa a ter a cara do moderno mundo industrial e de serviços.
Se havia na modernidade, a exclusão social, de cunho econômico, agora, vivenciamos uma nova forma de exclusão, a imposta aos sujeitos que pensam criticamente a vida. Não interessa à indústria cultural qualquer tipo de resistência que pense por ela, estes devem permanecer invisíveis.
Para atingir seu objetivo alia-se à crítica e ao jornalismo, utilizando-os como instrumentos de ação. A imagem, a autoria, mais que a obra, passa a ter importância. É preciso aparecer, a imagem determina o negócio, vende-se o autor, comercializa-se a obra. Mais recentemente acumplicia-se ao Estado, através das políticas públicas de incentivo.
Chegamos à maturidade da sociedade do espetáculo, aos livros biográficos, a autores criados pelo que detém de força em imagem, às intervenções e aparições, pichações, hipertrofia do cinema, o simulacro passará a ser a regra, os sujeitos passam a ser aquilo que assistem, é “Reality Show” a bola da vez.
A indústria cultural passa a usufruir também dessa nova assimetria, explora o trabalho social porque a exploração não se detém, ao contrário, a elas se junta a exploração de toda a atividade social. O modelo atual de vida afirma a escolha já feita na produção e o consumo decorre dessa escolha, e as pessoas se separam e se isolam nas suas individualidades.
Dentro desse novo modo de vida, o artista, para alcançar transparência na sociedade, deverá concentrar energia para novas formas de AÇÃO e estratégias de CONTAMINAÇÃO. Não basta o vírus para provocar a doença, há necessidade de uma disseminação ideal, de um terreno propício à contaminação.
As universidades estão repletas de sujeitos verdadeiramente concentrados, mas muito distantes das práticas de disseminação e do terreno a ser contaminado; fora delas, existem sujeitos que acionam toda energia pessoal na direção da disseminação, do conhecimento do terreno a ser contaminado, mas, por sozinhos, ficam enfraquecidos, com baixo poder de virulência.
Tudo se complica ao introduzirmos às práticas e ações a palavra CULTURAL, sei que é proposital, a Lúcia não coloca nada de graça nas frases.
O Coletivo Dulcinéia Catadora tem seu centro pensante nas artes, é a formação do Ravier, Eloísa Cartonera, e da Lúcia Rosa, Dulcinéia Catadora, seria difícil imaginarmos algo partindo de escritores, nós somos temperamentais e presos demais à questão autoral.
E nisso se diferencia o Coletivo, ele sugere práticas de ação cultural enquanto transformadoras, em regime de troca e compartilhamento entre os diversos níveis de interesses sociais, não categorizando a expressão artística, muito menos o artista; deixa claro que a arte é um dos aspectos da vida coletiva, portanto, deve estar a serviço dela, para que se aprimore seus valores, sejam aperfeiçoadas as instituições, torne-as mais conscientes de seus direitos e deveres.
Quero deixar claro que a ação envolve uma prática política, mas não partidária ou religiosa, muito menos do olhar de cima para baixo do Estado e da Universidade, também não se consolida dentro das normas legais (ONG, Fundação etc).
O Coletivo propõe ações produtivas que atuem em rede, que respeite o caos e o momento presentes, com todas as expressões compactuando de uma mesma intenção. Vivemos uma diversidade social caótica, sendo o problema maior o da inclusão social. Acreditamos nas práticas de ação cultural com enfoque na arte enquanto transformadoras, sem ilusões utópicas maiores, as grandes utopias abraçadas pelo Estado constituído, de direita ou de esquerda, mostraram-se ineficazes para tanto.
PRÁTICAS DE AÇÃO CULTURAL – Ademir Demarchi
Estamos vivendo hoje num clima de rescaldo do anos 60/70/80 do século passado, com mais ênfase na década de 70. É como se tivesse havido um incêndio e depois dele há o rescaldo, aqueles focos de fogo que persistem e ficam voltando. Se estamos um pouco nos anos 70, estamos, é claro, sem militares de cara amarrada no poder, agora trocados por um presidente sorridente e piadista e surpreendentemente vindo do meio do povo, uma espécie de retorno de Getúlio ou do Jango gorado dos anos 60, agora vencedor; porém se estamos sem militares e órgãos nefastos como os dói-codis, estamos com sucedâneos da ROTA agindo nas periferias das grandes cidades como São Paulo (os jornais noticiaram esta semana duas chacinas feitas por encapuçados) ou agindo nos morros cariocas sob a forma de milícias formadas por ex-policiais saudosos do Esquadrão da Morte, aos quais se somam os grupos de guerrilha armados por todo o país (semana passada o PCC queimou dois ônibus na Zona Noroeste em Santos). Isso concretiza em tom de tropicalismo antropofágico à brasileira a utopia do foquismo guevariano, ainda que um foquismo autofágico como de certo modo era também aquele dos anos 70, pois a mortandade e trapalhadas dos criminosos marginalizados do sistema de consumo de hoje que “lutam” contra esse sistema para nele se incluírem e viverem a fantasia do consumo das grifes, parecem em tudo com o filme de Tarantino, Cães de Aluguel.
Bom, e cá estamos nós, tentando fazer nossa polpa de ficção à moda Dulcineia Catadora em meio a esses discursos de Brasil Grande que agora até se dá ao luxo de emprestar dinheiro ao FMI - cara, o bagulho é muito louco, cara, para quem levantou bandeira gritando Fora FMI e defendendo o calote da dívida, agora parece um absurdo se afinar com esse regresso dos anos 80 e gritar Devolva a Grana FMI!. Pois então, o Brasil Grande, aquele Brasil Grande dos discursos dos militares está aí de volta e renovado na maior empresa de petróleo do mundo, a Petrobras; na maior produção de soja e carne do mundo; na maior empresa de industrialização e processamento de carnes do planeta, a associada Sadia-Perdigão; na maior empresa de bebidas do universo, que não para de crescer, a ex-Ambev, ex-InBev, atual AbInBev; que se somam aos maiores lucros estratosféricos bancários, tudo isso, entre tantas superlatividades mais, acontecendo aqui onde estamos, neste olho de furacão de riqueza e miséria.
Vivendo espasmodicamente no mundo da fantasia dos escritores, gosto
sempre de lembrar que neste país de 183 milhões de habitantes
(segundo
Pois então, esse, para mim, é um retrato do Brasil Grande, que começa em grande angular nos discursos oficiais e econômicos e chega em close no analfabetismo e na miséria e na batalha diária e monstruosa que temos que travar diariamente para conseguirmos manter minimamente uma vida sensível e, além dela, conseguirmos, sobrevivendo ao trabalho estafante e sem sentido para pagar as contas e a enorme cascata de impostos, realizar ações culturais com nossos próprios recursos e meios, comprar livros e, já mais utopicamente ainda, lê-los.
Uma tal situação como essa tem nos aprisionado reiteradamente nessa idéia de que estamos sempre à margem, em se tratando de cultura, como se de certa forma estivéssemos nos anos 70, fazendo livros com mimeógrafos agora eletrônicos, os mimeógrafos contemporâneos que são os blogues, os sites ou mesmo nossas edições artesanais e independentes ou em editoras meio utópicas como a Lumme e a Demônio Negro e o Projeto Dulcineia Catadora. O rigor crítico, é claro, aumentou bastante em relação àquela época, ainda que os novos escritores vivam sempre reinventando a roda por desconhecerem o que já foi feito e existiu antes deles, mas, apesar disso, há muitos novos que surgem, oriundos dessa massa de informações e experiências acumuladas que, de surpreendentes que são, acabam achando o caminho do livro e até mesmo de uma editora de porte. Ainda que uma tal situação de marginalidade seja, portanto, uma condição, ela não é impeditiva, pelo contrário, ela é um valor potencializador e capaz de gerar novos valores e potências.
Nunca tive ilusões quanto a isso, tanto que uma experiência importante que foi editar a revista BABEL, em 6 números em formato livro, um projeto coletivo, foi autofinanciado para não depender de vendagem. E, não acreditando na existência do mercado, que existe somente para um grupo de grandes editoras e algumas distribuidoras e redes de livrarias, a revista foi pensada para ser vendida apenas em lançamentos e ser distribuída de forma direta pelo correio para um grupo de escritores interessados.
Por ter feito isso com a BABEL sou constantemente cobrado a continuar a fazer, por essa experiência ter sido muito importante para uma quantidade de pessoas que perdi a conta de quantas seriam pois recebo manifestações constantes de leitores e escritores que estabeleceram alguma relação de afeto e valor com essa experiência e desejam sua continuidade. Talvez porque era uma revista aberta, em que interagíamos com os que escreviam e participavam dela. Foi uma experiência importante para estimular o trabalho de várias pessoas e até abrir caminhos, como foi o caso do Marcelo Ariel, que todos conhecemos, com dois livros publicados pelo Coletivo Dulcineia Catadora e que foi publicado pela primeira vez na Babel, que passou a ser, para ele, em Santos, uma referência e um rumo a seguir para escrever e sair do gueto da miséria favelada de Cubatão.
Mas fazer a revista de 2000 a 2004 e até hoje estar vivendo sua
repercussão e desdobramentos em outras atividades que vamos fazendo
como escrever, declamar, falar em mesas como esta, tem reafirmado a
certeza de que é preciso criar projéteis,
A idéia de marginalidade nos anos 70 assumia um tom idealista, romântico, ingênuo, por isso foi muito criticada e um livrinho do Glauco Mattoso, O que é poesia marginal, é esclarecedor quanto a isso. Por isso tenho clareza que essa idéia de marginalidade é para nós hoje muito mais prática e potencializadora e, sem ser saudosista com relação aos anos 70, repito aqui uma reflexão do Cacaso, que é muito pertinente sobre isso que fazemos. Ele disse que “a distribuição manual do livro, ainda que a troco de algum dinheiro, atenua muito a presença do mercado, modificando funcionalmente a relação entre a obra, autor e público e reaproximando e recuperando nexos qualitativos de convívio que a relação com o mercado havia destruído” [Cacaso – Antonio Carlos de Brito. Tudo da minha terra. Bate papo sobre poesia marginal. Almanaque n. 6, São Paulo, 1978, p. 41].
Ou seja, é importante que o mercado cultural/editorial exista, é importante estar nele, ainda que ele seja um engodo e na medida em que isso seja possível, estar nos catálogos e nas feiras, mas é sobretudo ainda mais importante realizar ações independentes dele de forma a sair de sua lógica fria e calculista que neutraliza as afetividades, as trocas, as experimentações, transformando tudo em produto, em evento e logo na própria assimilação dos artistas e escritores à sua lógica que os transforma em trabalhadores, logo em escravos de uma demanda. Digo isso porque se isso acontece, é preciso sempre ter, como Woody Allen, um cantinho para ir tocar um instrumento fora da orquestra barulhenta que é o sistema.
Não importa,
Ações pessoais, isoladas, são fundamentais, na medida em que sejam críticas, autocríticas, reflexivas, mas são ainda mais potentes e problematizantes na medida em que busquem criar comunidades, realizar ações coletivas, tal como uma ótima definição de Hakim Bey, segundo a qual importa criar “zonas autônomas temporárias” de combate, agindo com uma práxis que não seja apenas individual, mas que busque criar novas comunidades fora do instituído existente, e sobretudo comunidades informais, para estabelecer diálogos possíveis e livres, atingindo novas composições, visando abalar a lógica vigente dos espaços estabelecidos com a incorporação de novos sentidos e vozes, alcançando as contaminações sugeridas pelo Carlos Pessoa Rosa.
Por isso, para mim, sendo crítico a esse estado de coisas que é o Brasil Grande oficialesco, é fundamental ter livro publicado pela Dulcineia Catadora, pois esse é um projeto que se comunica diretamente com o meu entendimento do que seja ação de cultura crítica ao sistema. Como escritor, como poeta, estou numa situação de identidade de marginalidade social com os catadores de papel na medida em que praticamente não existo neste país de analfabetos, escrevo a duras penas e não publico porque o sistema não dá valor a isso que faço. Sou, assim, um catador de palavras como os catadores o são de papéis e unindo esses dois sentidos alcançamos uma ação crítica e de intervenção que faz pensar e mobiliza pessoas. Já distribuí 200 exemplares desse meu livro saído pelo Coletivo Dulcineia Catadora e a resposta tem sido tal qual o Cacaso comentou e repito: “a distribuição manual do livro, ainda que a troco de algum dinheiro, atenua muito a presença do mercado, modificando funcionalmente a relação entre a obra, autor e público e reaproximando e recuperando nexos qualitativos de convívio que a relação com o mercado havia destruído”.
Ademir Demarchi, Casa das Rosas, São Paulo, 18/6/2009