Meiotom - reflexão


 

Uma reflexão sobre o texto "Música barroca e sua interlocução com a pscanálise" de Andrea da Silva Santiago

Carlos Alberto Pessoa Rosa

Uma reflexão debruçado sobre o texto ‘Música barroca e sua interlocução com a psicanálise’ de Andréa da Silva Santiago*.

 

 

O pensamento não é puro, fruto da terra do ninguém. Não! O pensamento é o resultado de superposições e interferências do tempo vivido; para não dizer de todos os tempos. Como o som que, representado por uma onda, origina-se de modulações diversas.

Há os pensamentos mestres, sedimentos estáveis, emparelhados aos momentos em que tudo parece acontecer conforme o esperado, mas também os fragmentados e vulcânicos, mais próximos dos ruídos e barulhos, provocadores de conflitos e pesadelos, agitações desafiantes, tempestades.

Ondulações. Modulações. O momento individual ou coletivo é a resultante de variáveis que ora se opõem, ora se misturam. Viver é optar: equilibrar-se no desequilíbrio, ou caminhar no simulacro. Ser o resultado de pensamentos mestres, coletivos, ou de pensamentos caóticos? Metaforizar... Acolher plasticamente as dissonâncias, afinar-se aos tempos não na mentira, mas no enfrentamento criativo, não silenciar além do necessário para ouvir os ruídos próprios desse momento, assim deve ser o ideal artístico.

Sendo a opção o dissonante, em qualquer tempo, ao invés do acolhimento, será mais provável a crítica. Quanto mais discordante, mais extravagante, barulhento, inconseqüente. Não destoar é a regra para um convívio social; não para o pessoal. Na introspecção, os pensamentos agitam-se, vazam como a lava do vulcão, entram em ebulição em contato com o ar, soltam vapores, provocativos, instigadores.

Escrevo para ser lido daqui a 50 anos diz em carta Graciliano Ramos sobre “Vidas Secas”. Criados em pensamentos mestres, quase sempre, não tem o leitor comum instrumental para lidar com o novo. Ouvidos e olhos precisam de um adestramento lento se queremos crescer. Do figurativo à crise da modernidade, o caos avança. Alguns captaram antes mesmo de haver um modo para dominar o percebido.

Na música arrisca-se cada vez mais em dissonâncias mais irregulares, e, na literatura, na ruptura da sintaxe e do tempo narrativo, algo muito próximo dos ruídos atuais da alma. Qual o papel do artista que não seja encontrar um nicho para sobreviver? Como a música não deve se tornar escrava da palavra, a literatura não deve servir apenas de meio para se contar uma história. Ela deve extravasar-se em dobras, rupturas, fragmentos... Roubando a idéia de Nietzsche sobre a música poderíamos dizer: A literatura jamais pode servir de meio. Mesmo em seu estado mais grosseiro, sempre ultrapassa o texto e o rebaixa a ser apenas seu reflexo. Comparada à música, toda expressão verbal tem qualquer coisa de indecente; dilui e embrutece, banaliza o que é raro.

Assim como a música, a literatura também não deve preocupar-se em nomear as coisas visíveis, mas explorar seus recursos para sintonizar-se em algum momento com as redes do inconsciente coletivo, mesmo que a crítica não tenha ouvido para ouvir. A sensibilidade é dom, a crítica, adestramento.

Tanto na música quanto na literatura, há imagem acústica, o significante, que na forma pura encontra-se no inconsciente. Não deseja o artista ser um significado, algo definido de fora dele, utilizar-se de sonoridades estrangeiras ou da mesmice, mas atuar ruídos próprios, antes ser significante que significado. Dar novas roupagens ao significante é sua função; ser apenas significado, o papel do comum. Sem preconceitos, mas por necessidade intrínseca. A musicalidade interior antecede o nascimento.

Na literatura, deve-se fugir ‘do contar uma história’ apenas, para que sejam exploradas todas as sonoridades próprias dos significantes através das palavras. Que a resultante seja fruto do representativo do homem atual, com suas incertezas, dissonâncias, fragmentações, transformando-se em um som universal. Descobrir o sentido no caos, na esquizofrenia, explorando o que parece não ter lógica, intuir e experimentar, sem querer resolver, eis as necessidades do artista para se curar.

 Entrar em contato com o universo criativo é abrir-se aos mistérios e à riqueza do inconsciente, nunca apreendida em um único movimento, mas absorvido em cada momento de um modo outro, flagrando sons em periféricos desconhecidos, palpando e ouvindo o que há na estranheza e no silêncio.

A literatura, como qualquer arte, se não quiser transformar-se em artesanato deverá caminhar no que destoa, mesmo que num primeiro momento seja carregada de sonoridades desagradáveis. A função do artista é alcançar o Sujeito, através dos estados de espírito, não o indivíduo, ele trabalha com o universal, não com o anatômico, com o aberto, não com o fechado.

O que se fecha é significado, não significante, é indivíduo, não Sujeito. Acrescentar, suprimir, recriar, supondo-se que em toda obra existe ‘Falta’ é função do artista, já que, a obra é do indivíduo, mas a intuição é do Sujeito, coletiva e universal. O artista tem essa obrigação ética.



* Psicóloga pela Universidade Federal de Juiz de Fora, violonista pelo Conservatório Estadual de Música Haydé França Americano e bolsista de Iniciação Científica de Apoio a Grupos pela Universidade Federal de Juiz de Fora.