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Car@s e
Caros, Peguei
no título uma referência a Ítalo Moriconi e outra do último livro de
Eneida Souza para falar um pouco de O Cosmpolitismo do Pobre de
Silviano Santiago (Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2005) e da experiência do
intelectual. Se interessar, mandem
sugestões.
Abraços, Denilson Lopes, Universidade de
Brasília
Intelectual Pop e Cult
Denílson
Lopes[1]
Parece já um lugar-comum mencionar mas necessário lembrar que depois de
15 anos sem lançar um livro de ensaios, Silviano Santiago retorna com
O Cosmopolitismo do Pobre, primeiro de uma serie de três volumes
que certamente o recoloca no lugar de um dos ensaístas e críticos de
cultura e da arte mais importantes da América Latina. Nestes 15 anos,
que coincidiram com seus últimos anos na universidade antes da
aposentadoria e uma intensa publicação de livros de ficção (Uma
História de Família, 1992; Uma Viagem ao México e Cheiro
Forte, 1995; Keith Jarrett no Blue Note, 1996; De
Cócoras, 1999; O Falso Mentiroso, 2004) e apesar da
intensa produção acadêmica e jornalística, sua imagem pública pendeu
para o ficcionista, o escritor. Mas o ficcionista talvez tenha deixado
marcas nestes ensaios que agora lemos em livro em que cada vez mais as
teses são desdobradas por narrativas, situações que alargam e fragmentam
um núcleo, deixando mais provocações, inquietações do que conclusões
fechadas.
É bem verdade que não se pode separar seus ensaios de sua ficção. De
certa forma, há questões que atravessam sua obra por inteiro. Como não
entender que o posicionamento de abertura frente ao diálogo
latino-americano em seu clássico ensaio “Entre-Lugar do Discurso
Latino-Americano” publicado em Uma Literatura nos Trópicos não
encontra uma contrapartida na viagem de Artaud ao México ficcionalizada?
Ou que os dilemas do intelectual modernista não sejam redimensionados
pelo seu retrato de um Graciliano Ramos atualizado pela ditadura dos
anos 60 de Em Liberdade e aqui, neste livro, na genealogia, em
“Atração do Mundo”, pela criativa análise de Joaquim Nabuco e
Mario de Andrade não como dois pólos opostos no nosso cenário
intelectual mas posicionamentos que se suplementam, para usar o
termo derrideano que lhe é caro, e se tensionam para compreender nossas
atitudes até hoje entre o cosmopolitismo e o
nacionalismo?
A opção pelo ensaio, pela intervenção nos jornais, por palestras produz,
ao mesmo tempo, uma obra em aberto, que aceita os desafios do presente,
mas ao mesmo tempo refaz nossa história cultural a partir de um ponto de
vista alternativo à linhagem canônica e modernista uspiana da Antonio
Candido e Roberto Schwarz, que se cristalizou numa crítica materialista,
centrada numa dialética entre a arte e sociedade e na preocupação
adorniana com a forma e que confunde mal-estar com atitude
crítica.
A obra de Silviano redimensiona a tradição intelectual brasileira a
partir de um ecletismo teórico que incorpora o impacto do pensamento da
diferença, sobretudo Derrida, mas também Foucault e Deleuze; passando
pelo debate sobre a pós-modernidade até o diálogo fecundo com os Estudos
Culturais. Tudo reaparece de forma sutil e criadora neste seu último
livro. Como estratégia, recusa tanto ficar à sombra dos grandes mestres,
ser comentador bem comportado como o faz, por exemplo, Leyla
Perrone-Moisés em relação a Barthes, canonizando esta tradição francesa.
Silviano desloca o pensamento destes autores para fora de um cânone
moderno e os faz vivos, atuantes, políticos, equivalente ao que Gayatri
Spivak, Homi Bhabha fizeram nos EUA, ao relerem o pensamento francês da
diferença .Também não se trata de um mergulho conceitual, de natureza
filosófica, mas talvez uma atitude mais produtiva quando se é um
intelectual nascido numa província ultramarina, que é menos a de um
teórico, como de seu colega de geração, Luiz Costa Lima, e mais de um
crítico e leitor que seguem os conceitos à medida em que os próprios
textos os
solicitam. Para
quem tanto defende a diversidade, a multiplicidade, o deslocamento; é
interessante inventariar certas obsessões neste jogo constante entre a
memória e a inserção neste lugar móvel, transnacional e midiático que
emerge na segunda metade do século passado; o olhar atento e fascinado
pelo presente, sem medo de se expor às fragilidades de modismos,
correndo riscos, afirmando ainda uma vez mais, a partir de Nietzsche e
da Contracultura, a alegria do estar presente, com todas suas impurezas
e dilemas, mesmo com ironia, que se traduz no encerramento do livro em
“Epílogo em 1a. pessoa”, espécie de autobiografia
ficcional de um intelectual que vive á altura de nossas riquezas e
fragilidades.
Em Cosmpolitismo do Pobre, o autor reafirma o movimento
iniciado em seu clássico e já citado “O Entre-Lugar do Discurso
Latino-Americano”, ao pensar alternativas aos grandes sistemas
totalizantes, homogeneizados e excludentes, tenham estes os nomes de
capitalismo ou nação, mas sem perder um posicionamento e engajamento em
um mundo já então pós-utópico, nem cair no desespero da dualidade
revolução ou barbárie. Em tempos difíceis, como o nosso, sem revolução,
mas não sem esperanças, a obra de Silviano Santiago continua sendo uma
referência, um farol para se compreender o Brasil após a ditadura,
crítico do imobilismo consumista, realizando uma política do fragmento e
da diversidade, mas sem cair em guetização particularista. O
entre-lugar, longe de uma abstração, é um espaço central para
compreender não só o posicionamento dos intelectuais em viagens
geográficas, intelectuais e de formação, mas para lidar com o
deslocamento de grandes contingentes da população mundial em busca de
sobrevivência e emprego, como se apresenta no ensaio que dá título ao
livro. Para além de uma noção exclusivamente classista, também aqui a
questão negra e índia, já colocadas em seu programa trinta anos atrás
retornam somadas a uma preocupação de gênero, que se traduz em “O
Homossexual Astucioso”, ensaio novamente em continuidade com sua ficção
de Stella Manhattan e Keith Jarrett no Blue Note, na busca
de uma alternativa tanto a uma perspectiva norte-americana, mas
que não silencia nem reduz os novos sujeitos sociais e políticos. O
entre-lugar é o espaço político e existencial, local e transnacional, de
afetos e memórias.
[1] Professor da
Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, autor de Nós os
Mortos: Melancolia e Neo-Barroco (RJ, Sette Letras, 1999) O
Homem que amava Rapazes e Outros Ensaios (RJ, Aeroplano, 2002) e
organizador de O Cinema dos Anos 90 (Chapecó,
Argos, a sair em 2005).
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