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jairo pereira

ESCORBUTO, Cantos da Costa

Epopéia do eu no mar.

 

ESCORBUTO

Cantos da Costa

Flávio Viegas Amoreira

Editora 7 Letras – RJ

52 pgs. Ano 2005.

 

E scorbuto é hipovitaminose febril. Escorbuto é canto cantado pra dentro. Depois de Maralto, Contogramas e o excelente A Biblioteca Submergida, o escritor e poeta santista, nos brinda com esse belo longo poema de invenção: Escorbuto, Cantos da Costa. Matriz poética. Essência na voz de Flávio Viegas Amoreira. Leio e releio o livro-poema, como uma jogada de muitas cartas desiguais. Os signos que compõem a epopéia do eu no mar, são fontes de imagens caleidoscópicas pra muitos outros poemas curtos e longos. Gosto da poesia, a industriar nela mesma, matrizes poéticas definitivas. O mar, a supermolécula acqüe, a megamenmônica mônada, instaura-se diante do leitor, como um desafio lingüístico de proporções quânticas. O poeta pode sim, fazer diferença com sua verve, fala e estética. Este é o caso, do poeta de Escorbuto, Cantos da Costa. Numa época, de complexas variações de linguagens, ímpetos, estéticas... raro encontrar a criação livre, original, que tudo tem a ver com o artífice emissor dos signos. O poema social, remete à conteúdo. O poema formal, induz a visualidades compositórias. O poema, descarga psíquica, revela o eu (sujeito) inter-ativo com os objetos. Recompor um mundo interior, de força e expressão, pela linguagem poética, não é tarefa fácil. E, é o caso do poeta ora lido. Flávio coloca o mar num copo, agita-o, e o devolve a nathureza em forma de epopéia, suja de eus. Os objetos desse mar, aglomerações vivas e mortas, destroçam o ver de primeira. Tudo se arrasta, solapa, embala nas ondas do dizer: o signo explosivo, impondo outros signos, verdades, vertigens e assim em um moto-contínuo o espraiar, marés, fluxo & refluxo de gigantes ondas da língua e das emoções. O leitor não detém a linha, o imenso cordão dos signos, desenrolado com fúria pelo poeta. Como ele mesmo diz na epígrafe de apresentação do livro: Esse poema longo é busca pelo entendimento lírico do sentimento de ser atlântico-brasileiro. Não tenho dúvidas que o imenso mundo azul penetra o mundo ideo-poético do autor. Viver o mar, é conhecer da matéria acqüe, sua substância, seus epiogros alarmados, hipocampos, anêmonas, plânctons, corais e calcificações afins. Flávio mergulha no vasto soluto das águas, a conhecer, o rico material deambulante. Vê, conhece, projeta em forma e linguagens, a ciência do fazer parte da coisa. Coisal, essa poesia, assim composta, com força e acidente dos sentidos. Vemos poetas trabalhando matrizes poéticas, vergonhosamente apropriadas de outros. Poetas de consagração nacional, gigolôs da criação alheia. A crítica pusilânime nada discerne, e quando identifica, peca pela omissão compadrista. Desejo exprimir, que as matrizes poéticas, vindas em borbotões na poesia de Flávio Viegas Amoreira, são dele. Só dele, e também nossa, na sadia apropriação que podemos fazer, no que diz respeito à postura, quando nos alerta, a buscar em nós mesmos, as matrizes de nosso dizer. Outro sujeito, frente a outros objetos, de nosso particular e único cognocer. Entendi a mensagem, que é não-mensagem, cifrado código aos bons entendedores. Gosto de navegar nas águas do inusitado. De um mar, convulso, ficar na praia receptivo aos presentes muito bem-vindos. Regurgitos da grande boca, a língua tensa e inaugural. A poesia de Escorbuto está túmida dessas inaugurações sigilosas do eu, e é só mexer ali, tocar nos ditos pra percep-ser de novo. Não tenhas medo do poema difícil. O hermético é uma mistificação das mentes preguiçosas. Enfrentar o difícil com as armas simples da percepção livre, esse é o método. Convoco, primeiro a uma intimidade com o livro. Alguns dias dormindo, com as páginas abertas à cabeceira. Cheiros, indiferença, um pouco de inveja, é salutar. Leitura e mais leitura. Depois é só entrar nas águas thurvas e que limpam, da composição e delirar. Entras torrentes trópicas egomorfos/ergonáutico! Composto por I- Cantos da costa, II- Atlântico sem rumo e III- Caniço fancho, o livro condensa forte expressão poética, com ampla abertura dos sentidos (canais com o desconhecido). Da mesma forma, que o poeta não faz cerimônia a compor as imagens signo-poéticas, também não faço, no reflexo sígnico da minha leitura. Quis pegar a ave, ou melhor, a sereia pelo canto... perigosa, essa visão, exteriorização do visto/lido. Tudo é perigoso, quando se faz e se fala da poesia. Terreno nebuloso, graça e mistério, no seu antilugar no mundo. CHOVENOMAR desperdício estarmundo/CHOVENOMAR acontece/POEMASPONJA recolhos reunimentos/meus poros são olhos! Pontos focados/pés castos... As imagens saltam desordenadamente, conforme o estado psíquico do poeta. O poema longo, fluxo de consciência, aberto às contribuições acidentais, solta as linguagens a non domino. O poeta deixa de ser o sujeito majoritário/dominador dos signos, pra rastrear o fluxo insubserviente dos mesmos. Riscos e riscos, se corre nessa aventura poética. Feliz o mundo dos que arriscam e inauguram espaços novos pelas linguagens. O Flávio, é um desses audazes experimentadores da língua. Poesia de invenção contra toda torrente dos diluidores & medicropoétics. Não concedo em poesia/analogia não se regateia/tudo mais que não distante/não é prazer a ser escrito. Ler Escorbuto é sentir essa febre terçã da poesia, processo de conhecer e estar no mundo. Febre duradoura/grau peregrino da letra malabarismo significal/cada estagiamento dos sinais lança fábulas/aos cardumes! Transcorrimento: serei espectador/eu pretérito e realizador emprestado de um futuro. Um dia já falei o que a poesia empresta pra filosofia e o que a filos pra poe... não recordo de pronto, mas está no meu ensaio O tao da poesia num site por aí. Afinal, é só onde temos espaço e liberdade, nesse orbe de cultura poética brasileira, nas mãos de editores leigos, críticos ausentes e muitos poetas ruins, protegidos, por sabe se lá quem, detentor de muita força nessa mídia vendida, os “gram publicadores”, “prêmios nacionais consolação” e outras safadezas. As velhas toupeiras, esqueceram que estão mortas (poeticamente falando) e atravancam caminhos. A poesia de renovação brasileira no dizer, está na web, com poetas (na maioria) recusados pelos editores. Tomara a força de minhas palavras, falhe no que digo agora: o poeta Flávio V. Amoreira assim, seguro de si, no seu talento, sofrerá indiferença e até escárnio dos medíocres que a nada arriscam.

Amanhã, quem sabe, um sinal nos céus: as novas gerações, anárquicas, nos libertar do fim dos tempos, que chega antecipadamente.

E, vamos.

 

 

ao MARENOSTRUM serras mais cedam

epos farejante ventura minha

errante trocado dasmuradas

pedaço achado medrando via-costa

urbione lacunense platô rebordado

eficiência textuosa desdizeres...

 

 

 

jAiRo pErEirA

Autor de Capimiã, O abduzido

e outros.