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Pequena Resenha Crítica (Primeiro Rascunho)

 

 

Estupendo Clássico “A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS” de Markus Zusak

 

 

 

“Nunca encontrarás a vida que procuras (...)

Os deuses criaram os homens mas estabeleceram

para eles a morte e guardaram a vida para si(...)”

 

(Epopéia de Gilgamés/Mesopotâmia, 2.750 a.C.)

 

 

 

 

 

 

“Os seres humanos me assombram”, diz Markus Zusak às páginas 478 da estupenda obra clássica “A Menina Que Roubava Livros”, best-selers que, certamente é um dos melhores livros escritos nos últimos dez anos no mundo, lançado no Brasil pela Editora Intrínseca, 2007. O livro é isso tudo o que dizem dele, pode acreditar e botar fé. Quem o leu não passou incólume por ele; ficou com a alma pesada pelo volume de humanismo e falta de, é claro. O livro, aliás, é tudo isso o que de si próprio diz: assombrado em todos os sentidos.

 

Aliás, a “Morte” contando a história toda é um achado de alta criação do fervoroso autor. E, diz, ele mesmo: Quando a morte conta uma história, você tem que parar para ler.  Entrei na leitura desconfiado, e, confesso, saí bem descompensado. Confesso que chorei.

 

A sensibilidade atiçada expropria o fogo de si mesma.

 

Por diversas vezes, lendo o livro em algumas dias, surpreso, aturdido, marcado, levando no meu lado sentidor pelo gume da ficção contundente e aqui e ali aterradora, parei, senti, pensei, sangrei. E durante a louca e varrida leitura pesada escrevi artigos, contos, poemas, ensaios, letras de rocks e blues. Já pensou que respigar? Literalmete tocado, mais, atingido. Acusei o golpe do verbo ler em seu mais potencializado vetor.  Não foi fácil me cortar para pelo menos tentar sair inteiro.

 

Viver vale a pena? Ou a morte é um leve preço a pagar, há várias mortes na morte?

 

Só um ano depois que literalmente larguei o bendito livro que se impregnou em mim; só dando um distanciamento do que ele visceralmente despencou em mim e sobre mim, foi que resolvi pincelar essas mal-acabadas linhas a respeito. Só agora finalmente consegui coragem-suporte para aqui estar depauperado ainda; para escrevinhar esse depoimento-rascunho ainda vibracional (de alguma maneira) de minha leitura também bem inexplicavelmente assombrada. Será o impossível?

 

Sim, caras pálidas, um novo clássico da moderna (e pós-pós-moderna) literatura contemporânea, que, sem ofender, é sim, um baita best-selers do mais alto gabarito literário. Bem escrito, bem delineado no conjunto, com estrutura e fibra, narrativa sedutora, apaixonante, mesmo quando choca ou evoca episódios entre arrebatadores e pragmáticos. Você garra a ler, entra de sola na contação contundente (humana?), bebe a história, sorve, sangra, é levado por ela, se incorpora, descobre afinidades, toca céus e infernos, quando vê, quer, como naquela baladinha meio brega de antigamente,  parar o mundo e descer, apear, como se diz lá em Itararé. Isso.

 

É um trabalho literário de peso, dez vezes melhor do que os caçadores de pipas pelaí.

 

Somos pegos ao pé da letra pela palavra, e acabamos assim também assombrados pelo romance retumbante como um todo. Aliás, você literalmente “Vê” um filme (que se nos passa pela tela da cabeça pensante no ritmo) enquanto lê o livraço e se sacode de alguma forma com a leção.

 

“O pensamento é o espírito do tempo”, diz Pedro Maciel (In, Como Deixei de Ser Deus, Topbooks, 2009). Pois o autor Markus Zusak coloca a segunda guerra mundial de pano de fundo da história o tempo todo, trabalha com o horror de tantas vidas destroçadas, a própria morte sendo louvada a contar a sua sina, o estertor da morte, a poesia que há na morte, a ótica perenal da morte narradora. Só lendo pra crer. A morte contadora acima e sobre todas as coisas. Não é sempre assim? Ah a vida real... Dó. Horror. Vidas secas.

 

A personagem principal que é o básico eixo-fluxo da obra encantadora também por isso mesmo, é LIESEL MEMINGER; daquelas personagens que encarnam no espírito ledor e bota você para dentro de você, correndo atrás de si mesmo, feito imagem e semelhança da pureza no inferno da vida arrebentando. A Ceifadora na Rua Himmel, área pobre de Molching, Alemanha, o “Manual do Coveiro” (santo Deus!), o nazismo hediondo, os judeus despossuídos, as caras expostas de todos os seres, quase seres,  subseres.

 

A vida-covas.

 

E o amigo de LIESEL, Rudy Steiner, então? Chocante. Um livro que dará um épico no império do cinema, e levará milhões a chorarem lágrimas de sangue do céu de cada um; de cada alma tomada pela arte-criação de Markus Zusak. Quem leu Humberto Eco, Ítalo Calvino, Paul Auster, há de adorar ler A Menina Que Roubava Livros perseguida pela morte, driblando-a, ilustrando-a, vivenciando-a e sobrevivendo. Como é que pode?

 

Ah o que a vida faz da vida, o que o homem faz ao homem, o que a guerra faz do espírito sobrevivencial dos vilipendiados. Inspiração, piração, imaginação, envergadura de. O pai acordeonista com um coração de ouro e uma alma de veludo. A mãe aparentemente seca, louca varrida, fechada em bravezas. O hóspede soterrado em traumas no porão da indulgências possíveis. A vizinhança e suas capitulações. As ruas da infância, as crianças em tempos de medo coletivo, medo adultizado.

 

A morte sombreando tudo, toques de recolher, bombardeios, o autor destilando os retratos de um tempo de dilaceramento da espécie humana, como um documentário de vidas infelizes, rueiras, puras, sob os escombros de remorsos e monturos da história em carne viva.

 

Ler o livro e nunca esquecê-lo. O espírito das trevas rondando. Ficando o estigma de relê-lo para exorcizar nossos próprios fantasmas historiais. Compre o livro se não tiver. Leia-o mais de uma vez. Vá em busca de resíduos da alma humana nas trevas de um tempo aterrador. Chorei com LIESEL sonhando o livro-vida, tentando roubá-la para pertencê-la de si mesma despojada de mãe, irmão, esperança, humanismos.

 

Sobrevivência aterradora. Chore com a menina LIESEL roubando um livro-vida-a-mais (passagem possível). Seja essa vida. Seja esse livro. Essa obra sangrou meu coração transido, vida-livro de sentidor que ainda acredita na arte como libertação. Ai de mim. Um dos melhores livros que li-vi-vivi em toda a moinha vida de rato de sebo. E a morte contando... tirando de letra, na metalingüística aqui e ali como estilo, livro falando de livros. O talento do autor, lidando com a carneviva (carnevida) da história. Um romance e tanto.

 

A morte não é só adubo.

 

Sim, meus irmãos, viver não é só abanar o rabo. A guerra produz monstros e tem seqüelas.

 

A finitude e o temor da vida exangue, frente à morte narradora. Foi instigada a minha sensibilidade, o pensamento, a abstração-coisa, e eu sofri-ler, curtir, amei ler A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS. Pela sobrevivência dela, reação dela, a vida entre paredes, as relações de abrigo e destratações. A vida terrível numa vida real romanceada. Perdas. Sonhos. Pinturas de almas humanas. Humanas? Confronto. O sentido da existência é não ter sentido algum? Há sangue na neve muito além de Stalingrado.

 

Nas páginas de A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS os olhos da espécie humana orbitam.

 

O horror da inventada verdade inventariada é um testemunho letral do que não cabe em nós, tocados que somos pela arte, e então explicitam as vísceras expostas do mundo em assombro pela ótica de A Menina Que Roubava Livros. Não foi fácil tentar chegar inteiro ao fim, se segurando em fragmentos, parágrafos, poesias e dor.

 

Valeu a pena ter vivido até agora para ler esse clássico. Ah, falando sério, não tive coragem-calço para citar aqui e ali algum trecho da obra-vida, com medo de expropriação; de tirar do leitor o íntimo deleite de somatizar tudo na sua própria leitura de vidas. Saibam merecer-se por si mesmo. A vida e a alma dos brutos. Bravo!

 

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Silas Correa Leite, Santa Itararé das Letras, Novembro 2009