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Afrodite in verso por Paula Cajaty. Na terceira parte dos célebres Cantos de Bilítis de Pierre Louÿs (1894) há um trecho maravilhoso – o Mar de Kypris. A protagonista, cortesã e poetisa grega Bilítis, vê o sol nascer sobre o mar Mediterrâneo, o mesmo que, segundo um mito bem conhecido, presenciou o advento de Afrodite, e, de repente, fica arrebatada com o vislumbre de “mil lábios pequenos de luz”, sorriso da grande deusa multiplicado pelo constante vaivém das ondas, e evoca um dos nomes sagrados dela: Kypris-que-gosta-de-sorrisos. Exatamente essa impressão – uma intensa luz que ilumina as imagens poéticas por dentro – surge com a leitura de Afrodite in verso, livro de estreia da carioca Paula Cajaty. Uma luz forte que, todavia, não queima a pele nem cega os olhos. Em sua maioria, as obras de Paula não geram tanto impacto quanto, por exemplo, as da autora brasiliense Cristiane Sobral, ou melhor, seu impacto é outro. Em vez de explodir a realidade com sua furiosa energia de contestação, elas exploram-na sutil e delicadamente. Otimista por vocação, Paula Cajaty deixa as mazelas sociais – pobreza, violência, amoralidade – fora do seu universo ensolarado. “Preciso de um doce / que me dê prazer... / prefiro saborear... / pra esquecer o frio da vida” – confessa na poesia Delicatessen. Esse é seu imperativo estético: seria deveras estranho, se Afrodite, deusa de amor, beleza e harmonia, aparecesse no meio de uma saraivada de balas perdidas e denúncias de corrupção que pululam nas páginas de nossos jornais. É a Atena que caberia, talvez, enfrentá-la! “A brevidade é irmã do talento”, disse o famoso escritor russo Anton Tchékhov. Além de luminosos, os versos de Paula Cajaty são concisos, mas isso não quer dizer que a mulher moderna apenas “corre de manhã / corre no almoço e no cair da tarde / corre até parada, na esteira” (Correndo pelo mundo) e, levada pela roda-viva do cotidiano, negligencia o lado poético dele ou, pior ainda, não tem nada a contar sobre a sua vida, seus sonhos, suas angústias e aspirações. Eis a poesia Uma noite, aliás, uma das menores do livro: “Chega a noite / e eu sozinha no quarto / o sereno é meu amante / o escuro me compartilha na cama.” Qual a essência destas quatro linhas que, apesar de sua aparente simplicidade, valem um extenso poema – saudade do amor que foi embora? premonição do amor que está por vir? solidão existencial, insônia crônica, inalcançável felicidade? E que fonte de inspiração as originou: experiências vividas ou conjeturas verossímeis? Pois é... a exuberância do conteúdo ombreia frequentemente a sobriedade da forma. Como se diz, a bom entendedor meia palavra basta, mesmo que se revele nela uma imensidão de causas e consequências. Todo escritor conhece aquelas inúmeras dificuldades que acompanham, em regra, o início de uma bem-sucedida carreira literária. Precisa-se de muita coragem para superá-las uma por uma, chegando ao sucesso e reconhecimento. “Quando um pássaro quer voar / ele não testa, não / é na marra / tem que acertar / de qualquer jeito / tem que se jogar / de lá de cima... / e pegar o jeito na asa (...) e ele só faz isso / só se joga no vazio / porque precisa voar / quando sente a certeza do voo / dentro de si”, diz Paula na sua poesia Primeiro voo. E esses versos significam que sua fase de aprendizagem poética já terminou, que está na hora de alçar altos voos. Tenho plena certeza de que o novo livro de Paula Cajaty a ser lançado pela mesma editora 7Letras que publicou Afrodite in verso oferecerá aos leitores várias surpresas agradáveis, comprovando assim a maturidade criativa de sua autora. |