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HISTÓRIAS DO FIM DO MUNDO

Conheça o livro “Histórias do Fim do Mundo” do escritor atibaiense José Antonio Martino. A história narra as aventuras de Gildavás Pintor, estranho personagem que, estando bebendo com seus dois amigos, Pedro Pexera e o próprio narrador do livro, acredita ter recebido uma mensagem divina e por isso sai pelos descaminhos do mundo em busca da mulher que ele julga ser a mãe do Messias. Em suas andanças, os três personagens (todos são meio malucos e pouco têm de normal) encontram diversas pessoas, também estranhas, que vão se unindo a eles, engrossando a comitiva que haveria de formar o "povo eleito por Deus", para povoar uma Nova Era de paz e prosperidade. É digno de se notar que essas pessoas ditas "escolhidas por Deus para gozar mil anos de felicidade sobre a terra" são em sua essência os párias da sociedade, mendigos, prostitutas, ladrões, etc.
O livro apresenta um delicioso tom humorístico que agrada todas as idades e prende a atenção do leitor do início ao fim, cujo final surpreendente e inesperado é um verdadeiro achado do autor.
Histórias do Fim do Mundo tem tudo para agradar os paladares mais exigentes.


Cap. II - Do que sucedeu na procissão de Nossenhora das Aflitas e
outras desventuras pouco louváveis de Gildavás Pintor.

Nisso o Pedro, que além de troceiro era muito parcimonioso e pouco dado a gastanças, aproveitou o ensejo para esquivar-se das obrigações dinheirativas e arremeteu-se desembestado no encalço do Gildavás que, por ser estúpido e idiota, poderia cometer alguma bestagem. Quem não gostou nada da brincadeira foi o Gerardo Perera, que saiu babando e babado detrás do balcão onde lavava copos e veio me esfregar nas fuças a nossa simpática continha. Se o megero supôs que eu era o menos dinheiroso dos três, o fez muito bem, porque, na verdade, eu não tinha nem três, nem duas, nem uma, nem meia moedinha que fosse para contar história e remediar a situação. De modo que o Gerardo não viu graça na minha desgraça e brindou-me a seu modo com um belo esquenta-orelhas no lado direito da cara e que me ficou a zunir por uns bons três dias. Demais, obrigou-me a lavar aqueles copos gosmosos em seu lugar pelo resto da noite e só me vi livre daquele xarope perto das duas da madrugada, quando o último dos bêbados resolveu tentar ir embora.
Não muito depois, encontrei no fundo de um beco sebento e mal iluminado o Pedro mais o Gildavás bem alegrinhos, abraçados e cantando mui estropiadamente o Adeste Fidelis. Era de se acreditar que o Gildavás já ia arrastando para o seminário o próprio Pedro, criatura herética e zombeteiro de carteirinha, pouco dado às sumidades divinas (o que, aliás, não lhe impedia de fazer das suas vez por outra nas encruzilhadas). Disse-lhes o que havia acontecido e como o Gerardo Perera tratara-me depois que eles se mandaram aos galopes do bar. Pra quê! O Gildavás que já era raivoso quando calmo, entrou em órbitas com tamanho desatino. Não permitia em hipótese alguma que alguém encostasse um dedo que fosse no Pedro ou em mim. Urrou que iria desossar aquela lêndea seborrenta e já estava dobrando a esquina quando parou, decepcionado. Lembrara-se que ainda há pouco fizera voto de piedade e que, dessa forma, estava comprometido para todo o sempre não apenas com a Santa Madre Igreja, mas também com os homens e com Deus. Arrependeu-se piamente de seus pecados e agradeceu aos céus pelo bom sucesso em mais esta provação. Pobre Gildavás! Tinha encasquetado com a idéia de ser padre e não houve meios de desenterrá-la da sua cachola curta de tutano.
- Para ser padre, Gi, é preciso ter vocação.
- Sei, sim sinhô.
- Para ser padre, Gi, é preciso escutar o chamado Dele.
- Sei, sim sinhô.
- Mas, Gi, para ser padre é preciso ter batina.
Não sabia, não sinhô. A princípio, ficou assim meio ressabiado como quem suspeita da própria sombra, mas, depois, concordou que precisaria de uma batina, uma bem bonita e brilhosa para deleitar os olhos onioculares de Deus. E conhecendo o Gildavás como conhecíamos, logo percebemos que ele não sossegaria o facho enquanto não arranjasse a dita cuja. Sucedeu, porém, que nesse exato entrecho, não se sabe como ou porquê, ia passando por ali uma procissão.
De imediato, lembrei-me das histórias cavernosas que Tia Fedegosa me contava e pareceu-me que aquela balbúrdia toda nada mais era do que a lendária procissão de Nossenhora das Aflitas, cuja origem se perdia nas brumas da Idade Média. Tia Fedegosa, versada em assuntos opíparos e noutros de somenos interesse, foi quem me explicou estas coisas notadamente notáveis. Disse que a procissão das Aflitas era uma reminiscência arquetípica das faustosas celebrações na antiga Pérsia em honra ao deus Sullaf Sutcere. Na noite mais escura do ano (que por obra e graça desse elevado deus caía sempre na véspera da plantação da mandioca), um número imenso de mulheres, todas nuas, saía às ruas para glorificar a grandeza do deus Sullaf. E creio que a véia tinha mesmo razão, porque o que víamos ali era uma enxurrada de mulheres de todo tipo e calibre, nuzinhas da silva de cabo e principalmente de rabo, a desfilarem piadosas pela madrugada a título de penitência e devoção. Quando se aproximaram da gente o suficiente, deu para perceber que elas vinham entoando loas laudatórias numa língua que a princípio me pareceu persa, mas também poderia ser aramaico ou javanês. Uma delas, a mais cabeluda, berrava às goelas despregadas, fazendo um gesto esquisito com as mãos:
- In connus compridorum sunt.
Ao que as outras respondiam, fervilhosas, alvoroçadinhas:
- Ad seculus seculorum...
Quem primeiro se deu conta deste acontecimento inusitado foi o Gildavás, que se adiantou a nós e passou a prosear com algumas delas. Vendo a estranheza da língua em que se expressavam, não se fez de rogado e, como se lhe fosse de domínio, entabulou com elas a mais estranha conversação que os manuais de dialoguês jamais tiveram notícia. Disse o Gi:
- Bocae fechatum moscatorum non entras!
Ao que retrucou uma das moças:
- Et cullus bebadorum non habent dominus!
De maneira que assim foram se entendendo ou dando a nos entender que se entendiam. E logo o Gi, dizia o Pedro, que abandonara a escola no pré-primário por insuficiência intelectual e male-má sabia ruminar os rudimentos do português. Se não estivéssemos vendo o pau, não acreditaríamos na cobra. Dava gosto ouvir o Gi falando bonito aquela língua de mulher pelada. Mas, ah!… bem disse a Tia Fedegosa que todo mistério inexplicável tem sempre uma explicação plausível. O Pedro viu uma pomba branca, redonducha, avoando por detrás dos ombros do Gildavás, o que nos convenceu de imediato, que só podia ser cousas do Espírito Santo.
Nisso, ou porque deu cinco minutos no bicho ou por algum outro destrambelhamento qualquer, começou o Gildavás a tirar a roupa até ficar feito Adão no Paraíso. E digo que não houve grandes escândalos, nem corre-corre, nem qualquer outra coisa que o valha. Da parte do Gi, ele apenas se limitou a nos comunicar sua resolução:
- Parto hoje como vim ao mundo em busca de uma bonita batina para agradar aos caprichos de Deus. Como vêem, estas gentis senhorinhas sustentam o mesmo fado que o meu e com elas trilharei noite e dia pelos mais oblongos caminhos até que nosso fim seja alcançado. A fé que nos irmana alimentará nosso espírito e saciará a nossa sede. Todavia, se Deus puder, que nos mande de vez em quando um pouco de maná ou qualquer outra refeição mais apetecível. Assim seja. Amém! Aleluia Jesus! Saravá, meu Pai!
E proferindo estas não tão sábias, mas definitivas palavras, o nosso Gi foi sumindo... sumindo... até que sumiu completamente naquela noite escura, escuríssima, feito vida de padre.



José Antonio Martino é contista, formado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Junto com outros escritores de Atibaia, fundou a Academia Literária Atibaiense (A.L.A.) e é o atual editor da revista literária Arlequinal. Possui diversas premiações literárias, destacando-se o Prêmio escriba de Piracicaba, o Concurso de Contos Cidade de Araçatuba, Prêmio Sepam de Contos de Ponta Grossa, Prêmio Sociedade de Cultura Latina do Brasil (Mogi das Cruzes), Prêmio de Poesia Casa da Palavra de Santo André, Prêmio ASES de contos em Bragança Paulista, Concurso de Contos da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, Prêmio de Poesia da Academia Irajaense de Letras (RJ), Concurso de contos José Cândido de Carvalho (RJ), entre outros. Foi escolhido no ano 2000 como um dos 15 melhores contistas do estado de São Paulo pela Secretaria de Educação e Cultura do Estado (Mapa Cultural Paulista).