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A céu aberto de joão gilberto noll

carlos alerto pessoa rosa

      

Carlos Alberto Pessoa Rosa (1)

Gargalhava, o mar quase encobrindo meus pés, as ondas se repetindo, sem abismos, portanto sem ecos, o ruído provocado pelas quebras abafava o que nascia em minhas entranhas, é interessante como o gargalhar se aproxima do orgasmo, a água a roçar a areia, nuvens altas, nas mãos a figura de um navio quebra-nuvens: A céu aberto

Comprara o livro há um ano, várias tentativas até conseguir terminá-lo, não compreendia, uma massa esquisita assomava no peito e me afastava da leitura, Noll, quase um sinal, desses pichados nas alturas dos prédios, era o nome estampado no sonho de uma viagem atmosférica, a esquizoidia a percorrer espaços e cenários inesperados, o trabalho com a linguagem, a história de mil e uma noites vivida por ‘personopatas’, rompendo a linearidade, espaço-tempo arcaico, arquetípico, o fluxo contínuo, o próprio título carregado de infinitos, o Ser consigo mesmo, na fragmentação que é a essência de cada um de nós, não na fantasia de uma unidade com presente-passado-futuro, de um Self integrado, mas nas entonações do psicopata, afinal somos variações infinitas do esquizofrênico e do maníaco-depressivo, o homem assumindo o próprio destino, perdido, o Estado e a Igreja sendo incendiados por terroristas anônimos vindos do estrangeiro, a realidade interna e externa cheia de cisões, fragmentos (ex)pulsos, cheia de (im)pulsos destrutivos, amor transformado em sadismo, um pavor das relações de objeto, de carne e osso, dos vínculos familiares...

Agora percebo, pasmado com a pós-modernidade da viagem, cada partícula como um objeto real encapsulado num território particular de personalidade que o engolfou e, diante da liberdade oceânica, posso gargalhar à vontade, ao redor não passo de uma ilusão-continuidade-fluxo, resenha-fruto do que enraivece-inunda, de quando as palavras passam a ser as próprias coisas que os objetos designam, A céu aberto, levou-me à ilha dos Cisnes de Beckett, ao som de Schöenberg, à normalidade de um Artaud, vi as orelhas de Van Gogh em alguma página, Debussy, Ravel...

O horizonte sempre surpreende, este mais um garimpado por Noll, impressões sensoriais movediças em um mundo onírico mas ao mesmo tempo tão reais que nada mais me resta a não ser gargalhar — talvez não passasse de um ciumar o que se manifestava no peito e agora é gozo.


1 Médico-escritor. Publicou ‘A cor e a textura de uma folha de papel em branco’, contos, prêmio ficção nacional CEPE/UBE; ‘Destinos de Vidro’, contos premiados, Ed. Meiotom; ‘Mortalis: um ensaio sobre a morte’, ensaio, prêmio Xerox/Livro Aberto.