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UM SEMEADOR DE PALAVRAS

WANDERSON LIMA

Saiu no Diário do Povo - Teresina-PI.

        Uma contradição flagrante em considerável parcela dos literatos piauienses é alimentar o desejo de reconhecimento fora de nossas cercanias  sem fomentar o desejo de conhecer os talentos de outras plagas. A lista dos poetas lidos e admirados entre nós raramente vai além de nomes já canonizados pelo sistema literário. Clamamos, a maioria de nós, que nossos poetas “tipo exportação” – Élio, Rubervam, Durvalino, Paulo Machado, Marleide, Dílson – sejam reconhecidos lá fora, mas recolhemos nossas antenas quando se trata de garimpar talentos  fora de nossas fronteiras . Nem mesmo um fenômeno poético como Nauro Machado, do nosso vizinho Maranhão, encontra acolhida entre nós.

        A geração que surge agora , porém, tende a mudar essa situação. O diálogo com autores excluídos do cânone e dos grandes veículos de comunicação facilitou-se graças à Internet , que nos últimos anos tem sido o local ideal para divulgação e busca de bons poetas. Um site como o Jornal de Poesia do cearense Soares Feitosa, o maior de todos no gênero,  congrega mais de 2000 poetas das mais diferentes filiações. Quem souber garimpar, aí encontrará uma considerável quantia de talentos pouco conhecidos ou desconhecidos mesmo.

        Foi justamente pela Internet que tomamos conhecimento da poesia  de Lau Siqueira ,um gaúcho radicado na Paraíba,  dono de um verso contido, lúdico e denso que não raras vezes faz lembrar esse fenômeno de consciência ludo-crítica ( perdoe-nos o neologismo)  que foi Paulo Leminski. Lemos tudo, ou quase tudo, do que havia de Lau na “rede” e, ainda inconformados, contactamos  com o autor em busca de seus livros. Recebemos seu terceiro e último trabalho, Sem Meias Palavras , publicado este ano.

        A leitura desta obra  veio a confirmar o que desconfiávamos : a poesia de Lau merece toda a  nossa atenção, dada sua indubitável qualidade estética. Minimalista ,avessa a barroquismos, essa poesia singulariza-se, entre outros pontos, pela ânsia de condensação, pela expressão direta porém sutil e sugestiva, salpicada de uma consciência metalinguística  e de uma cortante ironia. O primeiro contato com a poética de Lau Siqueira pode suscitar interpretações equivocadas , se o leitor , desatento ou  não instrumentalizado, não perceber  o artesanato por trás da ! falsa simplicidade . Deve lembrar o leitor que o poeta é um fingidor e também um jogador .

 o que escrevo

é apenas parte

do que sinto

 

a outra parte

finjo que minto

e acredito

( razão nenhuma, p.16)

          Sem Meias Palavras  é uma prova de que se pode fazer poesia com inventividade e rigor sem necessariamente torná-la hermética, obscura. Lau  , com argúcia, flertou com as vanguardas mas soube evitar o espírito vanguardeiro de certos diluídores que , querendo estar além de seu tempo, só conseguem ser obscuros e/ou risíveis. Lau é um poeta de alta legibilidade. Prova disso é que, conforme nos informa Frederico Barbosa  no posfácio da obra, a comunidade estudantil o tem lido e admirado.

        É bem verdade que nem todos  os 50 poemas de Sem Meias Palavras  mantêm o rigor, a inventividade e a consciência ludo-crítica que são a tônica do livro. Peças de fatura superior, como “coito” , “chuva” , “as flores mallarmaicas” e “anonimal” convivem ao lado de  uns poucos poemas menores, a exemplo de “ausência” e “estribrilho”, que decaem ou pelo abuso do lúdico ou pelo coloquialismo um tanto quanto incoadunável com a dicção poética concisa e inventiva do autor.

        O nome promissor de Lau deve ser guardado , pois em meio a uma versalhada pseudo-vanguardita ou neo-conservadora  esse autor gaúcho/paraibano  soube cavar uma voz autônoma, simples mas não simplista , inovadora mas não obscura.

 

Aforismos de Roldan-Roldan

 

     Além de notável poeta, Roldan-Roldan revela-se um desenvolto aforista. Em sua obra Os úberes do infinito, numa seção intitulada  “ Definições”, o autor lança alguns petardos no otimismo alienante inculcado em nós pela pelos meios de domesticação em massa., que elevam  à categoria de gênio gente como Dalai Lama, Lair Ribeiro ,Paulo Coelho et caterva . A linguagem dos aforismos é concisa e bem trabalhada, revelando influências de dois grandes cultores do gênero, La Rochefoucauld e Nietzsche. Eis alguns que prazerosamente selecionei :

 Angústia,

amante da consciência.

 

***

Auto-ajuda (livros de )

o papel higiênico é mais suave.

 

***

 

Burguesia,

lia do pragmatismo.

 

***

 

Democracia,

mito capenga.

 

*** 

 

Ética,

os oportunistas preferem Deus.

*** 

 

Globalização,

Centralismo totalitário.

 

*** 

 

Homossexualismo,

equilíbrio ecológico.

 

*** 

 

Liberdade,

o maior engodo do capitalismo.

 

*** 

 

Religião,

Comercialização de Deus. 

 

*** 

 

Vaidade,

ânus do orgulho. 

 

Wanderson Lima é poeta e professor. Seu site na Internet : www.wandersonpoesia.hpg.ig.com.br