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ROGÉRIO SALGADO - UM POETA E SUAS RAÍZES

TANUSSI CARDOSO

ROGÉRIO SALGADO: UM POETA E SUAS RAÍZES

 

TANUSSI CARDOSO

 

        Costuma-se dizer que em toda criança habita um poeta. Há pureza em suas verdades, há metáforas extremamente criativas, há hipérboles geniais, há objetividade em suas palavras. E quando o adulto, o homem-poeta, encontra um espaço para cantar a infância, a meninice, os tempos findos para um garoto que cresceu mas que não perdeu a força de sua história, que ainda cria figuras literárias inovadoras e que lima a gordura de seus versos, sabedor que no poema, o mais é sempre menos... quando o poeta consegue conjugar tudo isso, com certeza, é um ser em plenitude.

         Rogério Salgado, com seu livro “Ainda Menino” (Belô Poético, 2002, BH/MG), seduz pela simplicidade. Não aquela simplicidade que implica em facilidade, mas aquela em que somente os grandes artistas conseguem alcançar. A simplicidade trabalhada pelas formigas em seus rumos, como a aranha ao construir suas teias, como um pássaro o seu ninho – o trabalho de quem sabe o seu ofício.

         O poeta não se envergonha de ser um homem comum (afinal, não se pretende Deus), e chora, e ri, e sente saudades, e se emociona diante dos fatos da vida. Mas nunca se desespera, nunca se aliena com a aceitação. O poeta quer mais vida, ainda que não seja a vida de um menino feliz, com seus pais, irmãos, tios, amigos, babás... O poeta quer a vida que se pode viver. A vida em esperança, em poesia, em fraternidade, em solidariedade, apesar de doer como uma “fotografia na parede”:

 

“Dolorido é saber

que as lembranças voltam:

o tempo não!”

Ou como diz em “Poema Pela Passagem de Ano”:

 

(...) “ – isso existia nos velhos tempos / em que a felicidade existia –

Hoje / bebo esse vinho sozinho

comigo e com minhas lembranças (...)

         Ou ainda como em “Réquiem”:

 

(...) “Apesar desses cabelos brancos e dessas rugas

que hoje trago guardados comigo

também trago a lembrança desse tempo

que não saiu da memória.”

 

        O poeta chora sua infância e nos oferece retratos comoventes de pessoas, ruas, brinquedos, doces, brincadeiras que, como num filme, passam diante de nossas retinas, como no poema “Infância”, com sotaque de Bandeira:

 

“Quando garoto / em todos os natais, Irene

- babá de minha infância - / presenteava-me com um cartão

bem bonito “.

 

         E termina, triste e irônico, com a morte de sua Irene:

 

“Irene não escrevera / naquele ano.

Dias depois soube / que Irene falecera

por causa d’uma diabete. / Bem que eu dissera:

- Como era doce a minha Irene!”

 

         Rogério Salgado é natural de Campos dos Goytacases, no Rio de Janeiro, mas radicado desde 1980 em Belo Horizonte. Portanto, é claro que sua poesia “amineirou-se”, embebeu-se da grande lírica dos maiores poetas mineiros, como Affonso Romano de Sant’Anna, por exemplo; e trocou versos, certamente, com os grandes poetas mineiros de sua geração, como Edimilson de Almeida Pereira, Fernando Fábio Fiorese, Iacyr Anderson Freitas, José Henrique da Cruz, Júlio Polidoro, Walter Sebastião, entre outros... Minas, esse celeiro poético! Portanto, Rogério Salgado, 27 anos de carreira literária, já é um nome construído nacionalmente, não só pelo vigor de sua poética, mas, também, pela luta a favor da ecologia e por uma sociedade mais justa para os brasileiros, que empreende desde 1982, com a fundação da Associação Cultural e Ecológica Lagoa do Nado.

            Em “Ainda Menino”, o poeta abre sem pudor o seu coração, mostra a sua alma, desnuda-se, e compartilha com seus leitores as suas perdas, mas nunca a desesperança. Seus versos fluem de maneira espontânea, sem grandes arroubos de falsas invencionices, sem grandes rebuscamentos técnicos, como que a afirmar que a maior forma é a do coração. Entrega-se aos seus sentimentos sem qualquer pejo ou melindres. E nos impregna de emoção, com sua poesia encharcada de beleza. É o próprio poeta quem nos diz: “Minha poesia se baseia, na maioria das vezes, nas minhas raízes”. A inocência dos poemas de Rogério tem garra, aperta o peito, sangra as nossas veias. E se canta a morte, tantas vezes (tema que nos faz refletir e fugir da realidade), não é com artificialismo barato – é com a técnica sutil do grande poeta que é :

 

“Meu irmão deitado com as mãos entrelaçadas

vestido com sua roupa de domingo

dormia o sono que não desejava.” (...)

 (“Poema Réquiem Para um Dia Qualquer de um Certo Janeiro”)

 

Rogério Salgado joga em todas, mas acredito que seja em sua poesia múltipla, lírica, lúcida e lúdica que ele se proteja do mundo e nos mostre a face iluminada de um homem-poeta, para sempre munido da arma de ser um eterno menino, pois como ele mesmo afirma, “apesar de toda a minha experiência e amadurecimento na vida e na poesia, ainda mantenho viva a criança que existe dentro de mim.” A poesia agradece.

 

Rio, 28 de setembro de 2002