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Poesia Reunida - Wilson Rocha |
Zé Mario Editor e Fundação Biblioteca Nacional - RJ |
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Em surdina, longe da cultura barulhenta do carnaval, a Biblioteca Nacional e Zé Mario editor lançaram “POESIA REUNIDA” de Wilson Rocha, mais de quinze anos depois do seu último livro de poesia A Forma do Silêncio, também poesia reunida até aquele ano. Poeta baiano nascido em Cochabanba (Bolívia) em 1921 que vive quase exilado na solidão de sua própria casa, no bairro do Rio vermelho, em Salvador, mas sem perder o entusiasmo pela cultura grega-romana e o bom humor, que faz lembrar um velho cego chamado Borges e sua ironia em afirmar que nunca precisou da realidade. O genial Duchamp também enfrentava a vida e a arte com o humor e o riso. Wilson Rocha é um caso à parte na poesia baiana, solitário, fora do tempo e do lugar. “Meu lugar é o mundo” disse certa vez o extravagante Oscar Wilde. E um poeta culto que imagina a poesia como uma investigação da razão, produto de muitas leituras, sem negar o sensível, não precisa de pátria, sua geografia é a antiguidade clássica. Uma poesia depurada, silenciosa construída com uma “perícia artesanal no lidar com a língua” (Ildásio Tavares) habitada por um certo sentido clássico. Ler os poemas de Wilson e contemplar as esculturas de mármore de um Sérgio Camargo, por exemplo, são experiências que alimentam a inteligência do leitor/espectador. “A Grécia fornece a Wilson Rocha referentes culturais, evocações e toda atmosfera que se resolve no plano da linguagem...” afirma João Carlos Teixeira Gomes no prefácio do livro. Um moderno clássico, com uma atualidade de dar inveja aos contemporâneos, ou um mágico que revela a beleza misteriosa resistente ao tempo e encanta mais ainda, quando canta a beleza feminina na sutileza de suas imagens. “Lá ao longe a casa na colina / lá havia manacás e avencas / e uma mulher assediada pelo vento, / uma mulher possuída / pelos próprios cabelos.” Ou na maneira de abordar com requinte e elegância temas tão banais como o natal: “Não sei que sinos distantes / o Natal ressuscita. / É a música tocando em nós / o sentimento que nos visita./...” Poucos são os que lêem
livros de poesia, sempre foi assim. O que assusta hoje, é uma espécie de
educação voltada para distração
em detrimento do que exige o trabalho do pensamento. No meio de tanto
entretenimento a poesia passa despercebida, foi relegada a um oficio inútil.
Uma obra poética pacientemente elaborada ainda não foi devidamente
divulgada, estudada e situada dentro da literatura brasileira. O que de
surpreendente essa poesia acrescenta a
nossa tradição moderna? (se podemos falar em tradição moderna). Um rico
objeto de estudo para uma tese de mestrado ou doutorado, mas as nossas
escolas de letras, (na Bahia em particular) com seus instrumentos teóricos e
metodológicos, ainda ignoram a qualidade e o rigor dessa poesia.
POESIA REUNIDA de Wilson Rocha é um livro
de suma importância para o meio literário brasileiro que este
apressado e impreciso comentário nem de longe sonha registrar.
Almandrade
(artista
plástico, arquiteto e poeta)
Poemas
de Wilson Rocha do livro POESIA REUNIDA
DA
MULHER
Comme l’arome d’une idée
Valéry
Longa
e clara cabeleira
no
flanco dos quadris,
chama
secreta ressurgindo
no
ritmo flexível do sexo.
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A
VOZ FEMININA
Nem
a escrita dos pássaros
nem
os clarins da eternidade
desafiam
assim o tempo,
a
frescura do azul
e
a doce transparência do cristal.
como
é branca e nua a voz
feminina.
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COMO
A ORQUÍDEA
As
formas da orquídea
Embriagam
os sentidos
E
atingem a plenitude.
Esplêndidas
reentrâncias
Na
doçura das pétalas,
Feminina,
de tão íntima.
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A
SAN JUAN DE LA CRUZ
Só
os amantes e os deuses
Conhecem
as forças cósmicas
Do
amor sem limites
E
da fé íntima dos grandes místicos.
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OS
DIAS ARDENTES
Como
a fértil harmonia da mulher
Ou
o inquietante aroma dos frutos
Acariciados
pela língua do vento
A
lucidez é uma imagem nua
Onde
tudo sonha
Onde
tudo evola-se
E
treme como água
A
escorrer sobre o umbigo.
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PALAVRAS
ALADAS
Palavras
aladas do amor –
Prazeres
e inquietações –
Como
a época de grandeza incalculável
Em
que dançávamos como Dionísio
E
sentíamos a misteriosa e profunda
Sexualidade
das mulheres de Safo
Que
entendiam o amor como eternidade.
Poesia
Reunida
Wilson Rocha
Zé
Mario Editor e Fundação Biblioteca Nacional
Rio
de Janeiro
270p.
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