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O ESCORPIÃO NA ALMA GRACILIANA

SILAS CORRÊA LEITE

O POETA DA PRECARIEDADE HUMANA(*)
 
   “Viver é crer no que se quer viver / É voar nas asas dos pássaros, sem sangrá-los!”. Há alguma coisa mais a dizer da vida, da literatura e da própria poesia, depois desses versos de “Viagem em torno de” (Editora 7 Letras, 2001, Rio de Janeiro), do poeta carioca Tanussi Cardoso?
   Nesse livro, o autor revisita os seus mortos queridos: “Estranhos / meus mortos abrem as janelas / penetram em meu quarto / e me sufocam”. Mas aborda o pesado tema da morte, esse verdadeiro pesadelo, com muita leveza, fazendo o retorno ao passado, ao “breu do sono”, sem remorso ou saudosismo - o que, numa sociedade tão marcada pela idéia do pecado, é uma verdadeira façanha. Façanha que Tanussi Cardoso conseguiu por dar ao esquecimento a mesma importância que confere à memória. “Não adianta correr atrás do verso. / Deixa-o escorrer pro esquecimento”. Em “Viagem em torno de”, há um constante exercício de ressurreição e sepultamento, como se o poeta quisesse a todo instante nos dizer que não há vida nem morte, mas sim passamentos. Pois tudo passa. “Passa e fica / O que move se enraíza / Só o que passa se fixa / Nuvem eterna na vida”...”e desmaio como uma noiva desmaia em maio / e me despeço numa carta nunca lida / carregando flores que enterro em chãos desertos / e não sinto dor horror ou agonia / e nunca digo nada porque nada sei e sempre digo tudo / porque sei / que vou / morrer”.
    A poesia de Tanussi Cardoso nos faz lembrar das lições de Marco Aurélio, o “imperador filósofo”, escritas há 2700 anos: “Consideres sempre instáveis e de pouco valor as coisas humanas. Ontem germe, hoje cadáver embalsamado ou cinzas. Portanto, viver segundo a natureza este breve momento da duração e acabar a vida com serenidade, como uma azeitona madura que caísse abençoando a terra que a nutriu e dando graças à árvore em cujos troncos se desenvolveu”... “Pensa na rapidez com que nasce, passa e some tudo o que existe. Tal qual o rio, a substância é um perpétuo fluir, a energia passa por contínuas transformações, as causas por milhares de vicissitudes. Quase nada é estável. Próximo está sempre o infinito insondável do passado e do futuro, onde tudo se esvai. Como se fosse durar algum tempo, em meio a tudo isso, não será insensato quem se orgulha, se aflige, se lamenta?”... “Constitui socorro simples, conquanto eficaz, para aprender o desprezo pela morte, lembrar-se dos que obstinadamente se agarraram à vida”... “Não te atormentes. Atrás de ti, rememora o enorme abismo da eternidade. Diante de ti, outra eternidade infinita. Entre elas, que diferença faz viver três dias ou três séculos?”... “Enfim, lembra-te sempre disto: breve, tu e ele estareis mortos e pouco depois nem vossos nomes subsistirão”... “Fazer, dizer, pensar tudo como alguém que pode de repente deixar a vida”... A leitura de “Viagem em torno de” também nos remete àquele provérbio de Publílio Siro, que nunca deveríamos esquecer: “Omnis dies ordinandus est velut ultimus” (Todo dia deve ser vivido como o último).
    Espírito antigo radicado temporariamente no Rio de Janeiro, Tanussi Cardoso conhece a precariedade de todas as coisas. “O mundo está morrendo / eu estou morrendo”. Seus versos “desinventados”, prenhes de vida e filosofia, não se podem reduzir pela análise formalista, meramente literária. Pois, em Tanussi Cardoso, os significados estão muito para lá das palavras. Muito para lá do próprio homem que as escreve: “Estou a um passo de algo que desconheço, mas intuo. / Estou a um passo da loucura. Ou da utopia. / Estou a um passo do que poderia ter sido: / eu diante de mim - cristaleira muda. / Estou aqui. Pedra fixa em um ponto qualquer. / Aprendendo o pássaro / - pés presos no salto; asas presas no vôo”... “Como um cego a flutuar no escuro. / A um passo da Morte. Ou a um passo de Deus”.
    Com apenas 78 páginas, “Viagem em torno de” é um grande livro de poesia, talvez o maior que nos últimos tempos apareceu em terras brasileiras. Poucos o conhecem, mas isso não importa. O que é belo, seja lá o que for, é belo em si mesmo e em si mesmo completo, não se lhe integrando o louvor. Admirado, um objeto não fica melhor nem pior. A essência da beleza de nada aprecia além da harmonia, além da verdade, além da bondade. Que coisa se torna bela quando gabada ou feia quando censurada? Perderá o valor uma esmeralda, caso não seja elogiada? E o ouro? E o marfim? E a púrpura? E a lira? E o punhal? E a flor? E a árvore?
    Num país como o Brasil, onde sucesso e vulgaridade quase sempre andam juntos, é possível que Tanussi Cardoso, um poeta magnífico, continue desconhecido do grande público. Também isso não tem importância. Afinal, o que é a fama?
    “A fama, ai de nós, é um ar que tanto vem como vai, é um cata-vento que tanto gira ao norte como ao sul, e tal como sucede passar uma pessoa do anonimato à celebridade sem perceber porquê, também não é raro que depois de ter andado a espanejar-se à calorosa aura pública acabe sem saber como se chama”, disse José Saramago, em “Todos os Nomes”.

(*)Nicodemos Sena escreve às quintas; é escritor e jornalista paraense radicado em São Paulo; autor de “A Espera do Nunca Mais”. E-mail: nicosena@iconet.com.br   
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