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a poesia romântica em edição bilíngüe

carlos  alberto pessoa rosa

(Português – francês)

Carlos Pessoa Rosa (1)

Em 2002, os leitores franceses de poesia são contemplados com a publicação da Anthologie de la Poésie Romantique Brésilienne. Em edição bilíngüe, Eulina Carvalho e Edições Unesco oferecem ao público uma amostra representativa dos poetas e poemas do romantismo brasileiro. Com prefácio de Alexei Bueno e apresentação de Didier Lamaison, o leitor é contextualizado historicamente e apresentado às particularidades do trabalho poético de cada autor.

Dentre tudo o que já se falou sobre o romantismo brasileiro, deve-se atentar para o modo sutil e particular com que a sensualidade infiltrou os 'suspiros poéticos' de um movimento que viveu a necessidade de se emancipar social, econômica e politicamente.

O fato de nossos poetas românticos elegerem a França como sua fonte de idéias, sentimentos e estilos, possibilita ao leitor francês uma comparação das obras ora publicadas com as dos poetas românticos franceses, permitindo assim uma observação não apenas das influências, mas também das particularidades tupiniquins. Logicamente, uma leitura comparativa exige, como nos sugere Bachelard, que o leitor a faça absorto em um devaneio de anima, pois é ‘anima quem sonha e canta’.

A inclinação de escrever um pouco sobre o sensual na poesia romântica brasileira é motivada pela intensidade com que essa característica se apresenta. Cores, cheiros, sensações tácteis e paladares cutucam nossa curiosidade, desafiam-nos a uma empreitada mais metódica do que a que ora lhes proponho.

No poema ‘Mocidade e Morte’, de Castro Alves, o viver envolve não apenas sentir o perfume, mas bebê-lo na flor silvestre — imagem invertida do seio —, perder-se na imensidão dos mares, para retornar ao espaço-tempo presente e descobrir que no seio da mulher há tanto aroma..., nos beijos há tanta vida... O autor utiliza-se das reticências como recurso para o leitor experimentar a mesma volúpia que assomou o poeta. E como é forte o silêncio proposto... Beber da memória, sentir o cheiro e o sabor das imagens. Depois do gozo, adormecer à sombra fresca da palmeira erguida. O que é a sombra que não um recurso noturno, soturno, de onde vem sombria voz a dizer da morte?

Morrer... quando este mundo é um paraíso,

E a alma um cisne de douradas plumas:

Não! O seio da amante é um lago virgem...

Quero boiar à tona das espumas.

Em ‘A Água e os Sonhos’, Bachelard assinala que o cisne ‘é um ersatz da mulher nua, a nudez permitida. Quem adora o cisne deseja a banhista.’ Atentemos para o fato de a alma do poeta, na poesia em questão, ser um cisne de plumas douradas, imagem mais masculina que o de plumas brancas. Segue-se, então, não a imagem da banhista, mas do seio dela transformado em um lago virgem onde o poeta será o primeiro a boiar, tocar de leve e, transformado em borboleta — consciência da leveza da essência —, aspergir o pó dourado. A ação é masculina. Em pleno deleite, novamente a voz a lhe assinalar a impossibilidade.

Mas para a volúpia não há limites e a imaginação voa para o futuro e repousa na carne:

O futuro... o futuro... no seu seio...

Parece que o poeta intui em poucas palavras e algumas reticências que a impossibilidade um dia deixará de existir. Mas também toma a consciência de que ele não estará presente para comprovar:

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,

Quando a sede e o desejo em nós palpita...

Encontramos nos românticos muitas imagens carregadas de simbolismo sexual. Em ‘Amor e Medo’ de Casimiro de Abreu, o fogo é o elemento utilizado com esse fim:

Quando eu te fujo e me desvio cauto

Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,

Contigo dizes, suspirando amores:

“— Meu Deus! Que gelo, que frieza aquela!”

Como te enganas! Meu amor é chama

Que se alimenta no voraz segredo.

E se te fujo é que te adoro louco...

És bela – eu moço; tens amor – eu medo”

Fricção foi o princípio para se obter o fogo. Assim obtido é resultado de uma união sexual. Quem vê a luz e sente o calor emanado do corpo sabe que a chama que vem de dentro é muito mais penetrante e destruidora:

...Soprando um dia tornaria incêndio

A chama viva que teu riso ateia.

Amedrontado com tamanha volúpia, resta ao poeta, diante do medo da destruição sem regeneração e o caráter demoníaco que o desejo da carne traz, o fingimento. Transmitir a frieza através da água, princípio antagônico, transformada em gelo, afastar-se do animal interior, mais por medo que por conhecimento:

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,

Por mais que o medo intelectualize o desejo, o animal continua presente e em masturbação. Imagina a fêmea nua e ausculta seu coração após o gozo, os braços frouxos, sinal de animal domado:

Ai! Se eu te visse no calor da sesta,

A mão tremente no calor das tuas,

Amarrotado o teu vestido branco

Soltos cabelos nas espáduas nuas!”

Ai! Se eu te visse, Madalena pura,

Sobre o veludo reclinada a meio,

Olhos cerrados na volúpia doce,

Os braços frouxos – palpitante o seio!...

Deixasse o fogo dominar teríamos um anjo enlodado e um vampiro infame, nunca dois humanos. E o acordar? Como seria o após, o despertar?

— Olhos pisados – como um vão lamento,

Traído, o poeta confessa seu segredo, o gelo esconde a paixão, a fricção é o desejo que o medo mata.

Recorrer a Castro Alves e a Casimiro de Abreu para falar da sensualidade dos poetas românticos tem seu motivo. É na segunda geração dos poetas românticos que o erotismo e o carnal tornam-se mais evidentes, são eles mais espontâneos, além de dominarem a estética de um modo mais apurado que os da primeira.

Os autores publicados na presente coletânea, por nós lidos desde os primeiros anos escolares, continuam nos surpreendendo pela riqueza de imagens produzidas.

Obra: Anthologie de la Poésie Romantique.

Edição: Eulina Carvalho e Éditions Unesco

Seleção: Izabel Patriota P. Carneiro

Prefácio: Alexei Bueno

Apresentação Didier Lamaison

Tradução: Adrienne Álvares de Azevedo Macedo (Álvares de Azevedo e Fagundes Varela), Didier Lamaison (Gonçalves Dias e Casimiro de Abreu) e Cécile Tricoire (Castro Alves).

 

Contato:
mailto: publishing-promotion@unesco.org
editions.eulina-carvalho@libertysurf.fr
website:
http://www.unesco.org/publishing

1 Médico-Escritor. Publicou A cor e a textura de uma folha de papel em branco, prêmio ficção nacional, contos, UBE/CEPE, PE; Destinos de Vidro, contos premiados, Ed. Meiotom; Mortalis: um ensaio sobre a morte, prêmio LivroAberto/Xerox.