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ROMANCE ANGÚSTIA - O ESCORPIÃO NA ALMA GRACILIANA

SILAS CORRÊA LEITE

PELAS RUAS DE ATIBAIA, EVOCANDO NOSSA GENTE

ZATOPEK



Crônicas históricas que nos levam à nossa querida Atibaia do antes de ontem.

Pelas Ruas de Atibaia, Evocando Nossa Gente é um livro de crônicas históricas, cujo lançamento deverá ocorrer na segunda quinzena de abril de 2002.

É um verdadeiro caso de amor com as ruas de Atibaia. Esta definição da literatura de Charles Bukowski, corresponde exatamente à relação de José de Anchieta Loriano, com a querida cidade de Atibaia, suas ruas e praças, sua gente, casarios e os tipos populares e inesquecíveis que, pelas ruas da cidade perambulavam nas décadas de quarenta e sessenta.

“A preocupação do autor é recordar pontos importantes da cidade, mas soprando-lhes vida, por intermédio das pessoas lembradas e descritas com leveza. A forma literária mantida pelo autor é coloquial, intimista, de estilo livre, capaz de transportar os leitores pelo tempo afora, abrindo passagem para o calor humano”.

Crônicas: Anchieta

Venda com o autor em www.atibaiamania.com.br

Quem não se lembra daquele personagem humilde, cerca de um metro e setenta de altura, mulato, cabelos sempre bem aparados, barba por fazer, extremamente calmo e educado, de fala mansa, que perambulava pelas ruas da cidade, conhecido por todos como Zatopek?

Surgiu em Atibaia por volta de 1955, não se sabe de onde, aqui aportando e convivendo em harmonia com todos, principalmente com os meninos da época.

Extremamente ordeiro, honesto e educado, era benquisto e aceito, principalmente pelos meninos, que sempre lhe dirigiam e também recebiam dele, uma palavra de carinho.

Tudo nele era calma, serenidade e paz. À época em que surgiu em Atibaia, todos nós meninos só ouvíamos falar no famoso Emil Zatopek, corredor fundista da antiga Thecolosváquia, considerado o homem mais veloz do mundo.

Havia ganho três medalhas de ouro nas Olimpíadas de 1952 realizadas em Helsinque, ocasião em que recebeu o apelido de “A Locomotiva Humana”.

Disputou e venceu várias Olimpíadas e, na famosa São Silvestre, ninguém o alcançava.

Os meninos, que a todos apelidavam, quando depararam com aquela figura mansa e vagarosa, não tiveram dúvida: ironicamente, o apelidaram de Zatopek.

Vagando pelas ruas, com um pequeno caldeirão e uma colher, envoltos em pano qualquer, carregando, ainda, um bom volume de jornais velhos, ia arquejando a cabeça e a espinha para cumprimentar as pessoas que encontrava, dizendo:

- “Bom dia, que Deus ajude e o senhor seje feliz!”.

De cumprimento em cumprimento, de agrado em agrado, ia levando sua vidinha de vagabundagem, pois, de trabalhar Zatopek não gostava.

Para livrar-se dele, e de servir-lhe o almoço, os garotos costumavam dizer:

- Zatopek! Enquanto a mãe faz o arroz, dê uma carpidinha no quintal, mostrando-lhe a enxada...

Pronto! Era o que bastava para livrar-se do Zatopek...

Era esta a única maneira de faze-lo correr:

Mostrar-lhe a enxada.

Uma das pessoas que mais brincava com o Zatopek era o não menos lendário João Cunha, funcionário municipal e marido de dona Conceição de Castro Neves, que morava na rua Tomé Franco, altura do número 345, em frente ao estimado e prestimoso Daniel Peçanha de Moraes, pai.

Com o Zatopek, entretanto, não levava muita vantagem.

- Zatopek! -Vou lhe dar comida, mas vai demorar...

-“Num tem pobrema”... - Meu lema é esperar, respondia Zatopek.

Zatopek sentava-se à porta de entrada da casa, estendia seu paninho no chão e ficava aguardando a refeição, que comia a regalar-se.

Como tudo que fazia, comia com aquela rapidez que lhe era peculiar:

Uma ou duas horas depois, devolvia o prato, com mil agradecimentos.

Zatopek não perdia, também, um velório sequer.

À época os velórios eram realizados nas próprias casas e a família do falecido costumava servir aos acompanhantes, café, bolinhos, biscoitos e às vezes até rolava alguma bebida, principalmente nas noites frias.

Zatopek era um dos primeiros a chegar e, habilmente, sentava-se sempre ao lado da porta por onde chegavam as iguarias.

Ali sentado e quieto, sem incomodar ninguém, parecendo às vezes estar rezando, permanecia até a saída do féretro.

Momentos depois, encostava-se a um membro da família e, respeitosamente, dizia:

- Aqui passei a noite inteirinha... Quero cobrá minha taxinha...

Acredito não gostasse, entretanto, ser chamado Zatopek.

Quando descobrimos isso, vivíamos atrás dele chamando-o pelo apelido.

Ele, com aquela voz mansa, baixinha e calma, com o dedo indicador em riste, respondia:

- Zatopek, não!... Joãozinho, ao seu dispor...!