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contogramas

flávio viegas amoreira

Contogramas

Carlos Alberto Pessoa Rosa [1]

Evandro Nascimento [2] refere-se ao fascínio de Derrida, diante da possibilidade dizer tudo, pela literatura. Ela nos permite ‘tudo dizer’, no sentido de esgotar um determinado assunto, ou ‘dizer tudo’ no sentido da liberdade de expressar o que se pense. Exaurir um determinado assunto é uma das características da modernidade, desde o iluminismo, através de suas narrativas filosóficas, jurídicas, científicas ou literárias, e que, atrelado ao processo de industrialização, levou-nos a uma especialização sem precedentes.

Nesse momento, em que os pilares que sustentaram a modernidade são abalados, em que se fala da “morte da literatura”, o que é certo, pelo menos no sentido de uma literatura do ‘tudo dizer’, o que estamos verificando é o surgimento de novos autores que, sincronizados com os tempos de incerteza e desesperança, procuram, através do ‘dizer tudo’, praticar uma estética literária que não esgota mas repensa o universo através de fragmentos retirados da realidade ou da ficção, cujo resultado é uma literatura não filosofante, mas ‘pensante’, como coloca Derrida, rompendo inclusive com as amordaças classificatórias como de gênero e propriedade.

Flávio Viegas Amoreira, em “Contogramas”, Ed. 7Letras, consegue esse intento, praticando uma literatura distante dos gêneros conhecidos e que o autor denomina de Contogramas. O que, à primeira leitura, pode nos levar à idéia de um livro de contos, descompromissado e leve, carrega um conteúdo pensante, caminha novas trilhas, distante do conto, da crônica e do ensaio tradicionais. Flávio já havia enviado ao Meio-Tom alguns textos experimentais, e que podem ser lidos no www.meiotom.art.br, mas seu livro brinda-nos com uma literatura no sentido maior, oferecendo, entre os de sua geração, um olhar mais sincronizado com a realidade ao redor.

Em “Desterrados e Viandantes”, o quinto contograma, o autor, através de um diálogo entre Prom e Bert, leva-nos a uma viagem pelos universos de Machado de Assis e Proust, passando por Burton, para, partindo do particular, sempre dentro de um fluxo livre de pensamento, analisar as personalidades criadoras, dos homens que vivem o mundo através de uma janela, ‘buscando no cérebro as longínquas nascentes do Nilo’, e dos que não vivem sem estar presente, ‘desbravando as profundezas do desconhecido rumorejante’.

Um trabalho de linguagem cuidadoso, procurando adormecimentos e novos brotamentos, em um não-tempo, espaço qualquer, assim é o novo livro de autor, que ninguém deveria deixar ler como um referencial daqueles que vivem o desassossego da necessidade de novos caminhos e que sabem que a literatura não morre, ela se refaz, infinitamente.

[1] Médico-escritor, publicou ‘A cor e a textura de uma folha de papel em branco”, prêmio UBE/CEPE, 98, Ed. CEPE, PE editor site www.meiotom.art.br.

[2] Derridá e a Literatura, As Origens do Nome Literatura, p. 274, Ed. EdUFF, RJ, 1999.