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Anayde Beiriz, em foto de 1924; o escritor e médico Marcus Aranha e a capa do livro a ser lançado amanhã

ANAYDE: UM LIVRO MUDA A HISTÓRIA

Escritor mostra que grande amor da poetisa
não foi João Dantas, mas o médico Heriberto Paiva

Transcrito do "Correio da Paraíba", edição de domingo, 13/2/2005

O impacto do livro “Anayde Beiriz - Panthera dos olhos dormentes”, que o médico e escritor Marcus Aranha, 63 anos, vai lançar amanhã não tem como cenário os fatos em torno da Revolução de 30, mas a paixão vivida pela professora e poetisa paraibana e o então estudante de Medicina, Heriberto Paiva, que se tornaria oficial da Marinha do Brasil.

Metade das páginas do livro de Marcus Aranha é ocupada pela transcrição de um documento precioso: o diário de Anayde Beiriz, por ela própria intitulado “Cartas do meu grande amor”, que foi retirado do ineditismo a partir de um pedido do autor de “Panthera dos olhos dormentes” aos familiares de Anayde, através de Ialmita Grisi Espínola Guedes e Martônio Coutinho Beiriz. Junto ao diário, para enriquecimento do livro foram entregues documentos e fotos que permaneciam de conhecimento exclusivo da família de Anayde desde a tumultuada década de 30 do século passado.

Quase todas as cartas do diário deixam explícitas que a grande paixão de Anayde não foi o advogado João Dantas, mas o médico paraibano, que foi morar no Rio de Janeiro, e a quem ela chamava de “Hery”. Já       o nome “Panthera dos olhos dormentes” era como amigos de Anayde já a chamavam antes dela conhecer Heriberto. Eles justificavam a designação porque diziam que, em seus contos, Anayde sempre colocava uma mancha de sangue e porque ela gostava de tudo que era vermelho. Tanto que, em carta, cujo teor completo está no livro de Marcus Aranha, Anayde revelou a Heriberto Paiva: “Crêem eles que eu sou trágica, que gosto desse amor que queima, dessa paixão que devora, dessa febre amorosa que mata...”.

Heriberto passou a chamá-la também de “pantera”, desde que ela lhe escreveu: “A pantera é bem humana, não é verdade, amor? Mansa, dócil, amorosa, em se tratando de ti; mas, para os outros. Eu queria poder esmagá-los, a todos... Contudo, gostei desse título de fera que eles me deram; escrevi um conto com esse nome e enviei-o para a ‘Tribuna do Pará’. Creio que brevemente será publicado”.

CONTESTAÇÃO

Marcus Aranha contesta o filme “Parahyba, mulher macho”, de Tizuka Yamasaki, lançado em 1983. Ele disse que “a tentativa de contar a história dela no cinema terminou em aviltamento, coisa não merecida”.

A patrocinadora de seu livro, através da Manufatura Editora, é a organização não governamental Parahyba Verdade, que, segundo ele, “começa a tentar desfazer a detratação mítica que fizeram com Anayde Beiriz”.

Aranha destaca que a autoria do livro “Anayde Beiriz - Panthera dos olhos dormentes” deve ser compreendida como trabalho de pesquisa, compilação e organização. Tanto que contou para isso até com dois autores de pesquisas no Rio de Janeiro, Walter Athayde de Barros Moreira e Marcos Antonio de Oliveira Araújo.

Para o autor, a leitura das cartas de Anayde e Heriberto podem ajudar a todos a uma conclusão de como era realmente a verdadeira personalidade da mulher, cujo centenário de nascimento comemora-se no próximo dia 18.

Exposição, amanhã

Confessando ser avesso a lançamentos “com solenidade, discursos e apresentações”, Marcus Aranha preferiu organizar a Exposição Iconográfica Anayde Beiriz, que será aberta ao público amanhã, às 09h00, no Sebo Cultural (Av. Tabajaras, Centro). O livro poderá ser adquirido no local da mostra, que, além de fotos inéditas de Anayde, tem objetos raros, como um telefone da década de 20 e uma vitrola de corda, ainda funcionando.

"Nós, mulheres, não temos meio termo no amor"

O trecho abaixo de uma das cartas de Anayde Beiriz a Heriberto Paiva é bastante revelador da personalidade ao mesmo tempo romântico e ousada da professora paraibana.
A carta é de 4 de julho de 1926.

“(...) O amor que não se sente capaz de um sacrifício não é amor; será, quando muito, desejo grosseiro, expressão bestial dos instintos, incontinência desvairada dos sentido, que morre com o objetivar-te, sem lograr atingir aquela atura onde a vida se torna um enlevo, um doce arrebatamento, a transfiguração estética da realidade... E eu não quero amar, não quero ser amada assim... Porque quando tudo estivesse findo, quando o desejo morresse, em nós só ficaria o tédio; nem a saudade faria reviver em nossos corações a lembrança dos dias findos, dos dias de volúpia de gozo efêmero, que na nossa febre de amor sensual tínhamos sonhado eternos.

Mas não me julgues por isto diferente das outras mulheres; há, em todas nós, o mesmo instinto, a mesma animalidade primitiva, desenfreada, numas, pela grosseria e desregramento dos apetites; contida, nobremente, em outras, pelas forças vitoriosas da inteligência, da vontade, superiormente dirigida pela delicadeza inata dos sentimento ou pelo poder selético e dignificador da cultura.

Não amamos num homem apenas a plástica ou o espírito: amamos o todo. Sim, meu Hery, nós, as mulheres, não temos meio termo no amor; não amamos as linhas, as formas, o espírito ou essa alguma coisa de indefinível que arrasta vocês, homens, para um ente cuja posse é para vocês um sonho ou raia às lides do impossível. Não, meu Hery, não é assim que as mulheres amam. Amam na plenitude do ser e nesse sentimento concentram, por vezes, todas as forças da sua individualidade física ou moral.

É pois assim que eu te amo, querido; e porque te amo, sinto-me capaz de esperar e de pedir-te que sejas paciente. O tempo passa lento, mas passa...

...E porque ele passa, e porque a noite já vai alta, é-me preciso terminar.

Adeus. Beija-te longamente, Anayde”