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ENTREVISTA COM PAULO ROSENBAUM |
rodrigo de souza leão |
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Balacobaco
ano VI - número 71 - Rio de Janeiro, 22 de junho 2003. ENTREVISTA
COM PAULO ROSENBAUM por
Rodrigo de Souza Leão Paulo
Rosenbaum, poeta paulista, publicou “Impreciso
Emigrar” em 1979 (Massao Ohno) com ilustrações do autor, com
colaboração de Luis Dolhnikoff. Depois, durante o curso de
filosofia participa de recitais e de uma coletânea de poesias da
PUC-Sp (1981). Cursa
medicina (1981 a 1986) e se especializa em homeopatia, área na qual publica
vários livros. Mestre e doutorando pela Faculdade de Medicina da Usp
participou como articulista em várias publicações (Folha de São Paulo
e Jornal da Tarde) onde expõe suas idéias.
Apesar
de não ter publicado mais poesias nunca parou de escreve-las. Encontra-se
em fase final de elaboração uma coletânea de poemas de suas várias fases
que levará o nome de Naufragata.-Diáforas
Continentais 1.Por
que tanto tempo parado desde “Impreciso Emigrar”, de 1979? Na
verdade, não há explicação alguma. Cabe no entanto uma correção à própria
pergunta. Nunca estive parado. Sou apenas desconhecido neste meio. Nunca
participei de concursos, nunca tive referencias na poesia brasileira e
portanto não busquei apadrinhamentos, apesar de hoje reconhecer
retrospectivamente o estímulo de Cláudio Willer para publicar Impreciso
Emigrar. Mais recentemente, com os comentários incentivadores de Ivan
Teixeira. O problema, e talvez isto suscite controvérsias, é que não acho
que a poesia seja uma carreira. Pelo menos não para mim. O escritor lato
sensu pode ser uma profissão. Mas
a poesia entra numa espécie de domínio público no qual a especialidade
gera mais limite do que aperfeiçoamento. Portanto o que cabe é constatar
que estive, isto sim, longe de um meio nada homogêneo. E exatamente esta
característica híbrida e dispersiva do meio poético desestimula qualquer
militância pública. É verdade que em certo momento fizemos um esforço
para aproximar grupos de poesia na década de 80, em recitais e encontros,
mas não desenvolvíamos, naquele momento, identidade suficientemente forte
com qualquer gênero de escola poética. Ou seja, a poesia, normalmente ofício
solitário, induzia mesmo a um grau de misantropia não sanável. Some-se a
isto um certo desengajamento da poesia política militante e ficará claro
que não havia mesmo muito espaço para promover aquele tipo de retórica poética.
Até hoje é difícil dizer a qual gênero pertencia. Alguns a chamavam de
surrealista. Mas me ocorre pensar que de fato se tratava de uma poesia ainda
inominada. Não era a concretista, nem as experiências pós-modernistas,
tendências em voga na época. Alguém chegou a sugerir que uma “novíssima
poesia” estaria eclodindo. Não sei se era mesmo. E se era ainda não se
firmou como tal. Mas ficou pelo menos o gosto de sacudir, com perspectivas
criativas e ousadas, a convicção hermética da mesmice. Que é uma espécie
de caretice disfarçada de um
formalismo sem sentido algum. Confesso que foi um tanto frustrante já que não
houveram desdobramentos significativos os quais normalmente qualquer autor,
sob a previsível ingenuidade, espera perceber. Destarte, a tentativa de
buscar experiências na linguagem escrita favorecia a busca do novo, aliás
este o autêntico espírito da pesquisa. Da recusa amotinada à eterna
repetição. Eu não poderia ter escapado disto. Não queríamos ou esperávamos
ratificação, só perceber até onde e
com quanta liberdade poder-se-ia experimentar.
2.Como
era o ambiente poético da puc na década de 80? Eu
cursava filosofia e o ambiente caracterizava-se pela bizarra multiplicidade
de idéias emergentes, frutos diretos de uma fase de liberação intelectual
logo após o declínio relativamente recente da ditadura militar. Havia uma
certa euforia. Mas era um ambiente um tanto patrulhado. A poesia,
argumentavam muitos e isto se estendia à Usp e outros centros universitários,
devia ser dirigida (assunto aliás tema nada anacrônico no Brasil de hoje),
mostrar os espaços de cultura militante dos exilados, torturados, ter uma
conotação prioritariamente social. etc. Minha perspectiva era “refusinik”,
ou seja era outra e apesar de uma ou outra de minhas poesias ainda conservar
um matiz de cunho ideológico (uma delas “O terror do opressor”) ela era
muito mais influenciada pela escrita automática de André Breton, os
denominados poetas malditos franceses, o fluxo
de Mallarmé, a mística alusiva de William Blake ou a poesia extraída
da filosofia natural do que pelo materialismo ideológico ou qualquer
engajamento poético-partidário. Dizia sonoramente não à poesia sindical
que aquela altura reemergia. Num episódio lamentavelmente chocante (e que
naquela altura foi a deixa para o abandono de qualquer sonho de militância)
durante leitura coletiva de poemas de autores paulistas na antiga livraria
Kairós, um dos poetas “engajados”, afirmava que somente quem tinha sido
torturado podia legitimamente opinar sobre os rumos da poesia contemporânea.
Inútil tentar descrever a densidade do tédio e a miserabilidade psíquica
que rondava este tipo de ambiente, com exposição pública de índices de
tortura para definir aqueles mais “aptos” e idôneos para exercer a
poesia. Mas era um pouco o clima geral da época. Por outro lado, havia
mesmo aquelas “escolas” já definidas com seus séquitos de adeptos
incondicionais como os concretistas, os pós-modernistas, os tropicalistas,
os beatniks. De forma geral, eles se articulavam bem dentro das
universidades ou em ambientes pré-selecionados e seguros.
Na PUC isto se repetia e duas saídas ficavam evidentes: ou a
marginalidade ou o engajamento. E este último podia ser do gênero in-doors
dentro dos nichos específicos ou em torturantes sessões de acting
out como a acima mencionada. 3.O
que a medicina tem de poético? Grosso
modo, nada. No entanto ao exame atento persiste, para além das cintilações
passageiras, um viés poético na arte médica. A poesia permite dar sentido
às vicissitudes e alegrias dos sujeitos durante um tratamento. Minha opção
original, depois de cursar e abandonar a filosofia, era pela psiquiatria. No
meio do caminho, gratíssima surpresa, descobri a
homeopatia (que inicialmente rejeitara sem conhece-la), arte médica
que tinha como leit motiv
devolver ao sujeito seu papel no acompanhamento médico. Apesar da tecno-ciência
e seus adeptos incondicionais ainda não terem compreendido adequadamente a
medicina não é uma ciência. É, segundo epistemólogos e historiadores da
ciência como George Canguilhem e Karl Rotschuld “arte operativa”. A
arte médica é ofício semi-artesanal, no qual o médico aplica uma ou várias
técnicas científicas (como, por exemplo, a anatomia, a biologia, a
farmacologia). Claro
que a potência da dimensão poética da medicina foi obnubilada pela adesão
quase acrítica à fé tecnológica.
Mesmo assim há uma enorme tradição humanista que em meio aos avanços da
tecnociência, heroicamente sobrevive na medicina. Trata-se da herança da
antiga escola médica grega de Cós que colocava observação da natureza (a
physis) e o saber antropológico como dimensões essenciais da terapêutica.
A homeopatia, uma medicina montada por Samuel Hahnemann na transição dos séculos
XVIII-XIX, influenciada pelo romantismo e pelas filosofias de Goethe e
Rosseau, recolocava o problema da singularidade do sujeito como uma questão
básica, central para a boa prática da medicina. Nasceu dentro do movimento
literário romântico fazendo renascer o vitalismo como iatrofilosofia
(filosofia médica). Movimentos que surgem exatamente como contrapontos ao
racionalismo do iluminismo francês e à redução mecanicista. São temas
que recentemente readquiram atualidade nas ciências da vida. Vêm
reocupando espaço nos mais sóbrios espaços acadêmicos temas como a
re-subjetivação dos sintomas, a identidade do fenômeno vital, a importância
atribuída à vida psíquica das pessoas como parte integrante e operante de
qualquer movimento de intervenção clínica. A medicina é profunda
devedora destes movimentos. Enquanto a poesia em medicina é exatamente um
reduto da sublevação tanto contra a hegemonia do método como se opondo à
tecno-ciência aplicada na política biomédica das evidências. Se a
homeopatia é uma espécie de superego auxiliar da biomedicina a poesia
permeia qualquer perspectiva que conserve a frase de Pope “o estudo
apropriado ao homem é o homem”. Motim
levado adiante a fim de resgatar uma “medicina baseada em narrativas”
como pensa David Castiel, que busca trazer o sofrimento humano, a angústia
existencial e o “estar aí” (das
sein) para o centro do processo saúde-enfermidade. Neste sentido o
vitalismo, um movimento filosófico científico nascido na escola de Hipócrates,
resiste dentro da medicina apontando para uma retórica não mecanicista e
anti-reducionista. Nele, sintomas não tem valor peremptório e unívoco. O
foco recai menos na patologia e muito mais na peculiar relação que o
sujeito desenvolve com sua doença. Ali, como defendia o pai da filosofia
continental Immanuel Kant, cada homem tem um modo peculiar de estar são e
de adoecer. Se a poesia é uma forma de conhecer o mundo e de estar nele, a
medicina, pelo menos em sua versão não mecanicista, dialoga com ela de
forma muito intensa e bela. Enfim uma nova ciência produz sua versão de
poesia, ainda que engessada pela eterna divisão das disciplinas.
Pode ser que haja também uma espécie de poética vitalista que se
oponha ao mecanicismo dos poemas.
4.Você
tem vários livros publicados na área de medicina. Dá para um médico ser
bom poeta? Acho
que sim. Mas aqui há uma provocação adicional muito interessante. Quem
pode ser bom poeta? Leitores assíduos de poesia? Os egressos da graduação
de letras? Poliglotas filólogos? E quanto aos concursos: revelam talentos
ou discriminam? Os inspirados ou a ourivesaria meticulosa? Afinal, o que boa
poesia? São
dilemas superficiais já que, apesar dos tratados, não há validação
intersubjetiva que possa definir o que é de fato “boa poesia”. Como
disse acima não acredito em carreira poética. Como não há
“bom-gosto”, o que há é criação. Havendo criatividade o processo icônico
do poeta pode fluir. Sem ele, geralmente se cai na imensa vala comum que são
descrições mais ou menos refinadas, mais ou menos eruditas,
da comédia social e de costumes. Na minha opinião caricaturas
toscas (e desinteressantes) do cotidiano. Há também o outro lado: o
panfletário, o verborrágico onde prevalece um o axioma de Feyrabend
“qualquer coisa serve”. James Joyce prenunciava o imbróglio dizendo que
a mediocridade produtiva acabava levando o autor a se contaminar com os
aplausos de seus idólatras e felicitar-se por seus enganos bem estudados.
Sua percepção, mais que pertinente, adquire matiz oracular. Talvez este
seja um índice para aferir o que é “boa poesia” interessante: a permanência.
É o que o também filósofo da ciência e poeta Gaston Bachelard chamava de
epistemologia histórica: a sobrevivência atestava uma destas duas
possibilidades: ou uma certa qualidade ou muito interesse em prosseguir
investigando aquele tema. Não é pouco importante o fato de que a genial
poesia bíblica tenha sobrevivido enquanto o interesse pelos beatniks
é francamente decadente. O que se pode fazer se a poesia medieval
desperte mais interesse do que poesia contemporânea? Ou que Sthephen Crane
possua um refinamento que não
enxerguei em nenhum dos poetas publicados? Na poesia brasileira, Jorge de
Lima sempre foi para mim referência
imprescindível. O que quero dizer enfim é que não se predizer quem
sobreviverá e que o momentâneo – como sempre -- é literalmente
insuficiente para quaisquer diagnósticos. Inútil
negar que não ser lido deprime, mas estar na moda tampouco é garantia de
coisa alguma. Desde que escrevam algo, não importa o que, funcionários de
cargos públicos midiáticos, locutores de teve e artistas e cantores
performáticos podem se transformar em ícones poéticos de forma meteórica.
Assim como é provável que um excepcional poeta do Acre jamais será lido.
Cinema, música e teatro têm incentivos econômicos e fiscais bilionários,
além de privilégios injustos e inexplicáveis, enquanto a poesia nenhum.
Ou quase nenhum. São disparidades que nos levam a compreender a cronicidade
das distorções, da falta de uma política de efetiva igualdade de
oportunidades para as artes. O incentivo à leitura da poesia poderia ser um
caminho mais curto para erradicar o preconceito contra uma das formas mais
interessantes de conhecimento disponíveis. No entanto, deve-se
entender e tematizar os preconceitos. Neste caso, pode ser que a
poesia seja a antítese absoluta da marcha do progresso e do consumo. E
exatamente por isto ela esteja sendo reaquecida como manifestação literária.
Quanto
aos estilos preferidos, mesmo em ciência o que se espera hoje é uma franca
pluralidade de métodos. Filósofos da escola de Frankfurt como Adorno e
Horkheimer mostraram na dialética do esclarecimento, através da metáfora
da privação sensorial de Ulisses, como o método retira de cena inúmeros
aspectos do humano. A autolimitação do método entre em cena sempre quando
se quer analisar qualquer coisa do ponto de vista da hermenêutica filosófica.
Há portanto leitores e hermeneutas para todos os matizes e
manifestações poéticas. Exemplo clássico mas eficaz: Lautreamont
e Rimbaud praticamente ignorados em seus tempos tornaram-se mundialmente cults
na contracultura. É
um tremendo equivoco imaginar que uma profissão pode ser decisiva na
facilidade ou dificuldade para a atividade de escritor, seja ele um poeta ou
não. Um mergulhador pode registrar e narrar melhor sua captura sensorial do
que um catedrático, um biólogo interpretar melhor uma prosa do que um filósofo
e um psicólogo ter uma performance
escrita superior a de um jornalista. As profissões – e a história por
vezes mostrou isto -- nada definem a priori na consistência literária poética.
Em meu caso, eu já escrevia intensamente muito antes de ser médico e isto
me acompanha de forma um tanto obsedante. Talentoso ou não, meticuloso ou
displicente, paciente ou impulsivo, aquele que escreve está quase condenado
a isto. O Talmud (a tradição bíblica oral do judaísmo) afirma que quem
tem potencial para escrever um livro e não o faz pode ser comparado a um
assassino, uma vez que suprime antecipadamente o que está potencialmente
destinado a nascer. Acho que isto responde em parte a
sua questão. A outra coisa interessante é como a
poesia me ajudou e ajuda a articular melhor as minhas ações como médico.
E vice-versa. A busca de interlocução ao se produzir uma ação através
do “belo discurso” (épode) é sempre uma possibilidade durante uma
anamnese. Sempre há um autor que nos impulsiona em determinados temas
preferências. No meu caso o livro do historiador de medicina Lain Entralgo
“A cura pela palavra na Antigüidade clássica” mostrava que poesia e
discurso são tão vitais para uma compreensão mais acurada da atividade médica
do que saber prognosticar e identificar patologias. Dediquei-me a
compreender, com certo grau de especialização, este aspecto quase ignoto
da arte médica que, na verdade, começou com Parmênides. Por outro lado, o
aspecto operativo disto na homeopatia é quase perfeito. Na perspectiva
homeopática a correta compreensão de um paciente e com isto a decisão
terapêutica, depende antes de uma correta apreciação da linguagem. Ou
seja, permite uma filologia aplicada diretamente à clínica. A digressão válida
aqui é que Miguel de Unamuno afirmava que toda filosofia, é, no fundo,
filologia. Como os medicamentos homeopáticos são experimentados pelo homem
e além do registro dos distúrbios e sinais clínicos provocados, apura os
sintomas subjetivos as sensações, os dramas pessoais, as expressões
intersubjetivas, pode-se imaginar a riqueza de detalhes surpreendentes nas
sensações coletadas. Impressionam a mente de qualquer clínico
observador. Leitura e vivência poética como poeta podem ser
ferramentas importantes na análise das palavras e da linguagem
tematizada em qualquer área da medicina. Outro aspecto interessante é que
a medicina clínica usa o paradigma indiciário ou semiótico para
descobrir, através do aparentemente desimportante, o essencial de cada
caso. Como nos conta o historiador Carlo Guinsburg, Freud e Conan Doyle
entre outros beberam desta fonte. Fundou-se uma hermenêutica que dentre
outros frutos nos trouxe a psicanálise, a pisocrítica de Charles Maurron,
e a própria homeopatia entre outros.
5.Como
é ser ter escrito para os
jornais? Não
sou jornalista, fui apenas um esporádico produtor de artigos. Especialmente
nos anos 90 com matérias especiais no Jornal da Tarde e uma série de
publicações ligadas a iatrofilosofia (filosofia da medicina) e
antropologia médica na Folha. Por outro lado os embates com a biomedicina
tornaram-se cada vez mais anacrônicos, ainda que tenham sobrado muitas e
boas polêmicas. Contudo é inegável que o treino e o hábito de escrever
matérias para a mídia jornalística facilita a atividade acadêmica, já
na poesia não tenho tanta certeza. Vale dizer, nenhuma certeza! 6.O
que é naufragata? A
nau (etiml. do Greg. Naûs navio e do Lat. Navis, navegar) é o navio de
casco e velame redondos. Já fragata (do It. Tardio do sec. XVI fregate) uma
espécie de belonave. (do Lat. Belli, guerra, combate). Uma embarcação, a
metáfora da nau em movimento irregular perseguindo a epopéia bélica da
fragata. O naufrágio é, claro, iminente. Uma balsa oceânica que invade
habitats, marítimos, lacustres e terrestres. O embate anunciado, mas
imprevisível, contra inimigos inominados. Como possível náufrago, o poeta
não faz travessia alguma. Não há mapas e o trajeto foi abstraído de suas
intenções. Restaram apenas elaborações
de novíssimas tessituras, algumas bem primitivas como jangadas de juncos,
outras mais elaboradas como pontes suspensas pelo vapor das
superficialidades. Navegar nunca foi preciso, o embate criativo sim. Como não
há qualquer escolha uma naufragata é, antes de mais nada, tudo, além
de um bom título. 7.Para
que serve a poesia? Não
sei exatamente. Para que serve um martelo? Do ponto de vista do conhecimento
objetivo o mundo sensível serve para nos dar instrumentos para explora-lo.
Vejo a poesia como uma razão instrumental com múltiplas potencialidades: 1-
A
poesia gera uma gestalt oportuna
pode iluminar pela forma. Tornar-se um pólo de referencia para a tradição
humana. Certa vez conversando com o cineasta Werner Herzog, propus que a
tendência absoluta fosse recolocar
a imagem como a formulação mais efetiva da afirmação poética, no cinema
e na poesia escrita. 2-
Mas
aí teríamos o problema da ética: ou seja a poesia é útil? Ela deve ser
pedagógica? Talvez sim. Ela torna possível que outros fundam horizontes na
passagens de linguagens que são compartilháveis. A poesia cumpre assim
mais uma função involuntária. Ela examina o mundo inspeciona-o como um
corte n’água: não a fere de verdade, não a modifica, apenas a examina
para descarregar suas impressões dissipáveis. 3- Mas
como é que ela ainda subsiste nas livrarias se está soterrada entre os
manuais de auto-ajuda, holismos pseudo-compreensivos, magias ilícitas,
fundamentalismos intolerantes, cds. sem melodia? Trata-se da própria
natureza do milagre. Uma forma de conhecer e de estar no mundo como a poesia
deveria ter sido erradicada há muito tempo. No entanto sobreviveu. É
realmente espantoso. 4-
O que acontece é que quanto mais superficial é a natureza programática
de uma sociedade (o que creio, é mais do que evidente), quanto mais ela
esta absorvida na auto-referência de suas ilusões e necessidades criadas
mais ela gera necessidade de estimular exílios voluntários. Isto foi
imediatamente detectado pelos assim denominados “novos filósofos
franceses” como André Glucksmann. 5-
Trata-se de retiros em ilhas circunscritas, nichos seguros
cuidadosamente selecionados. A urbanidade e as mazelas da polis asseguraram
que o interesse pela poesia sobreviva precisamente ai. No protegido
anonimato. No imaginário iconográfico da memória das pessoas. E então,
quanto mais evocativo e profunda forem as imagens criadas e destruídas,
casadas ou não com a sonoridade construída, mais a poesia alcança
inconscientes ávidos de experiências alheias. Limiares subliminares
compartilháveis. Experiências subjetivas divisíveis entre pessoas. Isto
se propaga e transita entre mentes de uma forma um tanto eficaz, ainda que
incompreensível. Quanto mais densa for a diversificação dos interesses e
quanto menor for a campanha de aculturamento sistemático dos rádios e das
redes de televisão, mais amplas poderão ser as possibilidades de poesias
diagnosticadas como “invendáveis”, “elitistas”, “difíceis”,
“intimistas” ou simplesmente “herméticas”, serem progressivamente
mais apreciadas. O que quero dizer com isto é que a ressonância cultural
de uma obra (e com isto seu impacto e sucesso comercial) é uma construção.
Não há mercado dado, espontâneo. Óbvio, mas ainda assim inspira
ceticismos estudados. O que sempre incomodou escritores de qualidade foi a
repercussão comercial e marketológica extraordinária de formulações
simples, pseudônimos rotineiros e escritores fantasmas que assinam sucessos
produzidos. Isto quando o texto não é francamente grosseiro. E veja bem
que nem estou computando a poesia, que até bem pouco tempo era considerada
um “mico” absoluto pelos editores nacionais. (vide as várias
entrevistas) 8.Como
se insere na poesia atual? Não
creio que me possa me considerar inserido na poesia atual. Prefiro pensar
que posso vir a me inserir numa poética futura que têm como garantia uma
matriz histórica da fusão de muitos estilos. Lancei-me na tarefa de
executar a linguagem possível. Busco fazer com a língua um trabalho de
construção (e conseqüentemente
desconstrução) imagética sistemática. Sonhos e tradição, desejos e símbolos,
re-significações sensoriais e percepções corporais traduzem a inquietude
vital, motivações existenciais e metafísicas do velho homem contemporâneo.
Uso as metáforas obsedantes – assim denominadas por Charles Mauron --
para poder enfrentar os ambientes e recriá-los.
Recuso
o julgamento de méritos mas registro aqui também a pretensão imodesta e
desmesurada nos poetas que alcançaram status de reconhecidos, ainda que o
estatuto deste reconhecimento esteja restrito a tribos muito circunscritas.
Esta delimitação ocorre com exceção dos que há muito foram eleitos ícones
perpétuos em vários nichos. (como por exemplo Bandeira, Drummond, João
Cabral, os irmãos Campos). Alguns
ousaram declarar que deram finalmente o acabamento que faltava a poesia no
Brasil – risus teniatis -- outros que perfilaram um panorama em que tudo
parece coerente e linear, acreditando numa evolução “natural” do
poema, produzindo uma versão quase involuntária
e pífia de darwnismo literário. Ora, nada menos provável. Os poetas
modernos não são e nunca serão insuperáveis. Como afirmava Roberto
Machado nem sempre uma anterioridade cronológica é uma inferioridade lógica.
Traçando uma analogia vejo mais “evolução” no idioma poético
naqueles que não se renderam às efemérides das demandas do que nos midiáticos.
Aqueles, alguns ao menos, daqui há muito serão relembrados. E
provavelmente nunca tocarão nas rádios ou declamarão nas bienais. Já nem
todos os imortais da ABL ou laureados terão a mesma sorte. Não é torcer
contra, mas compreender historicamente o movimento. Como não sou e não
desejo ser um teórico da poesia arrisco-me apenas a dizer que não sinto
que tenhamos chegado a acabamento algum e o que está acontecendo é a
redescoberta (o que acho extremamente interessante) de um outro valor para a
poesia. Este novo significado pode abrir espaço tanto para o poeta oculto
no Acre ao qual aludíamos acima, assim como produzir uma espécie de
levante nos escravos da crítica literária que seguem receitas assim como gourmets
viciados acatam servilmente indicações dos chefs.
Mas ainda há muito barulho para ser feito e que os poetas atraiam sobre si
o luminosidade que lhes é devida.
9.Tem
algum mote? Mote
não. Mas há um trecho da famosa carta de Rimbaud a Paul Demeny (antes dele
abandonar a poesia e se transformar em traficante de armas na Abissínia)
que acho curiosa: “E ainda que terminasse por perder a
inteligência de suas visões teria no entanto chegado a vê-las”.
A idéia do poeta como uma espécie de visionário que monologa, criando
contra-ambientes prometendo um “longo e sistemático desregramento dos
sentidos” é para mim prazerosa. Como um dado interessante o recentíssimo
e polêmico leilão dos manuscritos inéditos de André Breton bateu todos
os recordes de interesse em poesia na França nas últimas décadas. Talvez
isto indiretamente reflita e antecipe um pouco da tendência a valorizar
certo tipo de manifestação poética. Espero que, desta vez, ao menos desta
vez, o mercado tenha razão. 10.Qual
o papel do escritor na sociedade? O
registro histórico é um primeiro papel óbvio. Mas muito mais do que isto
o escritor é um indexador das perplexidades. Como intelectual, aquele que
escreve, obrigatoriamente penetra criticamente na realidade. Como artista
deve recriar jogos dando conotação lúdica à seriedade pedante.
Como poeta o escritor, assim como o filósofo, acaba invertendo a direção
habitual do trabalho do pensamento. Parte de abstrações, de redes de sua
epistemologia genética para tecer enredos dentro de ilhas aparentemente
impermeáveis. Geralmente
são arquipélagos de idiossincrasias, agendas temáticas de origem obscura.
Intuição e imaginação coexistem sob pressão. Tudo para que quem lê
possa debruçar-se sobre cenários e idéias sem molduras. Para que o que se
move possa atravessar a insula. Devem ser arquiteturas ágeis e deslocáveis.
Neste sentido, dentre aqueles que escrevem, o poeta é dos mais artesanais.
O escritor, sendo uma espécie de testemunha independente retraduz (ou pensa
que retraduz) o panorama que sintetiza. São instantâneos perfeitos. Os que
dialogaram mais serão os mais profícuos. O escritor não deveria se render
à idéia de poesia como
produto. Deve resistir, e não pelo purismo. Muito mais porque os poemas são
idéias que se auto-realizam como fatos. Poemas são notícias. Ações
comunicativas subliminares. Neste sentido, e compreensivelmente, os muito
analíticos terão sempre uma inveterada dificuldade para aprecia-las. Análise
poética é assunto para além da controvérsia. A lógica em poesia é
assunto perigoso, porque aqui, se seguirmos a radical compreensão aristotélica,
estaríamos diante de um pensamento que, por definição, não admite
contradição. Como sabemos a poesia pode prescindir desta análise, já que
os contrapontos são inerentes à ação poética, enquanto dentro de um
tratado de lógica, não. A
relação da poesia com a ciência (a tekhné) é outra digressão
interessante. Desde que a matematização do mundo operacionalizou e deu feições
claras e distintas à revolução científica moderna, a racionalização
emancipou o homem do dogmatismo. Ao mesmo tempo reduziu as impressões ao
demonstrável pelas ciências duras. Apesar da resistência a poesia ficou
ainda refém da aura do positivismo aplicado. Foi preciso mais do que crises
violentas, guerras e finalmente a ruína do dirigismo cultural, maquiado de
slogans de justiça social, para que a liberdade de criar fosse apenas
rudimentarmente restabelecida. A reação foi parcial, e ainda estamos
apenas recomeçando a cantar sem medo de que alguém nos ouça. O ruído está
aí, baixo mas persistente: escutem!
A
cada passo um peso a menos O
centro como telos dos começos. O
raio como figura matemática de perímetros seculares. A
imagem grafada como antítese. O
torpor exaustivo contra a vigília. A
imagem de Dédalo inofensivo assombrado
pela inércia crônica. Legiões
de fiéis sob vertigens. Temas
de passagens aguerridas que
assombram a história com fetiches e repetições. Reedições
de estéticas saturadas. Lâmina
de gravuras nunca (jamais) expostas. Nenhuma
imagem de centros respiratórios como pulmões, mas
guelras ansiosas. Pulsos
que
simulam assistolias breves. Radiações
selvagens saturadas pelo carbono eterno. Matéria
como reduto do único selo. Solarium
de circunstâncias aquecidas
por aquedutos régios. Hidrogênio
abundante. Raios
de quarks. Cascata
de fissões Explosões
minúsculas. Máculas
fásicas. A
cada passo, um peso a menos. Para
cada sopro, o pináculo dos ventos. Deduções
proféticas sobre possibilidades
cromáticas. Átrios
impenetráveis. Reino
de palavras empilhadas até
o topo. E
a cada pequeno fragmento depositado aproximava-nos da matriz de espelhos
refratários, de
solos amarelados pelo rádio, de
pisos de mármores em combustão perpétua, de
livros encadernados por Adão. Medida
de todas as coisas
A
cada passo súbito acesso aos sinais Pássaros
fátuos Fósforos
hialinos longe do alcance enquanto
praias fervilham, cansadas
de serem pisadas ficamos
confinados inacreditável
exílio À
tona, o maremoto superficial remove
o que emerge, drena
sais da rede Mas
não toca no delírio hostil dos transeuntes, Não
transige nas mortificações articuladas dos renegados, fixados
no
recato das normas --
Às condições, apeguem-se Como
aqueles que sabem que, sem
escolha, não
há condição alguma, Apenas
decreto, destinado
aos que habitam, dúvida
não respondida sobre
a saciabilidade do mundo, Dos
que vegetam como sombras sem reconhecimento, perfis
apagados em contrastes inexistentes, mais
um alimento da metáfora atordoante Vigiam
à espreita Os
que vivem alegando sensatez. Os
que negam suspirando clemência, Os
que se adaptam jurando evolução Não,
nada
perfizera nosso texto como as tais imagens acabadas, Sejam
telas apropriadas, conexões
notáveis, repentes épicos Mas
sim, desvio arrítmico das atmosferas, sobrevoando
pátios desertos, como
escala musical de olhos recém nascidos Atentos,
agora sim, a passagem dos cronômetros e instrumentos Querendo
medir todas as coisas, Continentalizando
ventos, antes insulares, Apagando,
no trajeto, vestígios
de tufões tropicais Enquanto
isto, bocejavam
sob o sono triunfal da
ausência de todas as coisas sob
a mirada da presença-funil dos sons críticos, cativos
da gravidade que
agora, e finalmente Decoram
o espaço com cenas inacabadas.
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