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UMA VIDA LITERÁRIA!

JOÃO RICARDO LOPES

          

            Condizente com a beleza e sobriedade da capa é o conteúdo da obra poética «25 anos de palavras» de Artur Ferreira Coimbra, trabalho editado recentemente pela Labirinto e a apresentar em Fafe, quinta-feira, dia 9 de Outubro.

            A homenagem ao nosso poeta e amigo passa necessariamente pela leitura dos seus poemas, aquela que é e será sempre a nossa mais justa e luminosa obrigação para com os escritores, poemas escritos ao longo do último quarto de século e que são bem a prova do amadurecimento estético do autor e da pluralidade dos temas e formas por ele perfilhados, num exemplo de eclectismo que caracteriza grande parte dos poetas portugueses na esteira da geração de 60.

 A leitura de «25 anos de palavras» permite-nos revisitar o percurso iniciado em «O Prisma do Poeta» (1978), continuado em «Máquina da Liberdade» (1988) e «Cais do Olhar» (1995), cujas edições há muito estavam esgotadas, um percurso enriquecido com textos publicados também em várias revistas e agora reunidos num volume de mais de duzentas páginas.

Artur Ferreira Coimbra é um poeta lírico, abraçando a sua poesia o lado solar da vida, reproduzindo-o em termos plásticos, a partir de belíssimas metáforas e imagens condensadas no seu quê de mágico e inebriante, algo como “luminoso rio verde/ interior às áleas/ e ao silêncio físico/ dos namorados em flor// os cisnes estão a mais/ e as noites sem água”, ou então “um quadro de chuva/ um ninho em maio/ um pinheiro rugoso/ de rasgar os calções// e estas pedras na memória/ onde sangrei os joelhos/ dos meus oito anos” (cf. pp. 78 e 79)

E se a poesia é “revelação”, a arte de dizer o que não se diz, como pretende Eugénio de Andrade, então Artur Coimbra é-o no seu mais alto termo de aprumo, mágoa e sugestão, ao transfigurar, por exemplo, cenários exteriores na expressão dos sentimentos do poeta, do homem que vê para lá do mundo e da física, do ser que fala pelas imagens que devora. Vejamos o poema «Adeus» (p. 145): “Em Setembro, as folhas/ amarelecem sob os teus olhos/ caem tristes ao redor/ da manhã/ como se feitas de lágrimas/ quando o sol/ acende os raios frios/ e o silêncio dos pássaros/ sem ramos/ para anoitecer// Setembro é o mês do adeus».

Folheando «25 anos de palavras», lendo-o devagar, mergulhando nele como se mergulha num oceano profundo e diverso, damo-nos conta do progressivo burilar das palavras, do jogo sedutor e magnético de certos substantivos (“sobre as dunas dos seios/ em bico/ inútil é matemática/ das sílabas”, cf. p. 143), em que a escassa armadura das palavras sobressai pela poder do estímulo, da surpresa dos sons ou pelo inusitado das associações de sentidos (tecnicamente chamada de «sinestesia»).

O percurso desta antologia, percurso de uma vida literária, define-se num movimento ascendente e humanizador, ascendente e humanizador no que tem de conseguimento literário e na escolha dos temas, cada vez mais próximos do respirar do sujeito lírico e mais afastados das grandes questões sociais e ideológicas, que assinala muito em concreto o primeiro livro do autor.

Cristaliza-se nesta obra uma procura de modernidade, uma procura definida sobretudo a partir de «Máquina da Liberdade» e uma modernidade que radica na tentativa de breve e incisivamente expressar a leitura do poeta sobre as “coisas” do mundo. Não será por isso estranha uma progressiva e meticulosa escolha dos vocábulos, como se descobertos numa garimpa mais selectiva e exigente, assim como convém a um poeta adulto. Nada ao acaso!

Para o leitor comum, este livro, em boa hora publicado pela Labirinto, traz a beleza daqueles textos que podem ser declamados, a beleza daqueles poemas que prefiguram situações do dia-a-dia (o amor, a luta pela liberdade, o canto da natureza, a vida em sociedade, a dor, as saudades) e que podem ser lembrados como se lembra o toque do sol, o ciciar de uma fonte ou o aroma das rosas, poemas que representam o melhor de nós, “quando a manhã acordar” (cf. p. 218).

No ano em que comemora vinte e cinco anos de vida literária, o nosso conterrâneo Artur Ferreira Coimbra, depois de ter publicado já o trabalho «Desafectos ao Estado Novo – Episódios da Resistência ao Fascismo em Fafe», em Abril último, merece as felicitações de quem, como ele, ama o prodigioso magma das palavras!

 

 João Ricardo Lopes (Professor e Escritor)