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a biblioteca submergida

CARLOS PESSOA ROSA

A Biblioteca Submergida[1]

de Flávio Viegas Amoreira

A simples repetição nada diz do desassossego da alma de um poeta. É na potência própria da linguagem, com suas nuanças temporais, geográficas, históricas e culturais, que a poesia repete sempre de um outro modo; intemporal. Submergindo Deleuze, sempre haverá uma Poesia do futuro, pois ela trabalha, assim como a filosofia, com a potência da linguagem e do pensamento.

Dentro dessa visão, da existência de uma patologia superior, é que Flávio Viegas Amoreira mergulha no etéreo indo ao encontro de um possível edifício onde, de um modo sempre outro, os tempos se encontrem:

releio: o giz, será a esfera a Dácia de Trajano?

portanto o que leio é vívido quanto relembrado

estranho em bélico colosso

e não mais falo somente sobre isso: vivo compreendendo quem

lá esteve

enfatizar é dar mais substância que preciso nos sentidos

signos se imaginam, imantam, bifurcam símile!

repartir o pão da dúvida, dialogar a dúvida, recontar as dúvidas,

reencontrá-la vicejando

repartir o pão da dúvida, ao chão de gretas espessas;

Árduo trabalho o do poeta, de sempre rever a repetição, fazer dela uma tarefa da liberdade, ensimesmado com Kierkegaard e Nietzsche, adoecendo para poder alcançar a cura, ir além da reminiscência, mais próximo do gozo do morrer e do viver:

a vida dá substância à Arte: o ator-poeta goza e pari ao mesmo

tempo

purga / alguém quer todos prazeres juntos sendo

Em que tempo, de que tempo, de que fundo, fala Flávio? Quem é essa figura intemporal, fingidor perfeito, que não descarta a cura ao brincar com as contrações e as retenções?

sou caramujo

estrela errada

vagante num esteira

ourifício mil milhas euadentreando

Trabalhar a síntese em um passado do ponto de vista da contemporaneidade, da coexistência e da preexistência, passado com o presente que ele foi, ou como quer Flávio com seus ‘Estrangeirismos cósmicos’:

Cais da Ribeira: os diálogos tomaram Zéfiro-corpo??

Memorabilia!! porra de lancha,

 

ferry-boats nela: estrada moura / nós homens preferimos

os loiros... guarda-roupa. cômoda. penteadeira.

 

o quarto na Noruega: aplicabilidade decodificada: um ganso

rasga de cabeça o fiorde /; tenho dois

Se há repetição, deve haver do poeta uma visão ética do procriar na arte:

escrever é ternura de pensar, como glicínias campônias/

nenufares/ bromélias. A ternura é um jeito de

 

olhar o desdém, ficar sentado em degraus, carregar sacolas de

livros, tirar sapatos no cinema, mijar em

 

garrafas de ônibus, recolher embalagens de balas, um contato

sem grande ligação, transa de dedos, superfícies

 

do Mar, geografia das águas, -cigarros em jaqueta, - terno sarro

satírico / incisão sem escrutínio. Atitude

 

afundada em náusea, sem lamento, -bocejo,- riso de ponta, -

ternura de lápis entre os dentes. Semblante

 

é um dos nomes ternos, -semblante de estar sozinho.- ‘Deus

meu! ficaste nu sem me antecipar favores!

 

Indivizível sujeito, vago banho, panos prateados, gases divinais.

Objeto parco, mas inteiriço. semblante;

No intemporal a experiência do sagrado se mistura com a idéia da morte, das cinzas, da transitoriedade:

Aconchegante asfixia enevolando-se irrestrita das páginas da

Mancha.

 

Acolhimento no frio digressões entrecho : lápidessem nomes / o

de Zeus o raio em dois túmulos:

 

Licurgo e Eurípedes / honra quem atinge : acrimônia,- pegar

largar,- sou dos que gostam e pronto!

Dentro das banalidades, do falso como verdadeiro, das repetições não repetições, do erótico comum, da memória espaço:

dentro aqui memória espaço. dentro espaço. passa, memória.

sorte latente : pensamento. cais aberto. Depois

 

da ponte/ a casa da alma vai aqui. nariz à boca, vivemos onde

sonhos não poderão ser desejos, -Witt. tenho

 

poesia que determina, e acho até que posso ser mais completo

que soldados e profetas, - com a missão de ir

 

O fim:

Deus é o feixo! Ligadura matriz fecunda. Morfemos.

Pai / Mãe /  Filhos / o Poeta cumpre a soma.

 

Carlos Alberto Pessoa Rosa[2]



[1] Amoreira, Flávio Viegas. A Biblioteca Submergida. 7Letras. 2003. editora@7letras.com.br

[2] Médico-escritor. Publicou ‘A cor e a textura de uma folha de papel em branco’, Contos. Ed. CEPE, 1998.